Os Caminhos do Senhor na História | Por uma Espiritualidade do Cotidiano

Por Pe. Hermes A. Fernandes

É inegável a constatação de que a espiritualidade se relaciona com “andar nos caminhos do Senhor”. Todavia, às vezes, somos meio que cegos na percepção das pegadas de Deus, temos dificuldades de entender seu caminhar. Seu revelar na história. Fomos acostumados a buscá-lo nas chamadas “coisas do alto”. Nada mais “do alto” que Jesus e, no entanto, o Messias encarnado andou muito concretamente, deixando suas pegadas, pelos caminhos desta terra. Dos seus tradicionais trinta e três anos de vida, consta que trinta deles foram vividos em uma aldeia obscura, Nazaré da Galileia, sem grandes feitos a registrar. Pelo que se vê no Evangelho, Jesus era tão comum quanto qualquer outro jovem do lugar, ao ponto que seus vizinhos não podiam atinar como conseguira se fazer famoso, “lá fora” (cf. Mc 6,2-6). Nem mesmo estava permanentemente ao serviço do Templo, como acontecera como o Profeta Samuel, que esteve institucionalmente ao serviço do Senhor desde a infância. No entanto, podemos perceber que o ensinamento e a espiritualidade de Jesus traz vestígios significativos do que deve ter aprendido e vivenciado no dia-a-dia de Nazaré. Isso transparece no jeito próprio de ver as coisas mais simples e fazer delas motivos para revelar a presença de Deus. Por isso fala de acontecimentos de todo o dia: a mulher varrendo a casa ou amassando o pão, lírios e passarinhos, gente desempregada à beira do caminho, figueiras, plantações de uva, colegas de trabalho que pedem dinheiro emprestado numa situação de aperto, gente convidada para uma festa… No cotidiano Jesus ia recolhendo material para ser sinal do Reino. É que Jesus era um contemplativo num estilo bem profundo. Bebia das fontes da vida e da história para ensinar a ressignificação da vida e da história, ou seja, o anúncio da Boa Nova.

Contemplação. Palavra muito usada hoje para figurar a relação humana com as “coisas do alto”. O que de fato pode nos significar esse conceito? Contemplar é um modo de olhar: um olhar que se descobre o que não se vê. Pode ser que alguém leia essa frase e pense que estejamos falando somente de coisas do céu, dos anjos e santos, de assuntos desligados das realidades materiais, consideradas “inferiores”. Mas não é isso! Trata-se de olhar para tudo, principalmente a concreta realidade de cada dia, e descobrir o sentido de cada coisa, de cada fato, da vida de cada ser humano e todas as criaturas. É um jeito de ler o mundo, e esse nosso jeito de ler o mundo depende do tipo de pessoa que nós somos. Nesse sentido, a espiritualidade de cada um é o filtro através do qual se percebe o significado escondido do que se vê e o sentido com o qual cada um constrói seu projeto de vida e a ele se entrega.

“Ver o invisível” é experiência que todos aqueles que amam fazem muitas vezes sem saber explicar. Vemos na pessoa amada algo que outras pessoas não veem, porque olhamos através do sentimento que descobre como aquela pessoa é única e como o mundo ficaria imensamente mais pobre e triste sem que ela existisse. É desse jeito que vemos tudo que nos fala ao coração: objetos que guardam lembranças, filmes, livros, emoções. Percebemos um valor escondido em cada coisa, em cada acontecimento, em cada pessoa; e isso desperta em nós sentimentos, atitudes, preferências, decisões, rejeições, vontade de assumir (ou não) compromissos.

