Por Pe. Hermes A. Fernandes
Na Liturgia desta quinta-feira da Oitava da Páscoa, continuamos a refletir sobre a força transformadora de Jesus na comunidade nascente. Vimos em At 3,1-10 que havia um paralítico à porta do Templo a mendigar. Na sociedade do tempo de Jesus e da comunidade que nascia de seu ensinamento e testemunho, os doentes eram vítimas de infortúnios físicos, sociais e religiosos. A Teologia da Retribuição pregava que alguém doente trazia em seu corpo a marca do pecado. Como que uma maldição resultante do pecado cometido por si ou por seus antepassados. A misericórdia que devia impulsionar a pregação e o agir religioso, agia em contrário. Marginalizava os doentes como pecadores públicos. Destarte, os que se deixavam prostrar às portas do Templo, estavam em estado de penúria. Financeira, social e religiosa.
Jesus havia rompido com essa mentalidade excludente. Quando deparou-se com pessoas em situação de sofrimento físico, os libertava não somente das mazelas do corpo, mas – sobremaneira – das chagas sociais e religiosas. Não raramente podemos ver nos evangelhos que Jesus curava e pedia que o beneficiado da graça se apresentasse ao sacerdote. Por que? Para que, comprovada a cura, a pessoa fosse restaurada em sua dignidade diante da sociedade e da religião. Os milagres de Jesus iam muito além da cura física. Era restauração da pessoa humana de forma integral.
Dito isto, voltemos à perícope da Primeira Leitura da Liturgia de hoje. Em At 3,11-26 vemos a continuação do relato sobre o paralítico curado na porta Formosa do Templo (cf. At 3,1-10). A partir do versículo 11, somos informados que o homem curado passa a seguir Pedro e João. Uma vez que tem sua vida reconstruída pela ação misericordiosa dos discípulos de Jesus, ele mesmo – o antes paralítico – assume seu lugar no discipulado. Sua vida se torna testemunho de que o caminho de seguimento de Jesus é um caminho de liberdade e vida. Todavia, o fato precisa ser explicado, porque o povo logo já atribui a Pedro e João poderes mágicos. É a tendência de se eleger ídolos e mitos no meio do povo. Aconteceu antes, acontece agora.
A polêmica estava armada. Não muito diferente de nossos tempos, a massa sempre está ávida por celeumas. Debates em que se tem prazer em ver “o circo pegar fogo”. O lugar mais apropriado a tais atividades em Jerusalém naquela época era o Pórtico de Salomão. Ali as pessoas se reuniam para os debates. Armada a querela, Pedro – iluminado pela palavra e ação de Jesus – aproveita o momento para anunciar este Jesus, o Cristo Nazareno, ao povo de Israel, o Povo de Deus. Com sabedoria própria aos chamados por Deus à profecia, ele fala em nome do Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, ou seja, o Deus dos antepassados (cf. At 3,13). Com isso, fala do Deus do Êxodo, que libertou seu povo da escravidão na terra do sofrimento e o conduziu para a terra da vida (cf. Ex 3,6.15). Atualizando a Antiga Aliança para a Nova, apresenta Jesus como enviado de Javé libertador. Esta relação de pertença entre o Pai e o Filho se dá em plenitude pela glorificação de Jesus na ressurreição e ascensão. Pedro, agora líder dos Apóstolos, continua o anúncio do Evangelho, em forma de querigma, o primeiro anúncio. E este anúncio tem um ponto de partida: o Cristo Ressuscitado.
O discurso de Pedro, além de apresentar uma síntese catequética do Mistério da Salvação, vai além: denuncia a rejeição do povo a Jesus e a violência de sua morte. A Igreja nascente não só é continuadora da palavra e ação de Jesus. É profética e transformadora. Ao denunciar a rejeição ao enviado do Pai, Jesus de Nazaré, denuncia a rejeição a aqueles e àquelas por quem ele veio, isto é, os pobres e sofredores (cf. Lc 4,18-19).
Pedro tem em si a iracúndia profética. Lembra que Pilatos propôs anistia a Jesus. Porém, o povo escolhe Barrabás, um assassino. O projeto de vida é substituído pelos projetos de morte. O povo preferiu alguém que mata, em vez de Jesus, que dá a vida. Este povo concordou com a morte do Autor da Vida, mas Deus o ressuscitou, e agora Jesus está vivo, dando vida nova, como aconteceu no caso do aleijado (cf. 3,13-16). Em outras palavras, o Deus do Êxodo, fonte da liberdade e da vida, age agora através de Jesus, por meio da fé e compromisso da comunidade.
Ainda refletindo sobre a cura do aleijado, o relato de Atos traz algumas particularidades importantes para nosso aprendizado enquanto comunidades de Jesus hoje. Pedro e João deparam-se com o sofrimento humano. Uma pessoa com deficiência física, vive a esmolar às portas do Templo. Tal pessoa não podia com a própria sorte. Mais do que a saúde negada, era-lhe negado o direito à vida digna. Neste sentido, as palavras de Pedro são de especial significado: “Não tenho ouro nem prata, mas o que tenho eu te dou: em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, levanta-te e anda!” ( At 3,6). Gratuitamente lhe é restaurada a saúde e – com isso – a dignidade. E fiquemos atentos: nada foi pedido ao aleijado. Nem mesmo a fé. Outrossim, é a fé da comunidade, comprometida com a palavra e ação de Jesus, que faz possível a restauração daquela pessoa humana, excluída e marginalizada pelo judaísmo normativo. Aqui nos fica bem claro o papel da comunidade cristã: agir em nome de Jesus, promovendo a libertação do povo para uma vida digna.
Com isso, propondo e promovendo a dinâmica do Reino de Deus, construindo relações de fraternidade e partilha, provocando em palavras e ações a liberdade e a vida; o testemunho do Ressuscitado é carne em nossa própria carne. Ele, Jesus, venceu a morte. Em nome dele, vidas são restauradas. A dinâmica de Atos 3 mostra bem como deve ser a prática das comunidades de Jesus. Primeiro o ato libertador. Depois o anúncio de libertação, que explica o sentido do ato libertador e suscita mudança de vida. Primero a prática do testemunho da Igreja, por ações de acolhida e misericórdia; depois o convite à pertença. A Graça em Cristo não é uma mercadoria de escambo. “Seja fiel e terás a vida”. A vida é direito de todos e todas, pois foi assegurado pela vida doada de Jesus. Em Jesus, nossa vida é ressignificada. Em Jesus, somos comunidade testemunhal, anunciando por palavras e ações o Reino de Deus, onde ninguém precisa ficar prostrado às portas, sem dignidade e vida plena. Na comunidade de Jesus, todos e todas são libertos e agentes de libertação.
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