Formando Comunidades Missionárias ao serviço do Anúncio do Evangelho

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Qualquer comunidade eclesial precisa se convencer de que a missão primeira é Evangelizar. Este é o sonho de todo e qualquer cristão e cristã. Mas o que é Evangelizar?

Cada grupo eclesial, de maior ou menor número, deve ter essa questão latente em seu caminhar. Quem se dispõe a formar ou compor um grupo eclesial deve entender que a pessoa humana é integral e não fragmentada. Evangeliza-se a pessoa toda, não um mero fragmento dela. Não se pode entender que a missão da Igreja é salvar almas, se não entendermos alma como sinônimo de pessoa. Pessoa humana. Toda ela, integralmente. É um processo de salvação, ou libertação integral.

Para sermos homens e mulheres livres e libertadores é preciso que a formação experimentada durante a caminhada nos ajude a desenvolver todas as dimensões de nossa vida. Uma formação integral, porque a pessoa humana é integralmente complexa. Por isso, devemos cuidar de todas as dimensões humanas:

  1. Dimensão afetiva, ajudando-nos a ser pessoas ternas e fraternas de forma madura e responsável;
  2. Dimensão Social, integrando criticamente a pessoa no grupo e na comunidade;
  3. Dimensão Espiritual, ajudando-nos a crescer na fé;
  4. Dimensão Política, desenvolvendo o senso crítico e ajudando a tornarmo-nos sujeitos transformadores da história;
  5. Dimensão Técnica, capacitando-nos para liderança, planejamento e organização participativa.

Essa formação integral enquanto pessoas humanas nos possibilita a sermos cristãos e cristãs mais plenos em nosso ver, julgar, agir e celebrar. Permeia nossa caminhada e vai acontecendo através de todas as atividades durante o tempo de nosso viver eclesial. Os cristãos e as cristãs são pessoas em construção. Para isso, juntamos teoria e prática, reflexão e ação. Partimos da prática de nossas realidades locais, refletimos sobre ela à luz do Evangelho e decidimos como atuar, avaliando e celebrando sempre o nosso caminhar.

É neste sentido que precisamos ver de forma crítica nossos grupos eclesiais, evitando extremos ou exclusividade em cada uma das dimensões humanas. Não podemos ter grupos eclesiais que só rezam, ou só se reúnem para discutir a teoria da eclesialidade, ou só se disponham a agir, sem planejamento ou espiritualidade. Faz-se imperativo que não mais se entenda a Igreja como grupo exclusivamente espiritual ou político. Precisamos renunciar à fé alienada e à militância árida. Os dois extremos, quando vividos em sua exclusividade, desconfiguram a Comunidade Eclesial Missionária. Fé sem cuidar das questões da vida humana é alienação. Cuidar das questões da vida humana, sem fé, não nos identifica como seguidores e seguidoras de Jesus. É preciso uma formação e um caminhar que contemplem todas as dimensões da pessoa humana. As comunidades eclesiais não são somente espaços de oração, de ação política ou convívio social. É cada uma destas coisas interagindo e se construindo em mutirão. Para que possamos ser uma comunidade eclesial plena como o proposto, precisamos crescer em etapas.

Ninguém se torna “homem novo e mulher nova”, comprometido e comprometida com o Projeto Libertador de Jesus, de uma hora para outra. Há um processo a ser vivido.

Um grupo eclesial é como a própria história de cada pessoa humana: fomos planejados à vida pelo amor, fomos gerados por nove meses, nascemos crianças e passamos pela infância, adolescência e juventude para chegar à vida adulta. Um caminhar gradativo.

Como comunidade eclesial, deve acontecer a mesma coisa:

  1. Depois de que as pessoas são chamadas à vida eclesial, convidadas para compor um grupo, faz-se necessário um tempo de “gestação” para se nascer como um verdadeiro grupo eclesial. Esse tempo de início de caminhada pode levar meses e até anos de gestação. É um tempo de nucleação, iniciação à vida comunitária cristã, de discipulado.
  2. Quando a comunidade eclesial está firme e organizada começa um longo caminho no qual seus membros vão vivendo uma experiência participativa de formação até chegar a uma opção pessoal de compromisso com o Projeto de Jesus. Essa caminhada é como um treinamento do compromisso cristão ou como que um ensaio para uma Nova Sociedade. Este tempo é uma continuidade da Iniciação Cristã. Tempo de mútua formação. Para tanto, faz-se necessário o reconhecimento de que somos “barro na mão do Oleiro”. Da mesma forma que a pessoa humana é gestada no ventre da mãe, o cristão e a cristã são gerados pela vocação batismal e, após o nascimento, após a iniciação cristã, faz-se necessária uma formação permanente. A criança aprende a se alimentar, comunicar, caminhar; após seu nascimento. Os cristãos e as cristãs que desejam viver em comunidade precisam se alimentar do Pão da Palavra e da Eucaristia, viver em espírito fraterno, comprometer-se com o testemunho do Evangelho. Isso se faz de forma gradativa, perseverante. Com humildade e paixão.
  3. A formação continuada da vida cristã, é – como a própria ideia se faz elucidar – um processo gradativo. Ninguém nasce sabendo, como se diz entre os populares. E mesmo depois de um tempo de formação inicial, ninguém sabe tudo. A humildade do discipulado consiste em entender que há sempre um caminho por vir. Por isso, a comunidade eclesial precisa estar em sintonia com as pautas que são apresentadas gradativamente pelo Magistério da Igreja. Como isso pode acontecer? Nenhuma comunidade eclesial é autônoma. Somos uma rede de comunidades que tem ligação institucional com o bispo e a diocese, com a Conferência Episcopal do país em que vivemos (no nosso caso a CNBB), com o Magistério Pontifício. Essas estruturas nos convidam a refletir e caminhar em comunhão. São muitos os momentos marcantes na Igreja que nos proporcionam aprofundamento formativo. Seja na Quaresma pela Campanha da Fraternidade, seja no Mês da Bíblia, seja quando da publicação de um Estudo ou Documento da CNBB, seja quando o Papa nos apresenta seu Magistério por meio de Encíclicas, Exortações Apostólicas etc. Estar de ouvidos atentos e corações abertos ao Magistério é parte de nosso compromisso com a Formação Permanente enquanto Comunidade Eclesial. Em comunhão fraterna, rezamos juntos, nos alimentamos da Palavra e do Pão, bebemos das fontes do Magistério. Sempre em comunhão e sinodalidade.

