Por Pe. Hermes A. Fernandes
“Quero ser bom”. Ouvi muitos dizer isto. Eu mesmo já o disse. E, muitas vezes, logo depois de proferidas estas palavras, somos levados à maldade. Claro que não me refiro a atos diabólicos ou demoníacos. Falo de algo mais simples, mais palpável. Falo das vezes em que nos deixamos inflamar na oração da manhã, e logo depois – quando as dificuldades da vida nos confrontam – somos levados a pensar, sentir e fazer exatamente o contrário do que a Palavra de Deus nos instruiu. Rezamos pela paz e semeamos palavras de ódio. Louvamos o amor de Deus por nós, mas somos incapazes de amar incondicionalmente. E, muitas vezes, nos apoiamos em discursos moralistas, para justificar nosso desamor. “Não amamos fulano porque ele faz isso ou aquilo”. “Não quero conviver com tal pessoa, pois confunde o Evangelho com ideologia, não é devoto o suficiente, não prega a ortodoxia da forma rígida que se deve etc”. Cheguei a ouvir um padre frequente nas mídias sociais dizer: “o que falta na Igreja são excomunhões…” Um padre que prega a exclusão como solução para restaurar as fraturas na Igreja. E a maior fratura que vejo é a desunião, a rivalidade, o desafeto. Mais fácil seria se nos preocupássemos com o que Jesus disse: “maior prova de amor é dar a vida por seus amigos” (Jo 15,13), ‘‘Vocês ouviram o que foi dito: ‘Ame o seu próximo, e odeie o seu inimigo!’ Eu, porém, lhes digo: amem os seus inimigos, e rezem por aqueles que perseguem vocês!” (Mt 5,43-44). É… Jesus desconstrói nossa humanidade com o anúncio de um amor que seria impossível se ele mesmo não o tivesse vivido concretamente.
Falando ainda de contradições, vi um acólito confrontar um padre porque o presbítero escolheu usar paramentos simples e não os veludos e brocados que ele tinha preparado para a Missa. Como se o valor de um ministério estivesse limitado à beleza dos tecidos. E, muitas vezes, os belos tecidos abafam a Verdade do Evangelho. Porque o Jesus do Evangelho não cabe nos brocados e veludos de muitos que se seduzem pelo brilho, pela beleza… Escolheram uma religião estética, esquecendo-se do viver ético. O Evangelho de Jesus está centralizado nos pobres. A verdadeira riqueza da Igreja são eles, os vulneráveis. E foi para os Pobres que Jesus se sentiu ungido e enviado (cf. Lc 4,18). Daí, no luxo dos altares, vemos o confronto entre a estética do sacerdócio principesco e a ética de Jesus.
Queremos ser bons, mas complicamos tudo. Misturamos nossas ambições pessoais, com o sonho de Deus. Apropriamo-nos do Altíssimo, para usar dele, de sua Lei, para excluir, maltratar, marginalizar… Gostamos muito do Antigo Testamento. Queremos usar dele de forma literal para justificar nossa dureza de coração. E quando o Evangelho desfaz a dureza, transformando a condenação em misericórdia, queremos relativizar tudo. Apedrejar o pecador é vontade de Deus, amar até o fim – dando a própria vida – é metáfora. Irônico, não? Melhor seria ler a história, dentro da própria história Bíblica. Daí entenderemos que nada foi estático. Que a relação entre Deus e os homens foi um processo de conquista, de gradativamente enamorar-se. Deus foi se revelando de acordo com a capacidade de entendimento da humanidade. Foi um processo lento, árduo… Fomos seduzidos pelo Senhor. Deixamo-nos seduzir por Ele (cf. Jr 20,7). A história de Deus e os homens chega a seu ápice em Jesus. Ele é o Deus que tanto amou o mundo que se fez Deus conosco, Emmanuel (cf. Mt 1,23). Se fez humano, restaurando a dignidade de todos os seres humanos.
Poderia dizer muitas coisas mais. Perdoem-me pelo excesso de palavras. Estamos às portas da Semana Santa. Estas datas sempre me tocam profundamente. E o que mais me incomoda é contemplar o sacrifício de Jesus por nós e ver tanta violência, ódio, discriminação ao nosso redor. Só queria que você e eu, todos nós entendêssemos bem tudo o que vamos celebrar. Celebrar a Paixão de Cristo é esquecer as paixões humanas. É entender que, para além de qualquer coisa que diga uma religião, o mais importante sempre será o Amor. E, como nos disse São Francisco de Assis, “o Amor não é amado”.
Feliz Semana Santa a todos e todas! Que sejamos contaminados pelo Amor de Jesus. Amor de Cruz. Que nem a morte conseguiu vencer. Ele ressuscitou.
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