O Banquete da Vida e a Alegria do Pai que acolhe e Salva

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Neste 4º Domingo da Quaresma, continuamos nossa peregrinação com Jesus até a Páscoa. Na temática desta Liturgia, o Evangelho de Lucas nos apresenta a parábola do pai misericordioso. Jesus conta esta parábola em resposta à rigidez dos Fariseus e Doutores da Lei. Como uma espécie de prólogo, o Evangelho da Liturgia nos informa que, mais uma vez, os Fariseus se irritam com o fato de Jesus deixar-se aproximar por aqueles que eram marginalizados pela sociedade e religião de seu tempo (cf. Lc 15,1). Criticam: “este homem acolhe os pecadores e faz refeição com eles” (cf. Lc 15,2)

Se retrocedermos no Evangelho de Lucas, veremos que o atrito entre Jesus e as autoridades religiosas teóricas (Doutores da Lei) e práticas (Fariseus) era constante. Estas autoridades ficavam à espreita, observando (cf. Lc 14,1) e preparando ciladas, “para pegá-lo de surpresa em qualquer palavra que saía de sua boca” (cf. Lc 11,54). Jesus continua sua missão com palavras e ações desconcertantes, plenamente consciente dos riscos que corria, a ponto de ostensivamente revelar que seu comportamento considerado irregular por aquelas autoridades era – em verdade – a vontade do Pai. Jesus não anunciava a defesa de uma religião pura e perfeita, como faziam os Doutores da Lei e Fariseus. Seu desejo era aproximar todos e todas do que de fato seria a vontade daquele que o enviou.

Diante de uma devida contextualização, cientes do atrito em curso entre as autoridades religiosas e Jesus, voltemos ao texto da Liturgia do 4º Domingo da Quaresma. O capítulo 15 de Lucas é o coração deste evangelho, e – poderíamos dizer – o ápice de toda a novidade de Jesus. Neste capítulo temos a essência da vontade de Deus revelada por seu Filho em palavras e ações. Anúncio que propunha a construção de uma nova sociedade e uma nova história. Por isso, podemos dizer que o capítulo 15 de Lucas ilustra plasticamente o que João 3,16-21 diz com outras palavras. A misericórdia do Pai é sem limites! Ele oferece seu próprio Filho para a salvação da humanidade. Quem o encontra, quem faz uma experiência de Jesus, descobre a luz e o sentido para a vida. Nele encontramos a verdade e a justiça, que se faz plena pela misericórdia. E, nesse sentido, a postura rígida e excludente dos Doutores da Lei e Fariseus é contraditória em ralação à vontade e ação do Pai que se revela em seu Filho, Jesus.

Entre os personagens mais indesejáveis pelas autoridades religiosas do tempo de Jesus, estão os publicanos, ou seja, cobradores de impostos. Eram entendidos como uma categoria distinta de indesejados. Os Fariseus sentiam especial repulsa pelos publicanos, pois entendiam-nos como raça inferior, impura. Isto se devia muito mais pelo ensimesmamento destes religiosos do que propriamente pela ausência de virtude dos coletores de impostos. É que os Fariseus desejavam ser destacados dos demais religiosos, denominando-se “os separados” (פרושים). Se desprezavam seus iguais na religião, o que não sentiam pelos considerados pecadores públicos?

Considerando o contexto da ocupação romana, os publicanos eram duplamente indesejados pelos Fariseus por prestarem serviço na coletoria de impostos em nome do Império Romano. Com isso, não só traíram seus concidadãos, como também se faziam aliados no processo de opressão dos que estavam sob o braço forte da colonização romana. Daí percebemos muitas vezes a referência aos publicanos como pessoas desprezíveis. Mas como quem faz novas todas as coisas (cf. Ap 21,5), o olhar de Jesus dirigido a estas pessoas é cheio de amor e acolhida. O que provoca uma aproximação deles. Neste aproximar-se, podemos perceber claramente que eles sentem que, com Jesus, chegou a vez dos marginalizados e excluídos da sociedade e da história construírem a nova sociedade e a nova história. Esta novidade será fundamentada na prática da justiça. Eles entendem que, não obstante os equivocados caminhos que seguiram anteriormente, em Jesus podem encontrar o abraço acolhedor que abre portas para a dignidade e a vida. A esperança dos pecadores e a acolhida de Jesus, escandalizam as autoridades religiosas. Para contrapor a hipocrisia religiosa proposta tanto pelos Doutores da Lei, quanto pelos Fariseus, Jesus conta três parábolas. A Liturgia do 4º Domingo da Quaresma nos apresenta a terceira delas. Uma parábola desconcertante! Ficou guardada em nossos corações como a Parábola do Pai Misericordioso, ou Parábola do Filho Pródigo (cf. Lc 15,11-32).

Oferecer um ensinamento em forma de parábola já se fazia tradição na história bíblica desde o Primeiro Testamento. Trata-se de histórias, alegorias que pegam o ouvinte “pelo pulo”, sem lhe deixar qualquer escapatória. Lembremo-nos da parábola que o profeta Natã contou ao rei Davi, deixando-o sem resposta diante do flagrante erro (cf. 2Sm 11,1-12,15). Jesus usa de parábolas para anunciar a vontade do Pai com uma pedagogia simples e, aparentemente, despretensiosa. A simplicidade das alegorias, das metáforas presentes nas parábolas, fazia com que as pessoas simples pudessem entender a mensagem de Jesus e desconcertava os orgulhosos e arrogantes em sua sabedoria (cf. Mt 11,25-26).

