Por Pe. Hermes A. Fernandes
Inicia-se um tempo forte na Igreja. Há muitos sinais de incompreensão sobre o Tempo da Quaresma. Há quem queira fazer deste tempo uma peregrinação pelos sacrifícios voluntários para, com isso, fazer-se merecedor do Céu. Há quem pense ser este um tempo exclusivo para oração, jejum e penitência. Há quem pense que neste tempo devemos “renunciar todas as coisas deste mundo”, em preferência às coisas celestes. Em parte, algumas destas afirmações não fogem à verdade. Tempo de jejum, oração e penitência é todo tempo. Querer aproximar-se das realidades celestes é sinal de virtude, mas – cabe perguntar: o que é o Céu? Este não se relaciona com o conceito de Reino de Deus?
Entender a Quaresma como um tempo em que se cultiva o ódio ao mundo, por amor ao Céu é – no mínimo – falta de compreensão do que de fato é a proposta de Jesus. O Messias galileu veio anunciar a Boa Nova, sobretudo, aos pobres (cf. Lc 4,18). Na perícope de Lc 4, 16-19, o texto lucano nos apresenta o programa messiânico de Jesus. Colocando palavras do Profeta Isaías (cf. Is 61,1-3) na boca do Messias, Lucas identifica Jesus como realizador da promessa. E esta não se define como arrebatamento, ascensão ou o fim da realidade terrena e o início da realidade celeste para humanos e humanas. Ao contrário, o texto lucano, ao ler e ressignificar o texto de Isaías, vem apontar que a Boa Nova, o Reino de Deus, a realização da promessa; se configura como a transformação de nossa realidade e não a dos anjos. Portanto, se o projeto de Jesus é transformar a relação entre Deus e a humanidade, construindo uma sociedade mais solidária e fraterna, a Quaresma não pode ser um Tempo em que odiamos as coisas do mundo e, sim, momento favorável para que o transformemos – em definitivo – na Casa de Deus. E esta Casa de Deus deve, antes de mais nada, ser lugar de justiça, paz e alegria. Lugar de partilha, solidariedade e fraternidade. Onde se anuncia a Boa Nova aos pobres, se proclama a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista… E aos oprimidos, se anuncia a libertação. Para tanto, não basta oração, jejum e penitência. Deve-se alçar um voo maior, mais alto. É preciso rasgar o coração e não somente as vestes (cf. Jl 2,13). Cobrir-se do pranto pela dor dos sofredores e não somente de cinzas. Contestar a realidade de miséria e fome, e não somente jejuar por algumas horas. É preciso converter-se à misericórdia e não somente praticar sacrifícios (cf. Os 6,6 || Mt 9,13a).
No desejo de se aprofundar o sentido deste tempo favorável à conversão, a Liturgia do 1º Domingo da Quaresma nos oferece o Evangelho de Lc 4,1-13. Nesta perícope lucana, Jesus é conduzido ao deserto para lá ser tentado pelo diabo. Vamos entender isso melhor?
O texto de Lucas sugerido para a Liturgia é antecedido pela narrativa do Batismo de Jesus e da descrição de sua genealogia. Na primeira parte, Lc 3,21-22, Jesus é batizado por João. A narrativa lucana sobre o batismo é bem curta, uma vez que ao longo dos primeiros capítulos, Lucas narra detalhadamente e em paralelo, o anúncio do nascimento de João Batista e de Jesus, a infância e os primeiros caminhos da missão de ambos, até descortinar no batismo do Messias esperado. Nestas narrativas em paralelo das vidas de João e Jesus, se indica o diálogo entre Antiga e Nova Alianças. Entre João Batista – aquele que encerra o Antigo Testamento – e Jesus, em quem se inicia um novo tempo. Os primeiros capítulos do Evangelho lucano apresentam a promessa e o prometido. O elenco da genealogia que se segue após a narrativa do batismo de Jesus, serve como referencial de que este era homem e Deus revelado na história. Uma forma de trazer para a realidade histórica a pessoa do Cristo da fé.
É de conhecimento de grande parte dos que se dedicam ao estudo bíblico que os Evangelhos são memórias das primeiras comunidades cristãs de sua experiência com Jesus. Portanto, não se trata de historiografia ou biografia. Os relatos evangélicos são reflexos da vida e anúncio dos discípulos e discípulas do primeiro momento e suas comunidades.
