“A mulher, o pecado e a misericórdia” | Reflexão para o 5º Domingo da Quaresma – Ano C: Jo 8,1-11

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Historicamente, na maioria das culturas, a mulher tem sido alvo de muitas injustiças. O Brasil é uma nação jovem, se comparado à Europa ou à África. Não obstante sua juventude, herdou vícios sociais das nações, suas irmãs mais velhas. Entre estas heranças, o patriarcado. Ao contrário de algumas culturas, onde a mulher pôde protagonizar posições de liderança na sociedade e religião, no Brasil os direitos femininos em equidade relativa aos masculinos, são bem recentes. Mesmo assim, há quem queira suprimi-los na sociedade e religião de nosso tempo.

Quando paramos para refletir que hoje em dia as mulheres brasileiras são a maioria no que se refere ao acesso à formação superior – em média, 25% das mulheres no país ingressam nas universidades – enquanto estima-se que o número de homens é apenas 18%; não imaginamos que o acesso à educação básica por muito tempo foi negado às meninas. Foi apenas em 1827, a partir da Lei Geral – promulgada em 15 de outubro – que mulheres foram autorizadas a ingressar nos colégios e que estudassem além da escola primária. E quem imaginaria isso em nossos tempos? A educação como direito exclusivamente masculino?

Falando em participação na política brasileira, por muito tempo as mulheres sequer tinham direito ao voto. Em 1932, o sufrágio feminino foi garantido pelo primeiro Código Eleitoral Brasileiro: uma vitória da luta das mulheres que, desde a Constituinte de 1891, pleiteavam o direito de expressar seus sonhos na política, através de eleições. Essa conquista só foi possível após a organização de mulheres que reivindicaram o direito ao voto no início do século XX. Imagine mulheres vivendo em um país majoritariamente governado por homens sem, sequer, ter o direito de votar para que suas vidas se vissem representadas na política brasileira?

Em nossas comunidades eclesiais, estamos longe do real reconhecimento do valor das mulheres. Na Histórias da Salvação tivemos santas mulheres como Judite, Rute, Noemi e Ester. Profetizas como Mirian, Ana, Débora e Hulda. Protagonistas do Segundo Testamento como Maria de Nazaré e Isabel, Maria e Marta de Betânia, Maria de Cléofas, Maria de Magdala, Joana (esposa de Cusa), Priscila ou Prisca; entre tantas que sabemos ter seus nomes inscritos no Céu e em nossos corações. Todavia, a participação das mulheres em alguns ministérios na Igreja ainda se faz um clamor calado em nosso peito.

O acima exposto é um breve exemplo de como as mulheres têm sido vítimas do patriarcado. Pode parecer estranho começar uma reflexão bíblica falando de direitos fundamentais femininos. Não são raros os momentos em que, lendo a Bíblia, testemunhamos algo como que simbiótico entre a realidade dos relatos bíblicos e a nossa. Como se nos víssemos representados pelos personagens sobre os quais se conta nas perícopes do texto sagrado. Podemos nos reconhecer e nos inspirar. Certas dores e alegrias aconteceram nos tempos do Primeiro e Segundo Testamentos e continuam acontecendo agora. Fica-nos o testemunho de como o Povo de Deus e os Discípulos de Jesus do primeiro momento erraram ou acertaram em seu caminhar na construção da história. Também se celebra lágrimas e louvores. Dos tempos bíblicos e dos nossos. A Bíblia é um compêndio de memórias, de vidas vividas e transformadas por Javé e seu Filho, Jesus. Inspira-nos, consola-nos, orienta-nos. Bem nos disse Frei Carlos Mesters: “Se a Bíblia não serve para ajudar na compreensão e nos projetos de nossas vidas, não serve para nada“.

Pensando em tudo isso, em mulheres e sua dignidade, sobre a construção de vida digna para todos e todas, que o texto do Evangelho deste 5º Domingo da Quaresma nos inspira e nos coloca à caminho. A perícope de Jo 8,1-11 descreve o encontro de Jesus com a mulher que ia ser apedrejada. Faz-se imperativo prestar atenção nas atitudes dos escribas e dos fariseus, da mulher e de Jesus. E mais: por que não nos perguntar qual seria a nossa atitude diante de situação semelhante?

Vamos nos colocar no cenário do relato joaninho de nossa reflexão. O Evangelho de João não foi escrito de uma só vez. Foi como uma semente plantada. Fecundou e cresceu no seu tempo. Ao longo dos anos, os cristãos iam lembrando e acrescentando outros episódios da vida de Jesus. Um destes acréscimos é o episódio da mulher que ia ser apedrejada (Jo 8,1-11). No contexto deste relato estão declarações fortes de Jesus. Basta retroceder ao capítulo anterior e o veremos dizer: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba!” (Jo 7,37). Palavras fortes que geraram ardorosos debates (Jo 7,40-53). Voltando ao texto de nossa reflexão (Jo 8,1-11), encontramos uma nova declaração de Jesus: “Eu sou a luz do mundo!” (Jo 8,12). Palavras que também provocam nova discussão com os judeus. Entre estas duas declarações, com suas discussões subsequentes, foi inserido o episódio da mulher para esclarecer como Jesus é a luz do mundo, como ele ilumina a vida das pessoas. É no amor, o qual se concretiza pela misericórdia, que se encontram a luz e o tempero necessários à vida.

