Refletindo sobre Lc 13,1-9
Por Pe Hermes A. Fernandes
Neste 3º Domingo da Quaresma – Ano C, a Liturgia nos apresenta o Evangelho de Lucas 13,1-9. Trata-se de uma secção deste Evangelho que se inicia em Lc 12,35; seguindo até 13,9; e que nos fala de urgência na conversão. Nada mais apropriado para se refletir em nossos tempos quaresmais! Nestas perícopes, Jesus continua a falar aos discípulos e ao povo – além de se dirigir às autoridades. Estas que sempre tentam colocá-lo à prova, com ciladas para confrontá-lo e pôr fim ao anúncio do Evangelho (cf. Lc 11,54). É fato que as autoridades religiosas e políticas da época se sentiam ameaçadas pelas palavras e ações de Jesus.
Junto aos discípulos, Jesus mostra que a busca fundamental é pelo Reino, com Justiça que produz fraternidade e partilha, exortando-os a manter-se firmes na escolha por estes imperativos (cf. 12, 39-48). Por que? Em razão de que Ele, o Messias, veio para ser “um sinal de contradição” (Lc 2,34; 12,49-53). Porquanto, temos como imperativos o discernimento, a conversão e a perseverança, antes que seja tarde demais (cf. Lc 13,1-9).
Vejamos o texto evangélico da Liturgia deste 3º Domingo da Quaresma:
Nesse tempo, chegaram algumas pessoas levando notícias a Jesus sobre os galileus que Pilatos tinha matado, enquanto ofereciam sacrifícios. Jesus respondeu-lhes: “Pensam vocês que esses galileus, por terem sofrido tal sorte, eram mais pecadores do que todos os outros galileus? De modo algum, lhes digo eu. E se vocês não se converterem, vão morrer todos do mesmo modo. E aqueles dezoito que morreram quando a torre de Siloé caiu em cima deles? Pensam vocês que eram mais culpados do que todos os outros moradores de Jerusalém? De modo algum, lhes digo eu. E se vocês não se converterem, vão morrer todos do mesmo modo.” Então Jesus contou esta parábola: “Certo homem tinha uma figueira plantada no meio da vinha. Foi até ela procurar figos, e não encontrou. Então disse ao agricultor: ‘Olhe! Hoje faz três anos que venho buscar figos nesta figueira, e não encontro nada! Corte-a. Ela só fica aí esgotando a terra’. Mas o agricultor respondeu: ‘Senhor, deixa a figueira ainda este ano. Vou cavar em volta dela e pôr adubo. Quem sabe, no futuro ela dará fruto! Se não der, então a cortarás’.”
(Lc 13,1-9 | Bíblia Sagrada Edição Pastoral)
Fora do contexto, a perícope acima pode parecer estranha. Como se fosse um anexo, ou mesmo, um enxerto. Devemos ler Lc 13,1-9, levando em consideração todo o relato lucano que se inicia desde Lc 12,35. Daí perceberemos que diante das forças totalitárias que ameaçavam a vida do povo, a urgência em se comprometer com o Evangelho da Vida se faz imperativo. Por isso, Lucas começa o capítulo 13 de seu Evangelho dizendo que chegou a notícia sobre o triste destino dos galileus sob o braço forte de Pilatos. Aqui vale lembrar que podemos subentender que o portador desta notícia seria o grupo dos Fariseus. Com um pouco de astúcia, perceberemos que a notícia levada a Jesus do assassinato dos galileus por Pilatos era uma ameaça ao próprio Messias galileu. Estes galileus lutaram contra a tirania da ocupação romana, Jesus anunciava o Evangelho da Vida e, por isso, também se opunha às políticas de morte. Não é difícil concluir que os Fariseus estavam ameaçando Jesus, usando da força de um inimigo comum: o Império Romano. Afinal, quem luta pelo Direito e pela Justiça, pode acabar encontrando a morte por assassínio. Jesus percebe a intenção deles e diz: “Pensam vocês que esses galileus, por terem sofrido tal sorte, eram mais pecadores do que todos os outros galileus? De modo algum, lhes digo eu. E se vocês não se converterem, vão morrer todos do mesmo modo. E aqueles dezoito que morreram quando a torre de Siloé caiu em cima deles? Pensam vocês que eram mais culpados do que todos os outros moradores de Jerusalém? De modo algum, lhes digo eu. E se vocês não se converterem, vão morrer todos do mesmo modo” (Lc 13,2-5). Com isso, fica claro que todo discurso de Jesus tenciona desmontar a Teologia da Retribuição, além de denunciar a opressão e a violência contra os que lutam pela Dignidade e pela Vida.