É com este olhar que devemos ler Lc 4,1-13. Antes – como dito acima – se faz um itinerário da passagem do Antigo ao Novo, da promessa ao prometido. Do messias esperado, à missão deste que se encarnou nas periferias existenciais e geográficas. Chegando ao capítulo 4, Lucas encerra a expectativa e anuncia que o tempo chegou. É tempo de anunciar a palavra e ação do Cristo esperado. A missão de Jesus, porém, vai tropeçar em obstáculos o tempo todo. Quais? Aqueles mesmos que fizeram Israel tropeçar em seus 40 anos no deserto, e os mesmos que a humanidade de ontem e de hoje encontra em todo lugar. A cena das tentações (Lc 4,1-13) é simbólica e resume as dificuldades que Jesus teve que enfrentar durante a vida inteira. O diabo (em grego diábolos = διά + βάλλω) significa o que lança longe, separa, desune ou o empecilho e ainda o obstáculo. Estas tentações também se fazem presentes na caminhada da Igreja de antes e de agora. Desde os tempos dos primeiros discípulos até os nossos, certas dificuldades se fazem revelar, separando-nos do verdadeiro discipulado, sendo empecilho para que possamos viver em plenitude o projeto de Deus que é liberdade e vida; paz e fraternidade.
Em Lc 4,2-4, Jesus é tentando pela abundância. No deserto ele sente fome. O diabo sugere que transforme pedras em pão. Repare que se trata de plural, pedras. A sugestão, a tentação diabólica, remete ao desejo de abundância. Não basta o necessário, é preciso mais. É o desejo do povo faminto: ter abundância de comida, e tudo resolvido! Facilmente nos esquecemos de que por trás da abundância de alguns, está a fome de muitos. Deus não promete abundância para ninguém, mas quer que todos tenham o necessário, o suficiente, para bem viver. Em resposta à tentação diabólica, Jesus cita Deuteronômio 8,3, lembrando que o pão não é tudo. Tem razão! A Palavra de Deus mostra que para uma vida digna se precisa de roupa, moradia, assistência médica, lazer etc. A situação do povo não se resolve só com comida. Deus sonha muito mais para seus filhos!
Em Lc 4,5-8, Jesus é tentado pela riqueza e pela tentação do poder. O diabo leva Jesus para um lugar alto. Esse lugar pode ser entendido como a ambição. Aí lhe mostra os reinos deste mundo e lhe promete o poder e as riquezas destes reinos. A condição para tais prêmios era que Jesus o adorasse. E explica: “porque tudo isso foi entregue a mim, e posso dá-lo a quem eu quiser”. Isso lembra João, o qual afirma que o “diabo é príncipe deste mundo” (Jo 12,31; 14,30; 16,11). Em outras palavras, o poder e a riqueza são coisas diabólicas, isto é, contrárias ao projeto de Deus. Por que? Porque o poder se constrói graças ao roubo e acúmulo de liberdades – um manda, o outro obedece. E a riqueza se constrói pelo roubo e acúmulo dos bens que deveriam ser partilhados por todos e todas – riqueza de poucos, às custas da miséria de muitos. Ora, Deus não quer opressão e exploração, mas fraternidade e partilha. Jesus vence estas tentações citando Deuteronômio 6,13. Ele vai adorar somente ao Deus Verdadeiro que quer solidariedade e partilha, e não ao diabo – que constrói seu reino com opressão e exploração.
