Beber da Fonte dos Pobres

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Vivemos em um mundo de livros. Na Igreja, são inúmeras as publicações, diversos os temas. Sejam teológicos, antropológicos, filosóficos, afins. A comunidade cristã, deste os primórdios, preza pela cultura. Sim, somos uma Igreja de leitores. Lemos a fé nas letras, desejando entender e pragmatizar a fé na vida.

Com o caminhar de mais de 2000 anos de história cristã, podemos inferir uma lição: devemos aprender dos livros, das academias e, paralelamente, apreender da vida. A lição de fé mais pungente que podemos tocar, vem do viver e celebrar do Povo de Deus. Sobretudo, os mais simples.

São Francisco nos deixou esta lição em sua vida. Há 800 anos que sua lição nos anima e inspira, no caminhar e agir, de uma Igreja pobre entre os pobres. Na história do Poverello de Assis constatamos sua opção em permanecer leigo. Não sobe aos púlpitos das catedrais. Prefere as praças, as vielas, os lugares ermos. Reza com o povo, com ele trabalha, partilha a fé e a vida. Vive entre os humildes, sendo ele o menor.

Em nossos tempos, nosso amado Papa, homônimo do Santo de Assis, propõe essa retomada do ser e agir de Francisco de Assis e da Igreja Primitiva, onde todos tinham seus bens em comum e os partilhavam (cf. At 2,44). Dividiam seus dons materiais e, (por que não?), os afetivos, intelectuais, espirituais. Penso que este seja o cerne do ainda recente Sínodo para a Amazônia. Mais que tratar das questões de sustentabilidade, desejou pensar, sonhar e celebrar a Igreja dos pequenos em terras Amazônicas. Ouvir os povos originários, pensar em uma Igreja missionária, não viciada nas relações de poder e aprimorada na relação fraterna. Somos todos Povo de Deus e estamos no exercício da construção do Reino. O Sínodo para a Amazônia inaugurou uma nova era. Talvez não tão nova, pois traz à baila uma Igreja mais inspiração do que instituição, mais carisma e menos poder. Uma experiência já vivida pelos primeiros cristãos. Fomos uma Igreja Carisma. Podemos sê-lo novamente! O calor do sonho de Jesus ainda arde em “brasas sob cinzas”.

Repensar uma Igreja a partir dos pequenos, escutando os Povos, as Realidades Amazônicas, as Realidades Sertanejas, Operárias; é remontar e restaurar o sonho da Igreja de Jesus. Uma Igreja mais terna e fraterna. Comprometida com a Vida. Profética, Celebrante, solidificada na Palavra de Deus e na Vida. Para tanto, precisamos desconstruir os arquétipos de uma Igreja essencialmente Poder, construindo uma Igreja Comunidade Evangelizadora. “Evangelizar não é expandir o sistema Cristão. É conviver fraternalmente. Compartilhar do trabalho, assumir a vida do outro. Valorizar sua cultura que contém as sementes da Verdade Eterna. Evangelizar é viver, sofrer, sorrir, trabalhar, morrer dentro do mundo do outro, para salvar-se com o outro” (Leonardo Boff).

Convido aos irmãos e irmãs que revisitem os documentos recentes da Igreja. Desde o Concílio Vaticano II. Eles nos apontam uma verdade que, muitas vezes, teimamos em esquecer ou ignorar. Somos Povo de Deus! A caminho da Jerusalém Eterna. Indígena, negra, operária, sertaneja, plural. Toda Casa Comum é Casa de Deus. Não deixemos morrer o sonho do Sínodo da Amazônia!


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