Na primeira parte do relato joanino que estamos a refletir, percebemos como a realidade de Jesus se aproxima da realidade do povo. Experimenta suas dores, a indigência, o desterro. Depois da discussão, descrita no fim do capítulo 7 (Jo 7,37-52), cada um voltou para casa (Jo 7,53). Jesus não tinha casa em Jerusalém. Por isso, foi para o Monte das Oliveiras. Lá havia um horto, onde costumava passar a noite em oração (Jo 18,1). Rezava e dormia ao relento, como muitos desabrigados de seu tempo e do nosso. No dia seguinte, antes do nascer do sol, Jesus já estava novamente no templo. O povo também veio bem cedo para escutá-lo. Eles sentavam no chão ao redor de Jesus e ele os ensinava. O que será que Jesus ensinava? Deve ter sido bonito, pois vinham antes do nascer do sol para escutar. Aqui percebemos claramente a dinâmica do encontro, tão cara ao Evangelho joanino.

Enquanto mestre e assembleia experimentam a gratuidade do encontro, os poderosos – temerosos por perder seus privilégios – conspiram seus planos de morte. Ao cenário de Jesus e o povo ao seu redor, acrescenta-se a chegada dos escribas e dos fariseus, trazendo consigo uma mulher pega em flagrante adultério. Eles a colocam no meio deles. O relato deixa clara a violência deste ato. Uma afronta à mulher, à Jesus e àqueles que com ele se dedicava a ensinar. Como se não bastasse a posição ultrajante em que sujeitavam tal mulher, ainda se sentiram no direito de inquirir Jesus. Conforme a lei, esta mulher deveria ser apedrejada (Lv 20,10; Dt 22,22.24). Eles perguntam: “E qual é a sua opinião?” Era uma cilada, é claro. Se Jesus dissesse: “Apliquem a lei”, eles diriam: “Ele não é tão bom como parece, porque mandou matar a pobre da mulher”. Se dissesse: “Não matem”, diriam: “Ele não é tão bom quanto parece, porque nem sequer observa a lei!” Sob a aparência de fidelidade a Deus, manipulam a lei e usam a mulher para acusar Jesus. Percebe-se o quão maquiavélica parecia a cilada dos fariseus e escribas!

As lideranças do judaísmo normativo já se sentiam vitoriosas no embate. Parecia um beco sem saída. Mas Jesus não se apavora nem fica nervoso. Pelo contrário. Calmamente, como quem é dono da situação, ele se inclina e começa a escrever no chão com o dedo. Quem fica nervoso são os adversários. Eles insistem para que Jesus dê a sua opinião. Então, Jesus se levanta e diz: “Quem for sem pecado seja o primeiro a jogar a pedra!” E, inclinando-se, tornou a escrever no chão. Jesus não discute a lei. Apenas muda o alvo do julgamento. Em vez de permitir que eles coloquem a luz da lei em cima da mulher para poder condená-la, pede que eles se examinem a si mesmos à luz do que a lei exige deles. A resposta de Jesus derruba os adversários. Os fariseus e os escribas se retiram envergonhados, um depois do outro, a começar pelos mais velhos. Aconteceu o contrário do que eles queriam. A pessoa condenada pela lei não era a mulher, mas eles mesmos, que pensavam ser fiéis à lei. No fim, Jesus fica sozinho com a mulher no meio da roda. Ele se levanta e olha para ela: “Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?” Ela responde: “Ninguém, Senhor!” E Jesus: “Nem eu te condeno! Vai, e de agora em diante não peques mais!” Jesus não permite que alguém use a lei de Deus para condenar o irmão ou a irmã, quando ele mesmo ou ela mesma é pecador ou pecadora. Mais uma vez João nos brinda com um relato de vida restaurada pelo encontro de Jesus com o povo sofrido e machucado pela história.

O atento leitor, sensível às sagradas nuances do caminho, entenderá que este episódio, melhor do que qualquer outro ensinamento, revela que Jesus é a luz que faz aparecer a verdade. Ele faz aparecer o que existe escondido dentro das pessoas, no mais íntimo delas. À luz da sua palavra, os que pareciam ser os defensores da lei, se revelam cheios de pecado. Eles mesmos o reconhecem, pois vão embora, a começar pelos mais velhos. E a mulher, considerada culpada e merecedora da pena de morte, está de pé diante de Jesus, absolvida, redimida e dignificada (cf. Jo 3,19-21). O amor do Verbo Encarnado subverte realidades e ressignifica vidas.