Vamos à parábola de nossa reflexão, terceira no bloco de parábolas do capítulo 15 de Lucas. Muito se tem dito ou discutido sobre essa perícope do terceiro evangelho. Até o nome tradicional dela – o filho pródigo – é discutível. Melhor seria dizer “o filho emburrado”! Aquela atitude que com muita frequência podemos ver nas pessoas religiosas que se julgam “justas e piedosas”, exatamente como os Doutores da Lei e os Fariseus. Por que aqueles que se acham santos são tão tristes e rancorosos?

Se olharmos a realidade da Igreja em nossos dias, esta parábola é um espelho incrível. Não são raros os momentos em que nos confrontamos com grupos religiosos que se fazem rancorosos com a misericórdia proposta pela palavra e ação de Jesus. Por isso, precisamos mergulhar na perícope proposta pela Liturgia. Entendendo-a bem, podemos concluir: o pai representa o próprio Deus, e tudo o que esse pai faz é revelação do que Ele quer e realiza através de Jesus. O irmão mais novo representa todos os marginalizados e marginalizadas, excluídos e excluídas do círculo dos “justos”, da sociedade “piedosa e santa”, que se autodefine como “gente de bem”, repudiando a “ralé pecadora”. O filho mais velho representa os “justos impecáveis”, os Doutores da Lei dos tempos de Jesus e do nosso, Fariseus do tempo de Jesus e do nosso. Os pretensos “justos” que “não precisam de conversão”, porque – é claro – nunca cometeram o menor erro, pois estão ao serviço da sã doutrina e da perfeita religião. E aqui perdoem minha ironia.

Compreendendo nesta perspectiva, a parábola ganha um relevo todo especial. O filho mais novo se perde e, graças a esta perda que considerava imperdoável – ele mesmo duvidava que o pai pudesse aceitá-lo de volta sequer como um empregado – acaba descobrindo que Deus é um Pai que o ama sem limites e o recebe com festa. Ele descobre o amor que realiza a justiça, libertando para a vida. O filho mais velho nunca se perdeu. Pelo contrário, sempre foi fiel e nunca pediu nada. Nem mesmo sua parte da herança, que devia ser a maior parte – já que ele era o primogênito. Qual foi seu erro? Foi por ter imaginado seu pai como um patrão severo, e que ele, filho, era um simples empregado. E ainda: imaginava que sua vida era um monte de obrigações, a ponto de nunca fazer uma festa com seus amigos. Agora parece invejar o irmão, arrependendo-se de ter sido tão certinho. Mais uma vez, podemos ver esses personagens como analogias aos que estavam ao redor de Jesus e aos que estão hoje em sua Igreja. Cristãos e cristãs cheios de rancor. Ensoberbados pelo complexo de perfeição. Condenam a tudo, rejeitam mudanças e aprimoramentos, julgam-se especiais e prediletos por suas virtudes e seu pudor. São escravos da tradição e emburrados diante das belezas da vida. Pensam estar cheios de fé, mas estão famintos de Deus, pois não o conhecem como `Pai amoroso, e sim, como juiz impiedoso. O filho mais velho reflete bem os cristãos e cristãs emburrados de nosso tempo. Rejeita o irmão, rejeita o pai, rejeita a festa, rejeita tudo. Sua alma está amargurada.

A parábola não nos informa o que acontece depois. Esta história não tem fim. Perdura até nossos dias. Será que o filho mais velho entrou para a festa? Será que nós entraríamos? Quem mais nos identifica nesta parábola?

Mais de vinte séculos depois dos relatos registrados pelas comunidades lucanas, somos obrigados a reconhecer que há muito do que viveu Jesus e seus discípulos em nossos tempos. Até mesmo suas parábolas, ficção com fundo de verdade, se mostram muito próximas de nossa realidade. Em nossas comunidades somos surpreendidos por acontecimentos não muito distantes daqueles que confrontavam Jesus. Em Guaratiba, na zona oeste do Rio de Janeiro, Padre André Luiz Teixeira de Lima tem sofrido perseguição de católicos extremistas. Um grupo de fiéis e moradores chegou a impedir o sacerdote de celebrar uma missa na Paróquia Nossa Senhora da Conceição do Monteiro, em 16 de março do presente ano. Uma faixa pedindo seu afastamento da paróquia foi erguida na frente da igreja. Qual o motivo da rejeição ao sacerdote? É de se surpreender! O motivo pelo qual repudiam o padre são os mesmos pelos quais os Fariseus e Doutores da Lei confrontavam Jesus. Por acolher, amar sem medida, não fazer acepção de pessoas, comprometer-se com os vulneráveis. Estes católicos extremistas são como o irmão mais velho da parábola, rancoroso com a misericórdia do pai e envaidecido por sua virtude. Acreditam-se mais santos e fiéis. São os separados, como os Fariseus. E, igualmente a estes, “amarram pesados fardos e os colocam no ombro dos outros, mas eles mesmos não estão dispostos a movê-los, nem sequer com um dedo” (cf. Mt 23,4).

Os fariseus e Doutores da lei, assim como os Católicos Extremistas, não se abriram à revelação da verdadeira identidade de Deus. Jesus nos revela seu Abba, seu paizinho, no qual encontramos abraço caloroso, mesmo que nos percamos nas muitas incertezas da vida. Na Casa deste Pai sempre há alegria de quem acolhe e salva, celebrando o Banquete da Vida!


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