Pensando em tudo isso, precisamos nos renovar a cada dia nas inspirações do Concílio Vaticano II, assim como, das cinco Conferências Episcopais acontecidas na América Latina e Caribe. Ainda sentimos o eco da presença da última conferência acontecida em Aparecida, no ano de 2007. É a mais recente e desafiadora das conferências episcopais, quando revisitamos nossa história e renovamos nosso desejo de evangelizar. Tal conferência procurou responder à pergunta: como ser Igreja na atual situação da América Latina? Para tanto, analisou a realidade social, econômica, política, cultural, religiosa e eclesial do continente. Confrontou-a com a perspectiva teológica escolhida, a saber, como ser discípulo e missionário em tal contexto histórico. E terminou com propostas de ação pastoral. Assumiu-se, por conseguinte, o método ver-julgar-agir ainda como caminho seguro para o ser Igreja.

Só nesta primeira memória da 5ª Conferência Episcopal, acontecida em Aparecida, percebemos o renovar da Igreja e do seu sonho de evangelizar integralmente a pessoa humana. Como formação permanente, a Conferência de Aparecida deixou seu documento final, rico em reflexões teológicas para nosso tempo e diretrizes pastorais. Para ler o Documento de Aparecida na íntegra, clique AQUI.

O documento final da 5ª Conferência Geral do Episcopado, se estruturou em torno de três eixos centrais, seguindo o método ver-julgar-agir. Num primeiro, os bispos olharam, já na perspectiva da fé em Jesus Cristo, para a realidade sociocultural, econômica, política e eclesial. Salientaram, no plano cultural, a globalização em sua dupla face: positiva, de congraçamento dos povos, e negativa, de absolutização do mercado, privilegiando o lucro, de concorrência, com as consequências iníquas da concentração do poder e das riquezas nas mãos de poucos, e de ampliação da pobreza. No campo político, o texto oscila entre o elogio do processo de democratização do continente e o temor de neopopulismo autoritário. Finalmente, faz um balanço das luzes e sombras da Igreja. Junto com o lado luminoso da pujança da vida interna e do serviço que a Igreja presta, há deficiências na evangelização e na clareza doutrinal e existencial dos católicos.

O juízo teológico, correspondente ao segundo eixo, consistiu na elaboração de uma cristologia e de uma eclesiologia. A primeira insistiu no encontro pessoal do católico com Jesus, na consciência do chamado e do envio para ser missionário do evangelho da vida. E a Igreja foi apresentada como aquela que oferece os centros de comunhão para o fiel viver a fé e um itinerário formativo, inspirado no caminho neocatecumenal, apontando os principais lugares para a realização de tal formação.

A terceira parte orientou-se para o agir pastoral. A missão da Igreja e particularmente do cristão consiste em anunciar a nossos povos a vida nova em Cristo. Jesus se pusera a serviço da vida e se oferecera como vida para os que creem nele e o seguem. Vida em todas as dimensões e para todos contra a exclusão, que contradiz o projeto de Deus. Daí resulta a tarefa de comunicar essa vida, o que implica conversão pessoal, renovação missionária e abertura para a missão fora dos nossos países — ad gentes.

A conclusão do documento retomou incisivamente a ideia central de “despertar a Igreja na América Latina e Caribe para um grande impulso missionário”.

Pensando em tudo isso, precisamos renovar em nós a coragem e a fé de se redescobrir como Igreja Missionária e Samaritana, ao exemplo de Atos dos Apóstolos, cujo sonho é viver e “Evangelizar, a partir de Jesus Cristo e na força do Espírito Santo, como Igreja discípula, missionária e profética, alimentada pela Palavra de Deus e pela Eucaristia, à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres, para que todos tenham vida (cf. Jo 10,10), rumo ao Reino definitivo”. Para tanto, faz-se imperativo pés firmes no caminho e corações ardentes.


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