No começo de nossa reflexão, lembrei da fragilidade dos direitos garantidos às mulheres ao longo de nossa história. Qual era a realidade no tempo de Jesus? Desde Esdras e Neemias, a tendência oficial era de excluir a mulher de toda a atividade pública e de considerá-la inapta para qualquer função na sociedade, a não ser para a função de esposa e mãe. O que mais contribuiu para a sua marginalização foi a lei da pureza. A mulher era declarada impura por ser mãe, por ser esposa, por ser filha, por ser mulher. Por ser mãe: dando à luz, ela se torna impura. Por ser filha: o filho que nasce traz 40 dias de impureza; mas a filha, 80 dias! (cf. Lv 12). Por ser esposa: a relação sexual a torna impura durante um dia (Lv 15,18). É, não era fácil para as mulheres!

Aprofundemos um pouco mais: a mulher menstruada ficava sete dias impura. E quem a tocasse também se tornava impuro por contágio (Lv 15,19-23). E não havia meio para uma mulher manter sua impureza em segredo, pois a lei obrigava as outras pessoas a denunciá-la. Esta legislação tornava insuportável a convivência diária em casa. Durante sete dias em cada mês, a mãe de família não podia deitar na cama, nem sentar-se numa cadeira, nem tocar nos filhos ou no marido, se não quisesse contaminá-los! Esta legislação é fruto de uma mentalidade segundo a qual a mulher era inferior ao homem. Alguns provérbios revelam essa discriminação da mulher. A marginalização chegou ao ponto de se considerar a mulher como a origem do pecado e da morte e a causa de todos os males (Eclo 25,24). Uma lembrança equivocada do episódio de Eva e a Serpente, presente em Gênesis, capítulo 3.

Sou levado a desconfiar que a errônea interpretação dos relatos bíblicos em relação à mulher foi antes e ainda é proposital. Desta maneira se justificam e se mantém o privilégio e a dominação do homem sobre a mulher. Por exemplo, se um homem, depois de algum tempo de casado, não gostasse mais da sua mulher, podia livrar-se dela dizendo que ela já não era virgem quando se casaram. Se os pais da mulher não conseguissem provar o contrário, ela seria apedrejada (Dt 22,13ss). A lei em relação ao divórcio é outro exemplo do privilégio do homem, pois somente ele tinha o direito de pedir o divórcio, mandando a mulher embora se já não a quisesse, sem direito a nada (Dt 24,1-4). A lei previa a morte do casal adúltero, mas na prática, somente a mulher era julgada e condenada por adultério. O que nos faz observar no relato de Jo 8,1-11 é: diante de Jesus é apresentada somente a mulher pega em flagrante adultério. Onde estava o homem envolvido neste ato? Uma mulher não comete adultério sozinha.

Infelizmente, dentro do contexto da época, a situação da mulher do povo da Bíblia não era pior nem melhor do que nos outros povos. Era a cultura geral. Até hoje, em muitos povos, continua essa mesma mentalidade. Mas como hoje, assim também antigamente, desde o começo da história do povo da Bíblia, sempre houve reações contrárias à exclusão da mulher, sobretudo depois do exílio, quando a lei marginalizava a mulher como impura e expulsava a estrangeira como perigosa. A resistência da mulher cresceu na mesma proporção em que a sua marginalização era mais pesada. Vários livros sapienciais registram essa voz da oposição: Cântico dos Cânticos, Rute, Judite, Ester. Nestes livros, a mulher aparece não como mãe, nem como esposa; mas como mulher que sabe usar sua beleza e feminilidade para lutar pelos direitos dos pobres e assim defender a Aliança do povo. E ela luta não a favor do templo, nem a favor de leis abstratas, mas sim a favor da vida do povo. Sinalizam Javé como Deus dos sofredores, abrindo portas para a revelação de Deus na história, ou protagonizando a Aliança definitiva em Jesus, o Amor que não é amado.

O relato de Jo 8,1-11 nos edifica e provoca. Com olhar atento e coração humilde, somos levados a nos identificar com os vários personagens desta perícope do Evangelho joanino. Quem somos nós nesta dinâmica do encontro? Somos a mulher marginalizada desde o nascimento? Aviltada pelos costumes patriarcais injustos e contradizentes com o sonho de Deus para a humanidade? Somos os fariseus e escribas, inflados pelo orgulho e aficionados pelos privilégios do Status Quo? Ou seremos capazes de agir como Jesus, inabalável no amor que denuncia, acolhe e reintegra?

Oxalá possamos ter nossos nomes inscritos nos Céu por ter amado, sem medida. Por acolher sem qualquer forma de acepção. Sejamos lembrados por não participarmos das rodas dos que conspiram contra os fracos, sonegam o direito e a justiça, colocam fardos pesados às costas dos pequeninos. Sejamos misericordiosos e justos, temendo ter nossos nomes rabiscados na poeira do solo da verdade, tal qual acontecera com os escribas e fariseus. Diante da dialética do encontro, saíram aterrorizados pela verdade que fazia morada em Jesus. Onde só o amor é a Lei!


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