“Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles.”
(Mt 18,20)
Por Pe. Hermes A. Fernandes
É preciso manter sempre o coração pulsando ao ritmo do Espírito. É por este pneuma sagrado que a Igreja de Jesus caminha, animada e atenta às suas responsabilidades advindas do Evangelho e inseridas na História. As propostas para toda Igreja Católica oriundas do Concílio Vaticano II devem ser constantemente retomadas, refletidas e novamente propostas com as devidas atualizações e contextualizações de tempo e espaço. A Igreja no Brasil, lançou em 2016, um rico documento, cujo número é o Doc. 105, e título “Cristãos leigos e leigas na Igreja e na Sociedade”. Se trata de um esforço por refletir a vida da Igreja, afirmando mais uma vez sua compreensão como Povo de Deus, já destacada no documento conciliar Lumen Gentium, no segundo capítulo do referido ordo. O presente texto procura ler o Doc. 105 à luz da Lumen Gentium enfocando o protagonismo leigo e leiga na vida eclesial e na sociedade. Acentua-se o protagonismo leigo cujo advento se faz com uma melhor e maior compreensão da Igreja como Povo de Deus, unidas pelos laços do sacerdócio comum dos fiéis. O fundamento, portanto, de toda atuação dos leigos será conceituado a partir do sacerdócio comum dos fiéis, fonte de status de pertença eclesial e de direitos de pró-atividade na vivência eclesial e na sociedade.
O Concílio Vaticano II afirmou com grande força que a Igreja é um mistério por ser paradoxal, ou seja, responde por uma realidade divina e humana, visível e invisível, terrena e celestial, santa e pecadora. Por isso, é certo que todas as indagações feitas sobre a Igreja devem levar em conta este dinamismo que lhe é próprio, pois estas realidades estão inquestionavelmente entrelaçadas.
O grande perigo que se tem percebido hoje é olhar a Igreja somente em seus aspectos divinos ou apenas humanos, ora exagerando um, ora desprezando o outro. Aqui, justamente, encontramos o Tema do Documento 105 da CNBB, “Cristãos leigos e leigas na Igreja e na Sociedade – Sal da Terra e Luz do Mundo (Mt 5, 13-14)”, que busca um equilíbrio da vida cristã ressaltando a sua presença dos leigos e leigas no mundo e pertença eclesial.
Cabe, então, à Igreja afirmar sua verdadeira identidade. Somente por uma plena consciência de quem ela é, a Igreja pode se firmar no meio do mundo, dialogando com as oposições e respondendo aos novos desafios. Nesse sentido, temos a plena certeza de que foi para responder às novas transformações do mundo que a Igreja refletiu sobre si mesma durante o Concílio Vaticano II, elaborando um rosto novo de ser Igreja, envolta ao seu mistério originante e segura de seu destino eterno. Isso tudo pensando na salvação de todos os seres humanos, congregados em um único povo, ressaltando a condição única do batismo a todos, dando maior importância ao papel do leigo e leiga na vida da Igreja e por consequência, na sociedade.
Como a Igreja tem que se atualizar sempre, maior chave referencial para essa atualização são as assertivas do Concílio Vaticano II. Isso posto, a Igreja no Brasil, pensando no papel dos leigos e leigas, elaborou o Documento 105, que trata da vida dos cristãos leigos na Igreja e na Sociedade. Nosso desejo neste texto é apontar alguns conceitos utilizados pelo Documento 105 para explicitar a vida cristã, na Igreja e na Sociedade, resgatados da Lumen Gentium, para toda Igreja no Brasil.
As Origens do Documento 105
Quando da celebração dos 50 anos do Concílio Ecumênico Vaticano II, em 2012, momento que abriu a reflexão mais direta e clara da Igreja para a presença e atuação dos leigos e leigas na Igreja, com uma teologia bem elaborada sobre os mesmos. O Concílio trouxe muitos avanços sobre o modo de ver os leigos e leigas na Igreja e no mundo.
Em 2014, a CNBB teve como tema de sua Assembleia Geral a pessoa dos leigos e leigas. Uma comissão foi formada com a missão de elaborar a primeira redação de um documento sobre o assunto. Este documento-Estudo, que recebeu o número 107 como texto de estudos, foi apresentado na Assembleia e sofreu alterações e emendas. Foi enviado às dioceses e paróquias para ser estudado, recebeu centenas de emendas e sugestões e voltou para a Comissão da CNBB.