Já em Lc 4,9-12, o evangelista nos mostra Jesus sendo tentado pelo prestígio, pela fama, pela auto referencialidade. E, sejamos honestos, também nós – cristãos e cristãs – não somos tentados por estes mesmos atrativos sedutores? Lembremos o texto: o diabo sugere que Jesus exiba seu poder. Diz que ele deve atirar-se da parte mais alta do Templo de Jerusalém, bem aos olhos de todo o povo. Veja a esperteza do diabo: cita o Salmo 91, onde Deus promete proteger o justo. Em outras palavras, abusar da confiança, colocando Deus ao serviço do próprio capricho e vaidade pessoal. Esta é uma das tentações das pessoas “religiosas”. Todavia, Jesus cita Deuteronômio 6,16, mostrando que tal atitude significa tentar a Deus. Seria muita ousadia entortar o serviço a Deus e ao povo para satisfazer interesses egoístas, simplesmente para “brilhar”, chamando a atenção sobre si e criando sentimentos de inferioridade nos outros. Isso, na verdade, é manipular o sagrado, tapeando as pessoas para a satisfação pessoal. Pode parecer absurdo a possibilidade de alguém servir-se de Deus para abrir caminho na fama e no prestígio. Em verdade, nos tempos das novas mídias, já estamos calejados e não conseguimos mais perceber a manipulação da fé. São tantos religiosos e religiosas que usam das mídias para se promover, que pensamos ser estes os normais e, quem mantém vida engajada na caminhada do povo de forma discreta e até anônima; se torna o avesso, o errado. Certa vez vi um padre muito dedicado ao serviço do povo ser questionado do porquê de não usar suas redes sociais para divulgar seu trabalho. E pior: a pessoa que levantou o questionamento pergunta “está escondendo o que”? Enquanto isso, padres, religiosos e religiosas, dão auxílio aos empobrecidos sempre diante das lentes de celulares ou câmeras. Ministros ordenados que não começam sua homilia sem antes ter certeza de que a tecnologia está funcionando perfeitamente na chamada transmissão ao vivo. Não se pode perder engajamento. Não se pode perder a oportunidade de impactar. Aí, o Mistério Celebrado – o Mistério Pascal – se torna coadjuvante diante do padre “famosinho”, o protagonista. o ifluencer religioso. A tentação pelo prestígio e pela fama é fazer de Jesus o método para se vender a própria imagem. O projeto de Deus é engolido pelo projeto pessoal de fama. Vendem Deus como produto ao benefício do religioso famoso, influencer da fé, mercador da igreja-mídia. Artificial e efêmera, esta igreja não participa da construção do Reino de Deus, pois este é o reinado do religioso midiático. Não de Jesus, o anunciador da Boa Nova do Reino.
Voltemos ao texto! Podemos fazer um paralelo entre o texto de Lc 4,1-13 e Mt 4,1-11. Comparando, veremos que Lucas inverteu a ordem da segunda e terceira tentações. É que, segundo a visão lucana, as três tentações perseguiram Jesus durante toda sua vida. E, no fim – em Jerusalém, diante de sua morte eminente – o diabo jogará sua última carta, tentando Jesus a trair todo o projeto de sua vida. O texto lucano termina dizendo que após tentar Jesus, o diabo deixou-o até o momento oportuno (cf. Lc 4,13 e Lc 22,3.33-46.53). Com o diabo não se brinca, pois ele conhece nossas fraquezas. Sabe que somos a todo tempo seduzidos pela busca de abundância, poder, riqueza e prestígio. Também sabe que, mesmo tendo resistido a estas tentações por uma vida abnegada e comprometida pelas causas dos pobres e marginalizados; no fim, podemos pôr tudo a perder, “para salvar a própria pele”. É difícil viver toda uma vida de lutas pelos que se encontram nas periferias existenciais e geográficas e, no fim dela, ainda ter a coragem de Pe. Josimo, Santo Oscar Romero, Ir. Dorothy Stang. Há muitos que começam bem, mas – no fim da vida – não assumem a martiria como consumação de sua jornada. Ou se deixam corromper pelos resultados de seus feitos e reconhecimento deles. Deixam-se seduzir pelos aplausos. Pela fama e prestígio. Tornam-se profetas midiáticos. Mas nisso nada há de profecia! Foi seduzido pela tentação do prestígio, da fama. Fracassou no deserto da vida!
A narrativa de Lc 4,1-13, mostra Jesus como exemplo de quem é tentado na missão. Em nossos tempos, em nossas comunidades, somos cotidianamente submetidos às mesmas seduções. Riqueza, abundância, prestígio e poder. Seremos firmes como verdadeiros seguidores do Cristo, ou vamos nos perder pelo caminho, afastando-nos do projeto de Jesus e caindo no abraço sedutor do diabo? Vamos escolher a vida cristã, um caminhar constante para a Cruz, ou vamos parar pelo caminho, contentando-nos e corrompendo-nos com fama, poder, riqueza e abundância? Só o nosso sim ou nosso não pode dar respostas a estes questionamentos. Porém, nossa resposta ficará inscrita na História! Como testemunho ou escândalo. A escolha é nossa.
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