Por Pe. Hermes A. Fernandes
A Liturgia deste 6º Domingo do Tempo Pascal nos coloca a caminho de testemunhar a Ascensão do Senhor que celebraremos no próximo dia 01 de junho. O Evangelho que ilumina a Liturgia deste Domingo, o sexto do Tempo Pascal, nos introduz ao clima de despedida. As palavras de Jesus no texto Joanino nos proporcionam exortações à esperança e à perseverança.
O Evangelho de João foi o último a ser escrito. O discurso de Jesus, segundo João 14,23-29, insere-se nas palavras do Mestre ditas na última ceia. Três outros Evangelhos já haviam sido escritos. Memórias das comunidades que retratavam a experiência que estas fizeram com a Palavra e Ação de Jesus. A comunidade joanina achava que ainda precisava de mais um Evangelho. Sabemos que parte da literatura joanina tem uma especial atenção ao clima de perseguição em que viviam os cristãos daquele tempo. Seu Evangelho não foge à regra. João tem especial cuidado em semear a esperança e exortar à perseverança em tempos de opressão. Aproximadamente 60 anos após a morte de Jesus, parte de sua mensagem precisava ser avivada. O Evangelho Joanino não nos apresenta um texto querigmático. Tem mais um caráter de formação permanente do que de iniciação cristã. Responde ao contexto mais agressivo das perseguições feitas aos cristãos e cristãs por parte do Império Romano.
Como foi posto anteriormente, o Evangelho de João foi escrito aproximadamente 60 anos após a morte de Jesus, ou seja: pelos anos 90 d.C. Insere-se no contexto da mais severa perseguição do Império Romano. Em 70 d.C., o Império Romano invadiu a Palestina, que já era sua colônia e pagava pesados tributos em troca de ser deixada em paz. Que paz era essa? A chamada Pax Romana, mantida sob ameaça de violência. Enquanto os palestinos se mantivessem subjugados, não haveria derramamento de sangue. Mesmo insinuando a paz, o Império Romano reprimiu todos os pequenos sinais de resistência ou subversão que existiram. Desde o tempo de Jesus e, ainda no contexto do Evangelho Joanino, muita gente foi morta para conter qualquer rebelião contra o império. A situação foi se arrastando até o ano 70 d.C., quando a imagem de governo tolerante do Império não mais se sustentava. Assim, Roma invadiu Jerusalém e destruiu o Templo, pondo fim ao acordo de tolerância que dizia ter com o judaísmo. Os judeus tiveram que se dispersar e se reorganizar. Também os seguidores de Jesus, que nesta época já se organizavam em comunidades independentes do judaísmo, sofreram com a nova versão da colonização romana. Agora não se falava em paz. Somente em submissão total pela força. No movimento de dispersão, as comunidades cristãs foram as primeiras a fugir da perseguição. Algumas foram para Pela, no lado oriental do rio Jordão, outras se espalharam pelo norte da Galileia, pela Síria e Fenícia. Outras ainda, foram em direção à Antioquia – também na Síria – estendendo-se gradativamente até a Ásia Menor. E nesse contexto geográfico mais extremo se insere as comunidades joaninas.
Enquanto desterrados e perseguidos, os discípulos de Jesus formados e animados por João, passam a deixar sua mensagem e testemunho de esperança e fidelidade. Algo ímpar nos registros históricos do período peleocristão, ou cristianismo primitivo, que data de até o primeiro Concílio de Niceia, em 325 d.C.
João, em seus escritos, rememora a experiência dos primeiros discípulos com Jesus, trazendo-os para a profundidade das relações de amor e partilha. Como dito anteriormente, não se trata de um texto querigmático e sim um aprofundamento da fé e da vida cristã. João tenta conduzir os discípulos de sua Igreja a uma intimidade com Jesus. Na intimidade dos irmãos e irmãs, as relações humanas são mais sólidas, mais fidedignas e permanentes. Isso se faz presente em muitas palavras-chave dos textos joaninos, tais como: “permanecer em mim”, “ter parte comigo”, “eu e o Pai”… São palavras que indicam pertença, proximidade, aliança. É no afeto que se constroem relações cristã efetivas, uma vez que o amor é a chave de tudo.
Este movimento de interiorização e aprofundamento da Palavra e Ação de Jesus se faz presente também na perícope de João 14,23-29.
Já no versículo 23 está uma lancinante provocação: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e o meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele a nossa morada.” Quando amamos alguém, cada detalhe da história com essa pessoa se torna inesquecível. Ao discipulado de Jesus implica uma condição anterior ao conhecimento de seu ensinamento: o amor. Quem ama, guarda a mensagem. Aqui se introduz uma observância pelo amor e não por mera obediência. Uma grande diferença da compreensão joanina sobre o discipulado em comparação aos movimentos rabínicos desde o tempo de Jesus. O amor que leva à observância, também leva à pertença. Sermos observantes da Palavra e Ação de Jesus é abrigar em nós a sua presença. Neste sentido, sabendo que o amor é algo mútuo, o Evangelho não se define e se realiza por uma mensagem, por uma ideia; mas por uma condição de vida, na qual – Jesus e seu Pai – se fazem presentes e atuantes em nós, na comunhão do Espírito Santo. Este último, o Espírito Santo, é prometido em seguida, no versículo 26. Este companheiro da Igreja, que a anima na fé, também a ilumina na memória e fidelidade ao Evangelho. Aqui se tem o mais sincero entendimento do Paráclito!