Em outras palavras, nossa espiritualidade tem íntima relação com as motivações que nos impulsionam, com a força que nos leva a agir. Com as coisas que nos enternecem ou nos deixam furiosos, com a sensibilidade para perceber valores, apelos etc. E tudo isso nos chega todos os dias nos fatos mais comuns da vida, e não somente em retiros, encontros de oração, liturgias. A espiritualidade deve ser uma transcendência do cotidiano, no cotidiano. Como nos diz Frei Betto, experimentar no Cotidiano o Mistério. Aliás, a qualidade de nossos possíveis encontros de oração e liturgias, depende muito da maneira como cultivamos essa espiritualidade diária da contemplação do que há de mais comum na vida. O inverso também é verdade: momentos de orações, retiros – pelos quais se proporciona uma intimidade maior com Deus – podem enriquecer com novas luzes nosso modo de contemplar tudo que vemos e que nos acontece. A espiritualidade ilumina a vida e a vida dá sentido à espiritualidade.

É por isso que podemos dizer que todas as pessoas, e não só as declaradamente religiosas, têm algum tipo de espiritualidade. Essa espiritualidade pode ser de melhor ou pior qualidade, mas – em todo caso – estará presente em todo o mundo porque é o conjunto e a direção dos valores e motivações de cada pessoa. Existe, porém, uma espiritualidade tipicamente cristã, que nos ajudaria a ver o mundo com os critérios, a compaixão, a ternura, a solidariedade e até a indignação de Jesus de Nazaré. E essa percepção, essa espiritualidade cristã, também passa pelas realidades concretas do dia-a-dia, já que o mais marcante em Jesus é que, através dele, o próprio Deus quis se fazer solidário e presente na vida humana, desde a grande tragédia das injustiças e sofrimentos, até o que ela tem de mais simples e corriqueiro. Tudo isso nos leva a assumir o seguimento de Jesus nas situações mais concretas. Com Jesus aprendemos que não temos outro caminho para irmos ao céu, além daquele que passa pelas realidades da terra. Os grandes santos também descobriram isso. Santa Teresa dizia que Deus “anda pelas panelas”. Com igual acerto, podemos dizer que ele anda nas fábricas, nas escolas, vai conosco ao shopping, à farmácia, à uma festa de aniversário dos amigos, lê conosco as notícias, passa pela praça onde dormem os que estão empobrecidos, os desabrigados. Deus se revela no cotidiano e no mistério, como nos ensina Frei Betto. Das deslumbrantes revelações de beleza na Criação, à iracúndia profética diante das injustiças, Deus aí está. Tão pleno, tão presente, tão real!

Refletindo sobre a manifestação de Deus na realidade histórica, podemos afunilar nosso pensamento para a pessoa de Jesus de Nazaré, a face humana de Deus. Javé mostrou coisas espantosas em Jesus de Nazaré. E o mais espantoso não é ressuscitar Lázaro depois de quatro dias de enterrado. Ou curar leprosos. Ou transfigura-se diante de Pedro, Tiago e João. Espantoso é Deus se importar tanto com o ser humano a ponto de querer tornar-se um de nós, sem fazer disso um teatro, vivendo de verdade as grandes e pequenas alegrias e dores da existência humana. Muitas pessoas aprendem que Jesus é divino, mas não prestam atenção no fato de que Jesus nos revela o lado humano de Deus. Através dele, Deus participa de coisas muito nossas: o aconchego de uma família, a animação de nossas festas, a intimidade de alguns amigos mais chegados ao coração, as brincadeiras próprias da infância, a aventura de aprender, a dor da perda de pessoas queridas e também, é claro, experimenta o terror da tortura e da morte, frutos das ambições humanas. O Deus revelado em Jesus toma posição diante da maneira como a vida está organizada: não quer que se perca “nenhum destes pequeninos”, diz que tudo que fazemos aos doentes, famintos, desamparados, encarcerados; é feito a ele. E mais: afirma que últimos deste mundo são os primeiros no seu Reino.

O Deus revelado em Jesus é profundamente humano, sem deixar de ser Deus, o Santo, aquele cujo mistério nos ultrapassa. Porquanto, espiritualidade é experimentar esse Deus Santo no cotidiano, assim como Jesus o revelou no dia-a-dia da Família de Nazaré e no convívio com seus primeiros discípulos.