Em 2015, o texto já refeito considerando as sugestões que vieram das bases, foi apresentado aos bispos em sua Assembleia Geral e recebeu, novamente emendas e sugestões. Retornou às bases mais um ano para estudos e aprofundamentos. Daí saiu uma nova edição, o 107-A, ampliado e emendado.
Em 2016, a Assembleia teve como tema central os Leigos e Leigas. Chegou, finalmente, a hora de aprovar o Documento de modo oficial. Assim, surgiu o Documento 105 “Cristãos leigos e leigas na Igreja e na Sociedade”.
Leigos e leigas a Caminho
O laicato ganhou sua visibilidade e força, de modo especial, a partir do Concílio Vaticano II, realizado entre os anos de 1962 a 1965, sob o pontificado dos Papas João XXIII e Paulo VI. Em 1987, tivemos o Sínodo sobre os Leigos e Leigas, em Roma. Dali surgiu uma Exortação Apostólica, escrita pelo então Papa São João Paulo II, chamada “Christifidelis Laici” (A vocação e a missão dos leigos na Igreja e no mundo).
A CNBB já tinha escrito outros documentos sobre os leigos e leigas. A exemplo o número 62 “Missão e Ministério dos Leigos e Leigas”, 15 anos antes do Doc. 105.
Cristãos, leigos e leigas na Igreja e na Sociedade: O que isso vem nos significar?
Cristãos: Os leigos e leigas são, inicialmente, cristãos. Isto dá aos mesmos um diferencial em sua missão. Antes de pensar em ser agente de pastoral, cada pessoa é cristã. Isso define sua vocação, sua identidade e sua espiritualidade. Essa marca se adquire pelo Batismo. O ser leigo ou leiga vem por opção como vocação.
Na Igreja: Presentes no âmbito eclesial, impulsionados pelo Batismo, os cristãos leigos e leigas são chamados a não somente estarem na Igreja mas, principalmente, a serem Igreja viva. Inseridos nos mais diversos campos de ação, cada um deve dar testemunho do seu ser Igreja onde quer que atue no campo social e não apenas dentro das quatro paredes de um templo.
Na Sociedade: Se olharmos com atenção, perceberemos que as malhas da sociedade, em seus diversos campos e níveis (política, educação, economia, saúde, etc) é composta por leigos. É o mundo o seu campo principal de atuação, onde os leigos e leigas têm a missão de levar os valores do Evangelho. O Vaticano II dizia que a vocação e o modo de ser e agir dos leigos e leigas é nas realidades do mundo, como “sal da terra e luz do mundo” (cf. Mt 5, 13)
O caminhar eclesial se constrói em comunhão. Para que isso se concretize, é preciso que a fé seja testemunhada pelas obras. Nesse sentido, a ação da Igreja é a extensão da ação de Cristo que optou preferencialmente pelos mais pobres e marginalizados. As ações de Cristo são modelos para a ação da Igreja no mundo. É assim que surge a consequência para a vida da Igreja de que também tome para si a mesma opção de Jesus pelos pobres, vivendo ela mesma a pobreza evangélica e lutando para livrar da miséria os muitos filhos de Deus. A ação da Igreja é mais eficaz quando olha a realidade e por ela é interpelada, especialmente quando se vive em um contexto de opressão, como é o caso dos povos latino-americanos.
Somos chamados, pelo ainda atual Documento 105, a viver este mesmo espírito de renovação eclesial, viver nossa vocação de Novo Povo de Deus, sal e luz sobre a face da Terra (Cf. Mt 5,13-16). Tão caras nos são essas exortação, pois o próprio o lema do Doc. 105 interpela para que os cristãos leigos e leigas sejam “sal da terra e luz do mundo” (Mt 5,13-14).
Animados pelo ardor e zelo pastoral, impulsionados pelo Espirito Santo de Deus, devemos todos nós – ministros ordenados ou não – atuar em plena comunhão. Construindo comunidades em que se viva os valores do Evangelho, à luz da Opção Preferencial pelos Pobres, adiantando – aqui na terra – os referenciais do Reino Definitivo. Todos somos Igreja, com igual valor e responsabilidade, pois estamos unidos na Pessoa do Cristo. “Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles.” (Mt 18,20)
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