Por Pe. Hermes A. Fernandes
Neste 8º Domingo do Tempo Comum, a Liturgia nos apresenta o Evangelho de Lucas 6,39-45. Texto forte! Não poderia ser diferente, sendo este a memória das comunidades lucanas. Tal perícope se insere no contexto do discurso da grande libertação. Pouco antes, Jesus fala sobre o julgamento que muitas vezes faz parte de nossa vida em comunidade (cf. Lc 6,37-42). Todavia, vemos a sabedoria popular nos iluminar ao dizer que o julgamento pertence a Deus. Por que muitas de nossas irmãs e nossos irmãos vivem a apontar aqueles e aquelas que consideram viver em situação irregular ou vergonhosa? Seria a moral, ou moralismo, a mola impulsionadora do coração religioso? Ou será que Deus tinha outro propósito ao enviar seu Filho, Jesus? Quem é o Deus revelado pelo Messias galileu?
O Evangelho de Lucas nos esclarece essa desafiadora questão. Na literatura lucana vemos a revelação de um Deus amoroso, lento na cólera e rápido no perdão. Além de vermos o Pobre na centralidade do Evangelho, conforme no afirma o Papa Francisco. Os pobres são abençoados porque Deus os escolheu como agentes construtores de uma nova sociedade e uma nova história. Como nos diz Lucas, eles consistem o núcleo profético que denuncia uma sociedade injusta, e é través do clamor deles que a sociedade se desvela e entra em julgamento, abrindo as portas para o Reino de Deus. Esse Reino se caracteriza pelas relações de gratuidade, que superam o espírito do comércio, e tem a misericórdia de Deus como seu modelo e fundamento último. Por isso, os Pobres aprendem também que só Deus pode julgar (6,37-45), e que cada pessoa é conhecida através de seus atos (6,43-45). E, não menos importante: não basta conhecer a palavra de Jesus; é preciso colocá-la em prática (6,46-49)! O que podemos concluir que a moral que fundamenta o caminho de Jesus aproxima-se mais da ética das relações, da justiça e da solidariedade, do que a obsessiva moral sexual que ocupa cansativamente os púlpitos. Nossos pregadores e pregadores atualmente vivem a condenar, erotizando a vida excessivamente; como se este fosse o único caminho da virtude. Ainda vivem a se iluminar, focando em si os holofotes, como se fossem estes os modelos de santidade, enquanto castos e pudicos. Mas essa também não era a pedagogia dos fariseus?
O caminho de Jesus é mais que moral, cheirando a moralismo. É Ética e Vida. É partilha e solidariedade. É misericórdia, como imperativo. Para nos formar neste aprimoramento da fé, Jesus nos exorta com uma série de breves parábolas, ou mesmo alegorias. Onde critica tal forma equivocada de entender a condição de seguidor e seguidora de Jesus. Aquele que deseja conduzir, deve ter diante de si a clareza do caminho. Entender em profundo o chamado à Vida Cristã. A parábola do cego é clara: não queiramos guiar os outros se nós mesmos não somos capazes de enxergar nosso caminho. A parábola do cisco e da trave é mais clara ainda: antes de tirar o cisco do olho do irmão, é preciso tirar a trave que está em nossos próprios olhos (cf. Lc 6,39-42). Nossas projeções sobre os outros, com todos os preconceitos que delas decorrem, são um meio precioso para que nós mesmos nos conheçamos. Basta prestar atenção ao que nos diz o Evangelho. Quando falamos do outro, é nosso Eu que se revela. Querer que os outros sejam perfeitos, condenando suas falhas; é uma forma de evitar olhar para dentro de nós mesmos. Quem muito condena, foge da condenação. Quem muito odeia, tem medo de amar. O espírito julgador é uma infantilidade de fé, pela qual, não conseguimos assimilar a grandeza da misericórdia de Deus. Quem muito acusa, fala de si e de sua incapacidade de se entender amado por Deus. A imagem de um Deus castigador reflete a imagem de um filho que não consegue adequar-se à condição de família de Jesus. Prefere um Deus distante, por temer ser preterido por Ele. Deseja mudar o mundo por um espírito infantil, como um bebê mimado que prefere quebrar um brinquedo, por não compreender seu funcionamento. Odeia o mundo por ser incapaz de se entender como agente transformador dele. Daí nascem os dualismos, os maniqueísmos, os cristãos “ou santos ou nada, cidadãos do céu”. Cristãos e cristãs infantilizados. Incapazes de entender a vida cristã com maturidade e pelos desafios que ela nos reserva. Para ser cristão e cristã é preciso ter coragem!
E falando de coragem, é nos versículos 43 a 45 que Jesus nos dá um xeque-mate na exortação pela fé madura e por uma vida sincera. Primeiramente, não podemos nos arrogar a condição de juízes. Em segundo lugar, não podemos nos entender como discípulos e discípulas prontos e prontas. Modelos de fé e de vida. Estamos sempre em processo e a humildade deve ser o tempero da vida cristã. Se não compreendemos isso, seremos cegos, guiando outros cegos. E, para nos dar a orientação final, Jesus nos remete à avaliação de nossas escolhas e de nosso caminhar, pelos resultados. Uma fé madura, nos impele a escolhas acertadas e sinceras. Estas escolhas nos impulsionam a passos em nosso caminhar. E estes passos nos remetem ao Caminho. Portanto, a forma de avaliar nossas escolhas e nosso caminhar é os frutos que advém deles.
Vamos aprofundar um pouco mais o texto para bem entender. Notemos que tanto as perícopes Lc 6,37-42 como 6,43-45 estão preocupadas com o discernimento cristão nos relacionamentos. O texto de 6,37-42 destrói o julgamento e o preconceito em relação aos outros, mostrando que é preciso, em primeiro lugar, conhecer a si próprio. Enquanto isso, o texto de 6,43-45 dá a chave para verdadeiramente conhecer o íntimo e as intenções do outro. E, quem sabe, de nós mesmos. Em verdade, todo o bloco que temos visto nestas perícopes lucanas nos apontam chaves de entendimento para a gratuidade das relações. Seja com aqueles com quem temos empatia (irmãos e irmãs), seja com aqueles que temos menos afinidade, ou até mesmo, preterimos de nossa convivência. Desta forma, o Evangelho é uma fonte de renovação de todos os relacionamentos, mostrando como a justiça vivida concretamente pelos pobres se torna fonte de renovação social. É preciso ter autocrítica para nossa própria vida e misericórdia para com os outros e outras. Esta justiça dos pobres vai ser retratada e teologicamente sistematizada no texto, também lucano, de Atos – quando testemunha a vivência pacífica e solidária das primeiras comunidades a partir do Evangelho (cf. At 2,42-47). Só assim o ódio pode ser vencido pelo amor. E Jesus não propõe com isso uma utopia de contos de fadas. O Evangelho de Lucas mostra metas e caminhos que, quando entendidos e vividos, faz do Reino de Deus uma realidade possível.
Para tanto, é preciso ter olhos abertos. É preciso livrarmo-nos de nossas cegueiras da religião do puritanismo e da teologia da condenação. É preciso ver a luz que vem do Evangelho. Somente olhos iluminados possibilitam um caminhar seguro. Os desafios nos foram apresentados por Jesus. Sem infantilizações. Sem postergações. A questão é: quando é que nós, por poucos que sejamos, vamos começar a colocar isso em prática? Quando vamos entender que o Reino de Deus começa em nós?
Post Scriptum: Para melhor entender a reflexão de hoje, ou mesmo atualizá-la para a vida, recomendo a leitura da obra de José Saramago: Ensaio sobre a Cegueira. Vale a pena!
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