Por Pe. Hermes A. Fernandes
A liturgia do 2º Domingo da Quaresma (Ano C) nos apresenta o Evangelho de Lc 9,28b-36. Trata-se do relado lucano da Transfiguração e do anúncio da Paixão. À guisa de introdução, sempre se faz necessário deixar que a própria Bíblia fale. Dar voz à Palavra Revelada. O relato da Transfiguração está presente nos três Evangelhos Sinóticos, a saber: Mateus 17,1-8; Marcos 9,2-8 e Lucas 9,28-36. Vejamos o texto em Lucas:
“Oito dias após dizer essas palavras, Jesus tomou consigo Pedro, João e Tiago, e subiu à montanha para rezar. Enquanto rezava, seu rosto mudou de aparência e sua roupa ficou muito branca e brilhante. Nisso, dois homens estavam conversando com Jesus: eram Moisés e Elias. Apareceram na glória, e conversavam sobre o êxodo de Jesus, que iria acontecer em Jerusalém. Pedro e os companheiros dormiam profundamente. Quando acordaram, viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam com ele. E quando esses homens já iam se afastando, Pedro disse a Jesus: “Mestre, é bom ficarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias.” Pedro não sabia o que estava dizendo. Quando ainda estava falando, desceu uma nuvem e os encobriu com sua sombra. Os discípulos ficaram com medo quando entraram na nuvem. Mas da nuvem saiu uma voz que dizia: “Este é o meu Filho, o Escolhido. Escutem o que ele diz!” Quando a voz falou, Jesus estava sozinho. Os discípulos ficaram calados, e nesses dias não contaram a ninguém nada do que tinham visto.“
O relato de Marcos é muito semelhante ao mateano. Em Lucas, há alguns elementos novos: enquanto Jesus conversa com Moisés e Elias, os discípulos dormiam. Entretanto, relata em seguida que estes discípulos testemunham Jesus conversando com estes célebres personagens do Primeiro Testamento. Além disso, os dois personagens, na conversa com Jesus, falam de seu êxodo que se consumaria em Jerusalém. Parece, portanto, que em Lucas não importa tanto quem são as duas pessoas que conversam com Jesus. O texto lucano deixa como aspecto fundamental a eminência do Mistério de sua Paixão que está por vir. Em Mateus o acento é colocado sobre a figura de Jesus como o novo Moisés, oferecendo a Nova Lei, sobre o Tabor. Mateus aponta para a ressignificação da Lei, dialogando o Tabor com o Sinai. Em Marcos, podemos pontuar – como sua originalidade e como mensagem principal – a revelação messiânica e divina de Jesus, confirmando aquilo que o autor deste Evangelho já tinha dito no episódio do batismo. Tanto o é que, também na Transfiguração, no relato marcano, aparece uma voz que diz: Este è o meu filho amado; ouvi-o (Mc 9,7), tal qual quando do relato do batismo (cf. Mc 1,11). Em Lucas, a voz que identifica Jesus como Filho do Altíssimo também se manifesta.
Esta é a síntese teológica dos três relatos evangélicos que contam o evento da Transfiguração. É preciso que a tenhamos sempre em perspectiva.
Muito já se questionou sobre a veracidade do relado da Transfiguração. Não temos porque duvidar que o fato realmente tenha acontecido. Podemos, ao bem de uma hermenêutica mais apurada, entender os detalhes como recursos estilísticos para dar maior efeito à catequese destas perícopes bíblicas. Tal artifício pode ter sido usado para reforçar a mensagem teológica que cada evangelho quer transmitir. Não podemos dar uma proposição meramente mitológica ou histórica ao relato da Transfiguração. Não se trata de um conto popular. Há que se crer no episódio como real. Porém, a questão vai além de mito ou realidade.
Ainda vale pontuar que os evangelhos são históricos, enquanto falam de um Jesus histórico, que viveu e cujas ações foram contadas e recontadas, até que os evangelistas transcreveram-nas como legado às Igrejas. Outrossim, vale lembrar que os evangelhos não são apenas história. Vão além disso: há que se considerar a teologia, a catequese, a mistagogia e o testemunho das primeiras comunidades dos seguidores e seguidoras de Jesus. Cada evangelista tem uma mensagem precisa, que é destinada a uma comunidade específica, e tem em mente um público determinado. Muitos detalhes históricos são relegados a segundo plano, pois – em si – os evangelhos não são mera historiografia, ou mesmo relato jornalístico, no sentido atual do conceito.