Neste mesmo viés de pensar, podemos entender o conceito de religião. Como a própria origem latina da palavra se faz explicar, a religião religa (religare), reconecta, restaura relação. De Abraão (+ ou – 1850 a.C) até os primeiros cristãos e cristãs, temos relatos bíblicos da iniciativa de Deus em se aproximar e participar da vida humana. Aqui se concentra o cerne do conceito de religião. O céu sempre quis aproximar-se da terra, fazendo destas duas realidades uma só. Na Bíblia, Deus se revela no cotidiano das pessoas. No sofrimento, nos sonhos e expectativas, nas alegrias. Por isso ele se revela YHWH, EU SOU. Nosso Deus é, de forma essencial e não acidental. É conosco. Está com a gente. Participa, transforma, ressignifica. Devemos crer nesse Deus. Um Deus que é com a gente. Amoroso, presente, fiel. Aqui se entende o porquê da religião. Religa, restaura, convive em intimidade. Deus e nós.

O importante hoje não é saber se alguém é religioso ou ateu. Importante é perceber de que tipo de Deus somos crentes ou em relação a que tipo de Deus somos ateus. Explico-me: muita gente que diz não acreditar em Deus, quando o diz, está confessando não crer na imagem de Deus que lhe foi apresentada. E de fato têm razão, pois há muita caricatura de Deus por aí. Um Deus punitivo, mal humorado, sisudo, intolerante. Como pode um Pai destinar seus filhos ao fogo do inferno? Isaías nos mostra essa inverdade quando compara Deus a uma mãe.

Mas pode a mãe se esquecer do seu nenê, pode ela deixar de ter amor pelo filho de suas entranhas? Ainda que ela se esqueça, eu não me esquecerei de você. Veja! Eu tatuei você na palma da minha mão…” (Is 49,15-16)

Deus não pode se esquecer ou abandonar seus filhos. A verdadeira religião não pode anunciar um Deus diferente deste que se faz revelar por Isaías. E tal revelação se confirma em Jesus, quando esse Deus se nos é apresentado com Abba, Paizinho. Todavia, há quem anuncie um Deus condenador, tirano. Diferente do Deus-Amor do Evangelho.

Espiritualidade é experimentar este Deus-Amor. É poesia, canto, partilha. Espiritualidade é enamorar-se de nosso Sumo Bem, Altíssimo e Onipotente; mas presente no meio de nós, como afeto e ternura. Todavia, há quem diga que crê em Deus, mas o mantem longe, fora de sua vida, sentado com muita glória e pompa num trono nas alturas. Esse Deus distante pode servir de excelente pretexto para que, quem afirma nele crer, se afastar das pessoas, da vida concreta.

Um Deus alienado da realidade secular, separado do mundo; fabrica religiosos separados, afastados do mundo. Porém, esse Deus alienado e alienante não existe na Bíblia. Anunciar um Deus “pompa e circunstância” é a forma mais comum de idolatria hoje. Se não é encarnado na Vida e na História, se não promove a Dignidade e a Vida, não é Deus. Uma fé que se expressa fora da realidade não é espiritualidade, é idolatria.

Espiritualidade é sentir presença de Deus ao nosso redor. Perceber sua ação na história. Senão, nossa oração e liturgia estarão divorciadas da vida, que é onde, de fato, temos que caminhar com Deus. Há um livro muito bonito chamado Espiritualidade da Libertação, escrito pelo saudoso D. Pedro Casaldáliga, publicado pela Editora Vozes. Nele podemos ver um ótimo resumo do que significa a espiritualidade do cotidiano. Está escrito: “Dizei-me como vives um dia comum, um dia qualquer, e te direi se vale o sonho de amanhã”.

Nas pequenas coisas, está a essência da vida e se manifesta a Pessoa de Deus. Deus com a gente. Deus em nós!


Deixe um comentário

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