Dei Verbum: A Palavra que Clama ao Coração da Igreja 

Um Chamado à Conversão e à Ação  

Por Seny Giannini*

A Dei Verbum, Constituição Dogmática do Concílio Vaticano II, é um marco histórico e espiritual na vida da Igreja, reafirmando a centralidade da Palavra de Deus como força transformadora na história da salvação. Como Edmilson Schinelo destaca, esse documento não apenas ensina sobre a Bíblia, mas nos desafia a devolver à Palavra seu lugar central na vida cristã e na missão evangelizadora (SCHINELO, 2023, p. 11). Da mesma forma, Ildo Bohn Gass sublinha que a Bíblia é a “porta de entrada” para compreender a Revelação, que não é apenas um discurso, mas um acontecimento vivo e moldador (GASS, 2003, p. 9). 

Dividida em seis capítulos, a Dei Verbum guia os fiéis em uma jornada de descoberta: 

– Capítulo 1: A Revelação divina como ato de amor, onde Deus dialoga com a humanidade. 

– Capítulo 2: A transmissão da Revelação, destacando a inseparabilidade entre a Tradição Apostólica e a Sagrada Escritura. 

– Capítulo 3: A inspiração divina e a interpretação correta das Escrituras, promovendo uma leitura guiada pelo Espírito Santo. 

– Capítulo 4: O Antigo Testamento como preparação para a plenitude da Revelação em Cristo. 

– Capítulo 5: O Novo Testamento como culminância da Palavra viva de Deus na figura de Jesus. 

– Capítulo 6: A Palavra na vida da Igreja, sendo alma da teologia, da pregação e da catequese. 

No contexto histórico do Concílio Vaticano II, a Dei Verbum emerge como resposta à secularização crescente e às crises da modernidade. Ildo Bohn Gass observa que a Revelação divina é “pedra angular” em tempos de ruptura, convidando-nos a um retorno às fontes da fé (GASS, 2003, p. 19). Esse retorno não é apenas teórico; exige vivência e prática em todas as dimensões da Igreja e das comunidades. 

A Centralidade da Palavra Viva

A vivência da Palavra vai além do estudo acadêmico e da pregação. Schinelo afirma que a Bíblia é alimento para o cotidiano, não apenas objeto de estudo isolado (SCHINELO, 2023, p. 9). Contudo, somos confrontados com a realidade: será que nossas comunidades realmente vivem essa verdade ou estão presas à superficialidade? A Dei Verbum nos exorta a sermos “ouvintes e praticantes da Palavra” (cf. Tg 1,22), iluminando nosso caminhar pela luz das Escrituras (Sl 119,105). 

A vivência bíblica também nos convida à comunhão. O relato de Emaús exemplifica como a leitura das Escrituras deve promover hospitalidade, partilha e transformação comunitária (SCHINELO, 2023, p. 14). O pão da Palavra e o pão da mesa devem caminhar juntos, renovando nossas comunidades à luz do Evangelho. Como Edmilson Schinelo aponta, a Palavra viva de Deus não é apenas para ser contemplada, mas para guiar as ações concretas da Igreja em direção a um mundo mais justo e solidário (SCHINELO, 2023, p. 15). 

Exigências e Aplicações Práticas

A Dei Verbum nos provoca a traduzir os ensinamentos bíblicos em ações concretas que transformem as realidades pessoais, comunitárias e sociais. Alguns exemplos incluem:

1. Na Catequese:

   – Encoraje práticas de oração e reflexão bíblica nos encontros catequéticos. Por exemplo, ao trabalhar o texto do Bom Samaritano (Lc 10,25-37), desafie os catequizandos a se envolverem em ações comunitárias de solidariedade, como campanhas de doação.

2. Na Liturgia:

   – Durante as celebrações, ligue as leituras bíblicas aos problemas sociais concretos da comunidade. Incentive os fiéis a buscar nas Escrituras a inspiração para lidar com desafios como a pobreza, o desemprego e a violência.

3. No Serviço Pastoral:

   – Implemente projetos baseados nos valores do Evangelho, como assistência aos marginalizados, inspirados na passagem de Mt 25,40: “O que fizestes a um destes meus irmãos menores, a mim o fizestes.”

4. Na Formação de Líderes:

  – Promova seminários e encontros que ensinem os futuros líderes a desenvolverem uma relação íntima com a Palavra de Deus, capacitando-os a interpretar e aplicar as Escrituras na vida pastoral e comunitária.

Um Chamado à Conversão e ao Testemunho Profético

A Bíblia, enquanto Palavra viva de Deus, clama por um testemunho profético. Como enfatiza Schinelo, ela é uma força que transcende o aspecto acadêmico e nos desafia a transformar a realidade ao nosso redor (SCHINELO, 2023, p. 15). A Dei Verbum exige de nós um compromisso profundo: estamos dispostos a nos deixar transformar pela Palavra?

A vivência dessa conversão inclui a hospitalidade, a partilha e a solidariedade, como destaca o relato de Emaús. Esses elementos não apenas aquecem o coração, mas abrem os olhos para a presença de Deus em nossa jornada. Que a Dei Verbum inspire nossas comunidades a serem luz no mundo, tornando a Palavra de Deus uma fonte viva de transformação e esperança.


Referências: 

– CONCÍLIO VATICANO II. Constituição Dogmática Dei Verbum. Roma: Libreria Editrice Vaticana, 1965. Disponível em: <https://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651118_dei-verbum_en.html&gt;. Acesso em: 05 abr. 2025. 

– SCHINELO, Edmilson. Introdução à Bíblia. 3. ed. rev. e atual. Campo Grande: UCDB, 2023. 

– GASS, Ildo Bohn. Porta de Entrada da Bíblia. São Leopoldo/São Paulo: CEBI/Paulus, 2003. 

*Seny Giannini é catequista, pedagoga, socióloga, pós-graduada em Dimensão Social da Fé pela Universidade Católica de Pernambuco. Bacharelanda em Teologia pela Universidade Católica Dom Bosco – UCDB


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