Ainda vale sublinhar certa particularidade sobre o relato do qual nos dedicamos em refletir hoje: os discípulos que testemunharam a Transfiguração, reconheceram Elias e Moisés. Fato curioso, pois estes personagens do Primeiro Testamento viveram muitos anos antes de Jesus. Daí podemos nos lembrar que tais homens e suas histórias faziam parte do imaginário coletivo dos judeus, dada a importância deles como referência à Israel. Assim, traziam uma íntima relação com estas figuras célebres do Tempo da Promessa, a ponto de identificá-las em colóquio com o Messias. E mais: não devemos nos concentrar nestas questões minoritárias ou curiosas dos relatos bíblicos. Embora seja possível matéria de estudo, não são determinantes para entender a mensagem que o autor sagrado deseja transmitir.
Entendendo o exposto acima, podemos pontuar que o relato da Transfiguração de Lucas serve como que um prelúdio do que está por vir e, neste sentido, justifica e celebra o ápice da vida e ação de Jesus. Lucas casa muito bem o Tabor com o Calvário. O resplandecer glorioso de Jesus e seu sacrifício soteriológico, na Cruz. Vejamos mais a fundo!
O relato da Transfiguração visa mostrar que a paixão e a morte fazem parte do projeto de Jesus, e que este o levará à glória. Trata-se do novo êxodo, o caminho de libertação que terminará no Pai (cf. Lc 23,46). Moisés e Elias personificam a Lei e os Profetas, isto é, todo o Primeiro Testamento, cujas promessas se realizam através da Palavra e Ação de Jesus, o verdadeiro intérprete da vontade do Pai contida nas Escrituras.
Aqui convido o leitor para ir mais adiante no texto e refletir sobre o diálogo de Jesus e Pedro. Vejamos!
A proposta de Pedro é uma tentativa de prolongar o momento. Podemos entender que o apóstolo quisesse se adiantar, passando à gloria, sem antes experimentar o sofrimento e a morte que o Mestre experimentaria. Esta é muitas vezes a tentação de nossas comunidades. Viver uma religião triunfalista, onde se apega ao belo e se repele o sofrimento. Cristãos e cristãs que querem uma teologia desligada da realidade, cujo objetivo é exaltar a majestade, sem entender que o Rei dos Reis, escolheu estar entre os pobres, partilhar de seus sofrimentos e ressignificar suas vidas. A experiência resplandecente da Transfiguração não pode desligar-se da Paixão e Morte, do sacrifício de Cruz. Da mesma forma, a vivência do discipulado de Jesus não pode centralizar-se na busca pela glória celeste, por espiritualidades angélicas, liturgias suntuosas; sem antes perceber e participar dos desafios da vida no cotidiano. O Tabor não pode divorciar-se do Calvário. A fé não pode alienar-se da vida.
Caminhando mais no texto lucano, temos o centro, o ápice da perícope. Trata-se da voz que vem da nuvem, declarando Jesus como Filho de Deus e ordenando: “Escutem o que ele diz”. Em outras palavras, Jesus não é apenas o Profeta, o Messias ou o sentido das Escrituras. Ele é a revelação máxima de Deus e de seu projeto. É a ele que os discípulos devem escutar, iluminados por suas palavras e formados pelo testemunho de suas ações.
Mais do que questionar se o relato da Transfiguração é um fato, devemos entender que o texto lucano insere este relato em dois tópicos fundamentais à teologia: o Sacrifício Soteriológico de Jesus e o discipulado da Igreja. O caminho para Jerusalém prepara os discípulos como escolhidos e enviados (ἀποστόλοι) para formar novos discípulos e discípulas. Sua Paixão, Morte e Ressurreição, ressignificam a vida humana, como novo êxodo para a Libertação definitiva. Jesus, transfigurado diante dos discípulos, é uma degustação do que está por vir: o Reino de Deus. Considerando isso, Lc 9,28b-36 transcende o conceito de história ou legenda. É mistagogia!
Neste sentido, quando lemos os relatos sobre a vida de Jesus nos evangelhos, não podemos absolutamente nos fixar somente nas questões históricas. Faz-se necessário transcender aos fatos e desvelar a mensagem escondida em cada narrativa. Fazer uma experiência mistagógica do texto bíblico, da Palavra Revelada! É na observação de pequenos detalhes de uma receita que um alimento se faz delicioso ao paladar.
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