Por Pe. Hermes A. Fernandes
Algumas situações no trato pastoral parecem fugir ao controle. Estão além do conhecimento bíblico-catequético, da teologia. Tratam-se de relações interpessoais que interferem no caminhar eclesial. Pessoas com sérias dificuldades de entendimento de discursos ou práticas na Igreja. Dificuldades em se relacionar, trabalhar em equipe, confiar ou inspirar confiança. Inquietação e deslocamento constantes.
Desde o Concílio Vaticano II que vivemos o sonho do protagonismo leigo. Este, o leigo e a leiga, é provocado ao protagonismo, a ser construtor do Projeto de Jesus. Deixou de ser assistente para ser celebrante na Liturgia. Não é estar em, mas estar com. Não é ir à igreja, mas ser a Igreja. Com estes avanços, as idiossincrasias se manifestaram junto à possibilidade de se ter voz e manifestar opinião. Vieram as apatias, antipatias, discursos de ódio, manipulação da estima e do que se entende ser o poder. Estes problemas não são de fundo catequético. Estão na alçada do comportamento. E deveriam ser tratados assim.
No campo das relações, temos pessoas que se sentem provocadas constantemente ao conflito. Chamam-se apologetas e profetas, mas o que lhes seduz é o debate, a querela, o conflito. Garimpam as redes sociais em busca de qual é a polêmica da vez. Quem é o último alvo dos haters, quem é o último herege combatido, ou quem está em cima do muro e, por isso, também merece ser confrontado. A paz incomoda. O diálogo gera asco, o amor é coisa do passado ou alienação. Trata-se de almas doentes. Consumidas pelo ódio. Querem motivos para combater, gritar, odiar. E, neste caso, não importa de que lado está a pessoa. Se é rotulado de progressista ou conservador. É agente do caos. Adoece a sociedade e as comunidades eclesiais. Vivem infelizes e semeiam o mesmo ao redor. Pessoas tóxicas que fabricam uma sociedade e uma Igreja doente.
Fato é que muitos caminhos eclesiais são interrompidos por mágoas nascidas, equívocos de entendimento não elucidados, sentimentos conflituosos. Há que se conformar com a ideia de que são coisas do humano? Ou vamos finalmente entender que a Graça de Deus pode agir por conhecimentos específicos, saberes específicos. Estou convencido de que muitos dos dissabores vividos em nossas comunidades poderiam ser evitados e até resolvidos com a ajuda de profissionais do comportamento humano. A Igreja deve lançar mão dos psicólogos, terapeutas, educadores, na formação de leigos e leigas. Assim como, em muitos casos, já o faz na formação para a Vida Religiosa Consagrada e para o Ministério Ordenado.
Não se trata de ensinar a catequese certa, ou a teologia certa. O problema dos odiadores é psíquico e deve buscar neste campo a solução.
Há muito material humano perdido por conflitos desnecessários em nossas comunidades. Muitos corações feridos por razões além de nossa compreensão periférica. Devemos nos valer do conhecimento específico, da ajuda profissional adequada para este intento. Sendo função da Igreja promover a vida, deve fazê-lo por excelência. Quando a catequese falha, a psicologia pode ajudar.
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