Por Pe. Hermes A. Fernandes
Tomemos como parâmetro em nossa reflexão somente o Brasil. Em se tratando de pobreza e injustiça social, todo nosso planeta chora a dor de nosso povo. O Povo de Deus. Falemos de Brasil, pois é o país em que vivemos, convivemos e somos Igreja. E, falando de Igreja, não são raras as vezes, nas quais, vemos em nosso conviver eclesial, pessoas dizendo que a missão da Igreja é salvar almas e não se ocupar de questões sociais e ecológicas. Como se vivêssemos em uma realidade etérea, como se fôssemos anjos. Dom Pedro Casaldáliga nos dizia que fazemos pastoral para humanos e não anjos. Hoje, nosso amado Papa Francisco nos exorta que mais do que aos humanos, a ação evangelizadora deve compreender toda a Criação. Toda a Casa Comum.
Homens, mulheres, natureza. A morte, geralmente gerada por políticas de morte, ameaça o bem viver. Toda Criação vive em constante alerta. Os governos – municipais, estaduais e até mesmo em âmbito federal – planejam seus investimentos sempre sob o crivo das compensações. As leis de diretrizes orçamentárias sempre se pautam pela contrapartida. Como marco referencial, o lucro. Consequentemente, os pobres – seus direitos e dignidade – ficam sob o desdém do déficit. Previdência Social, Políticas Públicas de Assistência Social, Educação em meio às periferias, Saúde Pública. Estes desafios não empolgam os governantes. É gasto sem contrapartida. Há quem diga que são ralos por onde escoam os dividendos dos cofres públicos. Como se a vida humana, sobretudo de quem se encontra em situação de vulnerabilidade, fosse um peso morto ao orçamento. Daí, quando pessoas defendem esses Direitos, os dos mais vulneráveis, há quem diga que isso é discurso vitimista, socialista, assistencialista. Tantas palavras que só nos deixam a conclusão de que os que se elegem com voto popular, quando eleitos, se esquecem que uma maioria esmagadora da população brasileira está em situação de pobreza. Portanto, abandonando os pobres, abandonam quem os elegeu.
Entre estes que desejam abandonar os pobres, há quem o faz, desfraldando a bandeira cristã. Cristãos, cidadãos de bem, que afirmam ser missão da Igreja salvar almas e não se preocupar com questões sociais e ambientais.
O que gera tanta pobreza? Nos centros urbanos, os industriais e empresários do comércio que querem sempre mais lucro. Isto, às custas de produzir mais pobreza. Para que a balança penda para o lado de sua ganância, os pobres – geralmente os que trabalham em suas indústrias e comércios, ficam cada vez mais pobres. Sem contar o esforço que vimos do Governo Federal anterior de cancelar direitos conquistados em décadas de esforços da sociedade. Direitos Trabalhistas, Previdenciários etc. É o governo eleito pelo povo, sendo usado como engrenagem do lucro de poucos, condenando à miséria uma grande maioria.
No meio rural, vemos que o agronegócio vê o meio ambiente e sua preservação como empecilho ao lucro. Chocou-me ouvir da parte de alguns que ecologia é uma praga do progresso. Florestas, rios, são produtos a ser explorados. Mesmo que a custa de se lesar permanentemente os ecossistemas. “Ecologia é um mau negócio!” “Direitos Trabalhistas favorecem a preguiça!” “Preservar os povos originários é manter a terra nas mãos de quem não contribui em nada para o progresso do país”… Mesmo aos de mínimo discernimento, estas falas podem parecer absurdas. Todavia, passamos seis anos – entre os governos Temer e Bolsonaro – ouvindo essas pérolas da desumanidade e irresponsabilidade para com a Casa Comum.
E, escandalosamente, há quem se diga cristão e católico, subsidiando essas ideias e projetos de morte. Como se a leitura da Palavra Revelada, a Bíblia de todos nós, tivesse uma edição diferente das que os cânones bíblicos nos apresentam. Onde Isaías não reprovasse as elites que exploram pobres e mulheres, condenando à opressão. E como se ele não criticasse a subserviência aos poderosos, em preterimento dos pequeninos de Javé. “O povo de Javé é um povo espoliado e roubado, todos presos em cavernas, trancados em prisões. Era saqueado, e ninguém o libertava; despojado, e ninguém dizia: ‘Devolvam isso’” (Is 42,22). Ainda fala que Javé está ao lado dos pequeninos, sofredores. “Não tenha medo, pois eu estou com você” (cf. Is 41,10; 41,13-14; Ex 3,12). Cito o Livro do Êxodo e do Profeta Isaías ao nível de exemplo. Toda a Bíblia nos mostra que o Projeto de Javé e de seu Filho, Jesus, é um projeto de Libertação. Daí nos perguntamos: a missão da Igreja é salvar almas? Mas não foi o próprio Deus quem agiu em favor da libertação sócio-econômico-política? O cativeiro no Egito e o Exílio na Babilônia nos servem de paradigma. Deus não abandona seu povo em situação de sofrimento. E a Igreja? Deve abandoná-lo? A Igreja deve se comprometer com o Projeto de Javé pelo Direito e pela Justiça (cf. Am 5,24). Falemos um pouco mais de Isaías. Sobretudo, a segunda parte do Livro, o Segundo Isaías.
A Palavra de Deus tem a força de gerar vida: “Da mesma forma como a chuva e a neve, que caem do céu e para lá não voltam sem antes molhar a terra, tornando-a fecunda e fazendo-a germinar, a fim de produzir semente para o semeador e alimento para quem precisa comer, assim acontece com a minha palavra que sai de minha boca” (Is 55,10-11). O novo êxodo, a mudança de vida dos sofredores, depende da comunidade acreditar, arregaçar as mangas e se pôr a caminho. Em nosso tempo, devemos acreditar que na Igreja se constrói o ideal de uma nova sociedade. Fraterna e justa. E nesse rumo, nessa meta, devemos caminhar.
