Por Pe. Hermes A. Fernandes
Nos dias atuais, percebemos um pouco de maniqueísmo em nosso pensar e agir. Também este dualismo se faz presente no celebrar e na espiritualidade. Há quem sempre prese pelo céu, dizendo ser ele o importante. Como se nossa vida terrena fosse um estágio probatório, no qual, devemos “segurar as pontas até Jesus voltar”. Tudo que é humano e terreno é visto com desconfiança, demérito. Nesta ideia maniqueísta se despreza o Dom da Vida Humana em preferência à participação na glória divina. Uma espiritualidade angélica. Pessoas que vivem a constante expectativa da parusia, sem viver de forma protagonista o caminhar humano. São estas pessoas que apregoam frases de efeito, palavras de ordem como: “ou santos, ou nada”, “somos cidadãos do céu” etc. Esquecem-se que a encarnação do Verbo nos aponta para ressignificação da vida humana e não a anulação de seu valor no coração divino. ‘‘Pois Deus amou de tal forma o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele acredita não morra, mas tenha vida eterna.” (Jo 3,16).
Em contrapartida, há quem pense de forma meramente imanente. Onde só o palpável, histórico, mensurável; é valido. São pessoas que pensam a religiosidade como uma militância árida, negando de forma categórica a transcendência. Aí o caminhar cristão passa a ser vazio de esperança e beleza. Vida sem fé, vigor sem ternura, é dor e sofrimento.
Os dois modelos acima, quando vistos de forma dualista e excludente, estão equivocados. Nem tanto ao céu, nem tanto à terra. Espiritualidade converge para a mística. A mística agrega, constrói, edifica. Não é excludente ou absolutista.
” A Espiritualidade Cristã se parece com a umidade e a água que mantém encharcada a grama para que esteja sempre verde e em crescimento. A água e a umidade do pasto não se vê, porém, sem elas a grama seca. O que se vê é o pasto, seu verdor, sua beleza. E é a grama que queremos cultivar, porém, sabemos que para isso devemos mantê-la úmida!” (Segundo Galilea – Chile)
A partir da analogia acima, podemos pensar que a mística pessoal é o que marca, sela, dá originalidade a todo nosso ser. Revela nosso olhar sobre o mundo, no jeito que sentimos, no jeito que acolhemos às pessoas que nos cercam, nas nossas mãos que – junto com outras mãos – constroem um mundo melhor. Espiritualidade também é profecia: é no nosso grito – diante de uma situação injusta, que se revela uma mística transformadora. Também é contemplação: no nosso parar para contemplar e embebedar-se da alegria de estarmos vivos ao final de um dia de lutas. A mística é entender, agir, rezar e celebrar a integridade de nossas vidas. A verdadeira mística não é alienada da realidade, não rompe relações humanas, não constrói muros entre aqueles e aquelas que peregrinam animados pela Palavra e alimentados pelo Pão. É fé, vida e comunhão!
A comunidade cristã vive em constante busca existencial. A necessidade de encontrar sentido para suas vidas e as respostas para os problemas que surgem cotidianamente, leva cristãos e cristãs a buscar e aproximarem-se de Jesus Cristo Libertador. Com isso, a espiritualidade – a experiência de Jesus – deve ser encarnada e levar os discípulos e discípulas do Mestre a inserirem-se em seus meios e a responder às exigências que surgem das situações de pobreza, injustiça e violências, as quais, são submetidos muitos de nossos irmãos e irmãs.
Jesus não pede que se cumpra a “Lei e a Tradição”. Ele pede que mudemos nosso modo de agir e pensar. Este é o chamado à conversão que a chegada do Reino traz consigo. Esta conversão não se refere a prerrogativas meramente morais, cheirando ao moralismo. É converter-se ao Bem Comum, ao mútuo cuidado, à edificação do homem e mulher, para que todos e todas tenham vida e a tenham em abundância (cf. Jo 10,10). Para tanto, precisamos de íntima relação com Jesus, “vivendo segundo o Espírito” (cf. 1Cor 12,3; Rm 8,9).
Ainda mais: a mística que deve nos alimentar precisa ser marcada pela atitude de esperança diante das situações da vida, diante do mundo. Esperançar, sempre! Não ficar rancorosos ou amargurados diante dos pegues e pagues da vida e, sim – em Jesus – confrontar as situações de sofrimento e morte, levando liberdade e vida a todos e todas que nos cercam. A mística cristã deve impulsionar o homem e a mulher a anunciar a Boa Nova, espalhando doçura – sem abandonar a necessária justiça – em todas as relações humanas e para além da humanidade, ou seja – a toda Casa Comum.
Disse-nos Jesus: “Eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21,5). E é por isso que devemos sempre viver e celebrar a partir de uma espiritualidade pascal. Estando em constante estado de libertação, é através da festa, da dança, da corporeidade, que a gente manifesta a expressão de nossa confiança e experimenta a realidade transformadora do Reino de Deus.
Neste agir e celebrar, precisamos entender que nossa espiritualidade é marcada pela riqueza cultural. Somos um país de muitos costumes, jeitos, histórias. Cada lugar tem sua característica especial. Isso faz com que tenhamos a sensibilidade de estar muito abertos, com espírito acolhedor, às diferenças que formam a riqueza em nossa unidade. Diversidade não exclui! Ao contrário: agrega, enriquece.
Enfim, nós – homens e mulheres – cada pessoa que se sentir motivada a cultivar a espiritualidade no cotidiano, deve entender-se vocacionada ao anúncio da Boa Nova, do Reino de Deus e de sua Justiça. Com jeito humilde e paixão, construir este Reino já agora entre nós, na expectativa do Reino Definitivo. Afinal, a esperança e a fé fazem de nós pessoas corajosas, testemunhas, sinais vivos e presentes do Reino.
Uma espiritualidade para nosso tempo deve estar centralizada na Pessoa do Cristo e encarnada na realidade. Fé e Vida, Terra e Céu.
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