Na segunda metade da perícope do Evangelho desta Liturgia, temos a implicação prática do discurso de Jesus. No versículo 27 está: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; mas não a dou como o mundo.” Ao falar de Paz, Jesus opõe-se à paz do mundo. Tanto no contexto da ocupação romana, quanto – por atualização – no nosso contexto. A paz oferecida por Jesus, aplica-se ao conceito de Shalon. Ela não reflete meramente a ausência de conflito. Esta Paz refere-se à totalidade de sua presença, permeando todas as necessidades humanas. Fazendo do homem e da mulher plenos em Cristo. Por isso, sua oposição à paz do mundo, que, muitas vezes, é forçada por armas ou condições de subjugar-se. No contexto de perseguição romana, João põe na boca de Jesus um oferecimento de paz inquieta, que constrói a realidade do Reino de Deus, onde a vida é plena e abundante (cf. Jo 10,10). Esta Paz, enquanto abundância do Bem – o Reino de Deus em nós – foi sonhada pelos homens e mulheres já muito antes de Jesus. Desde o Primeiro Testamento, a paz era a saudação judaica comum ao se encontrar alguém e ao se despedir (cf. Ex 4,18; Jz 18,6). Mesmo despercebida sua importância, dada a constância de seu uso, a saudação de paz refletia o anseio mais íntimo daqueles e daquelas que desejavam viver a aliança de Javé com seu povo. Por isso, em paralelo, podemos ver sua importância na saudação a Jerusalém (Sl 122) e no anúncio messiânico (Is 9). Quer na liturgia orante, quer na esperança futura; a paz se fazia como que sustentáculo da ideia de uma vida plena e feliz, proporcionada pela Ação de Deus em nossa história. E não podemos esquecer que a paz advinda de Jesus e seu Pai está intimamente ligada ao conceito de justiça. O mundo – no tempo de Jesus e seus discípulos – e em nosso tempo, propõe uma paz injusta ou mediante paliativos hipócritas. A paz proposta por Jesus em Jo 14,27 é uma paz vivificante e eficaz (cf. Sl 85,9).
Por fim, Jesus antecipa sua despedida. Já foi dito que este discurso se dá no contexto da última ceia. João o insere neste contexto como que um prelúdio ao Mistério Pascal que está por vir. Jesus irá morrer, ressuscitar e ascender ao Pai. Daí se entende o tom da despedida. No contexto joanino, está a esperança de que a morte de Jesus não será o fim. Ao contrário, nela se inaugura a plenitude de sua missão. Com o Mistério Pascal a messianidade de Jesus se faz completa, pois sua vida é oferecida como sacrifício que ressignificaria a vida humana.
Após a ressurreição, os discípulos devem guardar a Palavra de Jesus e continuar na ação da Igreja sua própria Ação. Para tanto, devem seus seguidores e seguidoras viver fortalecidos pela coragem necessária para continuar o anúncio da Boa Nova. Até porque, assim como no tempo de Jesus a violência o calou pela morte de Cruz, também a violência tentará calar a voz da Igreja. Por isso, João deixa uma palavra de fortalecimento, também colocada no contexto da última ceia: “Não se perturbe nem se intimide o vosso coração” (14,27b). E mais: “Vou, mas voltarei a vós. Se me amásseis, ficaríeis alegres porque vou para o Pai, pois o Pai é maior do que eu. Disse-vos isto, agora, antes que aconteça, para que, quando acontecer, vós acrediteis.” (14,28-29). João coloca Jesus como aquele que previne e consola. Explica o que está por vir e exorta ao entendimento real destes acontecimentos. É preciso que ele se vá para junto do Pai, para que se chegue à plenitude de todas as coisas. Para além da presença física do Mestre e Messias, está o projeto soteriológico de sua vinda. “De tal modo Deus amou o mundo, que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16).
O que a perícope de Jo 14,23-29 deixa de mensagem às comunidades de nosso tempo? Como esta palavra pode ser inspiração para nossos dias?
Atualizando o contexto das Comunidades Joaninas para o nosso, percebemos que ainda vivemos situações nas quais a violência nos assombra. Assim como o Império Romano subjugava os povos na palestina desde os tempos de Jesus, muitos tiranos desejam imperar em nossos tempos. Seja pela tirania da violência física, seja pela violência econômica, social e ecológica. Nossas comunidades precisam entender que o seguimento de Jesus nos impele à continuidade de sua Palavra e Ação. Precisamos – enquanto Igreja – nos opor a toda forma de paz que se constrói por relações injustas ou paliativos hipócritas, tais quais vemos na guerra entre Rússia e Ucrânia. As propostas de paz sugeridas pela Rússia significam a submissão e a renúncia da liberdade por parte da Ucrânia. Isso não se difere muito da mentalidade imperialista de Roma nos tempos de Jesus e de seus discípulos.
A Palestina também vive uma difícil realidade. Israel alega estar combatendo o Hamas, mas são os palestinos que estão morrendo a cada dia. Pela violência, pelo cerceamento da liberdade e – pasme-se – pela fome! O que está por trás deste conflito? A mesma tirania que deixou o Império Romano cego diante da sedução por poder e domínio. Deve a Igreja Católica bradar profeticamente contra estas mortes, assim como o fez o Papa Francisco e como tem feito recentemente nosso já amado Papa Leão XIV, que inaugura seu ministério opondo-se a toda e qualquer forma de violência.
“Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou” (Jo 14,27). Que a paz deixada por Jesus e tão sonhada por nós, possa se tornar uma realidade. Para tanto, devemos clamar aos Céus por Justiça. Justiça social, econômica e ecológica. Que não se perca nenhuma vida em razão da ganância de alguns que sonham com os impérios de morte, transformando a maioria em vidas ameaçadas. Maldita toda violência que devora a vida, em nome do lucro e do poder!
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