O livro do Segundo Isaías termina com a procissão de volta à terra: “Vocês sairão com alegria e serão conduzidos em paz. Na presença de vocês, colinas e montes explodirão de alegria, todas as árvores baterão palmas” (Is 55,12). A natureza se transformará: em vez de espinhos e urtigas, ciprestes e murtas, em árvores que dão sombra (cf. Is 55,13a). A saída da Babilônia será verdadeira festa: “Será um monumento eterno, que nunca se apagará” (Is 55,13b). Estas perícopes nos animam na esperança por dias melhores. Por uma atualização do texto, a Babilônia pode nos significar o sofrimento de uma sociedade injusta e Jerusalém, a terra do bem querer, da partilha e da fraternidade.
O principal objetivo da mensagem do Segundo Isaías é suscitar a fé e a esperança das pessoas exiladas. Em meio à opressão da Babilônia, esse grupo profético procura recuperar a memória do êxodo, afirmando que Javé novamente vai libertar o seu povo. Em nosso tempo, a libertação pode nos significar vida plena, digna e justa aos empobrecidos, aos vulneráveis.
O livro do Segundo Isaías ajuda as pessoas a se reerguer. São palavras de encorajamento que devem ter caído no coração de muitas pessoas, criando raízes. Motivado por essa profecia, o povo se reúne e começa a preparar o projeto de uma nova sociedade, onde todas as pessoas tenham condições dignas de vida. É preciso ajudar o povo a sonhar, a não perder a esperança de buscar uma nova terra. Esta ajuda é papel da Igreja que, profeticamente, continua sendo a voz de Javé e de seu Filho hoje.
Temos em mãos algumas chaves para ler o Segundo Isaías. Você poderá mergulhar nessa leitura e descobrir que Deus é um eterno apaixonado por seu povo e está sempre disposto a renovar sua aliança com ele, ajudando-o a se reunir, se organizar e caminhar. Que essa certeza possa animar a nossa vida!
Falando eclesialmente, ainda iluminados pela Palavra Revelada, pensemos nas conclusões da Conferência Episcopal de Aparecida. A Igreja na América Latina realizou em Aparecida, de 13 a 31 de maio de 2007, a 5ª Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe. Seu documento conclusivo apresenta as diretrizes para a Igreja em nossa realidade. A conclusão do documento retomou incisivamente a ideia central de “despertar a Igreja na América Latina e Caribe para um grande impulso missionário”. No horizonte está “uma grande Missão Continental”, cujo projeto e desejo o texto mencionou em vários lugares. Ao falar das CEBs, reconheceu-as como “ponto válido de partida” para uma Igreja Missionária e Samaritana. O que vem desmentir alguns influencers que insistem em dar às CEBs uma alcunha nociva à Igreja.
Sobre a opção pelos pobres, o Documento de Aparecida propõe e exorta: a Igreja tem uma preferência pelos pobres e eles ocupam lugar de especial atenção na Igreja. Esse é um consenso geral, que nos põe a caminho, em constante estado de missão e profetismo.
Por fim, sob a perspectiva de não se perder de vista a dimensão social e profética da Ação Evangelizadora, vale lembrar as Diretrizes gerais desta Ação, propostas pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil:
Evangelizar no Brasil cada vez mais urbano,
pelo anúncio da Palavra de Deus,
formando discípulos e discípulas de Jesus Cristo,
em comunidades eclesiais missionárias,
à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres,
cuidando da Casa Comum e testemunhando o Reino de Deus rumo à plenitude.
A Igreja deve estar em plena comunhão com a vida de seu povo. Deve ter um olhar na realidade e outro no sonho de Deus, conforme se faz revelar na Palavra. Ainda temos os Documentos do Sacro Magistério que nos ajudam a atualizar a hermenêutica Bíblica. Neste sentido, não há como anunciar outro Evangelho que não nos impulsione à uma Igreja Missionária e Samaritana. Com jeito humilde e paixão, anunciado o Reino de Deus e sua Justiça, na expectativa deste Reino em definitivo.
E se depois desta nossa conversa, à guisa de reflexão, você ainda se perguntar se a Igreja deve se ocupar de questões sociais e ecológicas, pense na realidade que nos cerca. A cada dia, temos mais e mais pessoas em situação de rua. Homens e mulheres que trabalham em condições análogas à escravidão é um terror que voltou a assolar o campo e a cidade. A indústria do sexo, ainda hoje, deixa mulheres e homens prostituídos, prostituídas, em condições igualmente análogas à escravidão. Onde se adquire dívida com os agenciadores do meretrício e têm sua liberdade sequestrada em nome de suposta dívida. Neste caso, temos trabalho escravo e tráfico de pessoas humanas. Absurdo, como contexto para o século XXI! Nas periferias das grandes cidades, a crise do saneamento básico, a violência, entre tantas outras mazelas, afligem os pobres favelizados; negando-lhes vida e dignidade. No meio rural, ribeirinhos, quilombolas, indígenas, trabalhadores; são explorados, desterrados e mortos pelos agentes da grilagem de terra e em prol do progresso do agronegócio.
São políticas de morte com muitas faces. A Igreja deve se manter omissa diante de tudo isso? Se houver dúvidas ao responder essa pergunta, pense que cada um ou cada uma dos que descrevi acima em situação de vulnerabilidade e injustiça, fosse – em verdade – sua filha, seu filho. Ou melhor, e se fosse você? Deus deveria lhe abandonar? A Igreja deveria fazer olhos cegos e ouvidos surdos ao seu sofrimento e ao seu clamor? Pense nisso!
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