Todos nós batizados, somos chamados de seguidores de Jesus, ou seja, cristãos. Uma denominação que apareceu já no início da Igreja, como se encontra no livro dos Atos dos Apóstolos: “Em Antioquia, os discípulos foram pela primeira vez chamados cristãos” (At 11,26).
Muitos livros foram escritos sobre a pessoa de Jesus, seja como o Jesus da história ou o Cristo da fé. Inclusive tem uma ciência própria para quem quiser aprofundar o seu conhecimento sobre Jesus: Cristologia. Aqui queria meditar sobre as falsas imagens do nome de Jesus, que infelizmente, são usados por muitos para interesses próprios. Ao mesmo tempo, queria encorajar a cada um de nós a redescobrir as verdadeiras imagens de Jesus, o que ele é verdadeiramente: o Salvador, o Messias, o Profeta, o “Desafiador.”
Um Jesus “curandeiro” versus Jesus curador
Aquele Jesus que só procuro quando tenho problemas de saúde. Jesus cura, mas não é um curandeiro. Além de tudo, a cura de Jesus não é somente física, ela é também espiritual. “Como não pudessem apresentá-lo por causa da multidão, descobriram o teto por cima do lugar onde Jesus se achava e, por uma abertura, desceram o leito em que jazia o paralítico. Jesus, vendo-lhes a fé, disse ao paralítico: Filho, perdoados te são os pecados” (Mc 2, 4-5).
Jesus inquilino versus Jesus como dono
Aquele Jesus que consideramos como mero locatório da nossa vida. O que significa ser inquilino/locatário de uma casa? Inquilino é um indivíduo que mora numa casa que não lhe pertence. Ele cuida da casa para não provocar nenhum estrago, ele precisa devolver a casa nas mesmas condições em que o recebeu. O que significa isso no caso de Jesus considerado inquilino? Nesse caso, Jesus pode entrar na minha vida, mas não pode mexer com a estrutura dela. Fico impressionado com a hospitalidade do povo brasileiro. Quando se entra numa casa, o dono da casa livremente te leva a fazer um ‘tour’ nela, te mostrando todos os quartos da moradia, uma coisa incomum na minha cultura. Este fato leva a refletir sobre como acolhemos Jesus em nossa vida.
Quando fazemos de Jesus o inquilino da nossa vida é como se disséssemos a Ele: Jesus, você pode entrar na minha vida, “nesse quarto”, mas mostramos a ele só os “quartos” limpos e aqueles escuros ou sujos não. Contudo, esquecemos que quando Jesus torna-se o dono da nossa vida, Ele adquire o poder de mexer na estrutura dela, tem o poder de nos desafiar: “Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e me abrir a porta, entrarei em sua casa e cearemos, eu com ele e ele comigo” (Ap 3, 20).
Jesus amiguinho versus Jesus verdadeiro amigo
Um Jesus amiguinho, é um Jesus “refém” dos nossos caprichos. Esse tipo de Jesus é obrigado a seguir os meus gostos. Aquele Jesus que procuro só quando preciso dele. Me lembro dele só quando me interessa, só quando sinto necessidade. Acabado aquele problema, é “tchau Jesus”, até outra ocasião. Pelo contrário, Jesus é o nosso amigo. Um amigo verdadeiro que não tem medo de te desafiar quando achar necessário. Um amigo verdadeiro que não tem medo de te chamar a atenção quando precisar. Ele é amigo nos momentos de alegria e de dificuldades: “Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28, 20). Falando na amizade, toda amizade é como uma flor, ela precisa ser cuidada, regada. A nossa amizade com Jesus precisa também de regularidade, de visitas e conversas especialmente a traveis da oração.
Jesus Superman versus Jesus fraco
Esse é um Jesus milagroso, mágico, que caminha no mar. O homem e a mulher de hoje querem ver sinais palpáveis. Aliás, essa é uma “obsessão” de muitos anos: “Esta geração perversa e infiel pede um sinal; mas nenhum sinal lhe será concedido, a não ser o sinal de Jonas. Jesus se afastou então deles e partiu dali ” (Mt 16, 4). Parece que o Jesus da prosperidade atrai mais seguidores que o Jesus sofredor. Jesus se apresenta a nós numa pobreza incrível: “Pois conheceis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, tornou-se pobre por vossa causa, para que fosseis enriquecidos por sua pobreza” (2 Cor 8, 9). No auge de seu amor na cruz, ele não teve vergonha de expor a sua fraqueza: “E à hora nona, Jesus bradou em alta voz: “Elói, Elói, lammá sabactáni? Que quer dizer: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mc 15,34).
Não deveríamos ter vergonha desse Jesus “fraco”, porque é na sua fraqueza que encontramos inspiração para seguir em frente, amando nossos irmãos e irmãs. Não tem o domingo da Páscoa sem a sexta-feira santa. Aquele Jesus que não se envergonhou de nos chamar de irmãos, é o mesmo Jesus que nos convida a carregar as nossas cruzes diárias para segui-lo.
Jesus circunstancial ou ligado a um lugar específico
Esse é um Jesus só do momento. Me torno cristão só durante momentos, datas ou eventos sociais. Isso quer dizer que vou à missa, por exemplo, no dia do batizado do meu filho, nos momentos fortes do ano litúrgico, como quarta-feira das cinzas ou sexta-feira santa. Ou de outro modo, ser cristão/cristã só na Igreja ou durante momentos de oração e quando chego em casa ou no lugar do trabalho, me torno uma outra pessoa, mentindo, roubando, traindo como tantos fazem.
Ser cristão/cristã é uma vocação e não uma profissão. A profissão é algo que se vive durante oito horas por dia. Porém, não podemos ser cristãos só durante alguns momentos do dia, temos que ser cristãos 24 horas do dia, 7 dias da semana, ou seja, toda a vida. No final das contas, Jesus sempre faz uma pergunta a cada um de nós, seus seguidores: “E você meu filho, minha filha, quem sou eu para você?” “Chegando ao território de Cesareia de Filipe, Jesus perguntou a seus discípulos: No dizer do povo, quem é o Filho do Homem? Responderam: Uns dizem que é João Batista; outros, Elias; outros, Jeremias ou um dos profetas. Disse-lhes Jesus: E vós quem dizeis que eu sou?” (Mt 16, 13-15).
Pe. Elvis Ndihokubwayo
Colaborou: Missionários Xaverianos
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