Sempre estamos prontos para julgar a novidade, principalmente quando o novo ameaça nossos privilégios. Quando pessoas lutam por seus direitos e sofrem consequências por parte da repressão, haverá quem diga que eles só morreram porque se desviaram do caminho da ortodoxia. O que se deve compreender por profecia e consequências por palavras e ações proféticas, acaba sendo entendido por subversão e seu castigo correspondente. Quem nunca ouviu críticas aos Mártires da Terra Pe. Josimo e Ir. Dorothy? Certa vez vi um apresentador de uma TV Católica dizer que estes eram os Mártires da Teologia da Libertação e não da verdadeira Igreja de Jesus. Entre estes mártires, o apresentador incluiu São Romero das Américas (Santo Oscar Romero). Que Igreja estes personagens do catolicismo midiático vivem e anunciam? Provavelmente a mesma religião que acreditavam os fariseus, já que ameaçam o espírito profético pelos mecanismos de morte da repressão. Uma coisa é certa: lutar pelo Direito e pela Justiça é colocar-se em risco de morte. E quem não se vê ameaçado por comprometer-se com a Dignidade Humana e com a Justiça, é porque é cúmplice daqueles que ameaçam estes valores. Ou, pelo menos, não vive uma religião comprometida com o sonho de Deus para a Casa Comum. E toda religião que não é comprometida com a dignidade e com a vida, é idolatria!
Precisamos viver como Deus quer, isto é, ser justo e praticar a justiça. A parábola da figueira faz pensar tanto no povo de Israel, que não reconheceu a suprema visita de Deus através de Jesus, quanto nas comunidades cristãs, que muitas vezes fazem de tudo, menos o que Jesus lhe mandou dizer e fazer. É a figueira que não dá fruto, ocupando terreno inutilmente. É inegável a necessidade de reconhecer que, muitas vezes, nossas comunidades se perdem no debate sobre questões secundárias, saindo do foco daquilo que realmente importa: o Reino de Deus e sua Justiça (cf. Mt 6,33). Tudo está perdido? A Igreja se perdeu, abandonando o que é essencial ao Reino de Deus? Não! Assim como o agricultor pede um prazo para cuidados especiais (Lc 13,8-9), Jesus também intercede junto do Pai (Lc 12,8; 1Jo 2,1), para dar uma oportunidade à figueira, ou seja, às comunidades cristãs, para que possam rever sua situação infrutífera. Quem sabe se, com cuidados especiais, as comunidades possam produzir frutos? Quem sabe se as comunidades, ouvindo as palavras de Jesus e vendo seu exemplo, não poderão se converter para continuar seu caminho, focando sua evangelização em favor de todos os que anseiam pela vinda do Reino? É nisso que consiste a palavra de Jesus no Evangelho do 3º Domingo da Quaresma: “se vocês não se converterem…” (Lc 13,9). Há uma esperança para cada um de nós! Se nos convertermos de galhos secos à figueira frondosa e frutífera.
Atualizando o texto, podemos concluir que nos preocupamos em demasia com aquilo que não nos confirma como figueiras boas, construtores do Reino de Deus. Hoje nos preocupamos muito com o vazio das igrejas e a busca de muitos por outras comunidades de fé. Por que o povo vai buscar Deus em outros lugares? Não é sinal de que ele não está encontrando na Igreja os frutos de que precisa para se libertar e viver em plenitude? Em vez de condenarmos os que decidem fazer outras tentativas em busca de Deus, não seria necessário reconhecer que a Igreja está secando e se tornando estéril? Há muita preocupação com a preservação da tradição e pouca em cuidar dos que nos cercam, ou seja, de nossos irmãos e irmãs. Enquanto vemos liturgias pomposas, ouvimos palavras de ordem e condenação em defesa da sã doutrina, da moral e dos bons costumes; vemos os pobres esquecidos à própria sorte, mulheres aviltadas em sua dignidade – em nome da fé e da tradição. Há toda sorte de marginalização e exclusão dentro do seio da própria Igreja! Algo que escandaliza aos céus já que “a quem muito foi dado, muito será cobrado” (Lc 12,48). É imperativo que nos convertamos ao Evangelho da Vida, mesmo diante da barbárie e da aridez de nossos tempos.
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