“Eu vou para o Pai, mas eu fico por perto” | Reflexão para a Solenidade da Ascensão do Senhor

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Desde minha adolescência, um canto litúrgico tocante à Ascensão do Senhor me inspira. Mesmo inserido no contexto da Campanha da Fraternidade de 1992, fala da ida de Jesus para junto do Pai. Também fala de sua presença em nós. No Pão e Vinho eucaristizados, no amor que nos faz Igreja viva e atuante.

“O tempo não para,
chegou minha hora.
Eu vou para o Pai,
Mas eu fico por perto.
Eu sou este Pão, este Vinho, este Amor.
Perfaz o Caminho que encontra-se aberto”

Neste domingo em que celebramos a Ascensão de Jesus, é preciso resgatar a espiritualidade e a provocação que esta joia do cancioneiro das comunidades nos proporciona. A Ascensão nos fala da despedida de Jesus. Não estará mais presencialmente junto de seus discípulos enquanto pessoa humana. Transcende – em definitivo – à condição divina e, com o Pai e o Espírito, compõe a Comunidade Trinitária. Axiomas teológicos sobre a união hipostática à parte, importa que entendamos a aplicação mistagógica desta ida ao Pai, desta ausência que continua sendo presença, deste convite à unidade, mesmo que na diversidade. Agora, junto do Pai, Jesus se confirma Deus em Três Pessoas. Diverso e único. Pessoa e Comunidade. E nós, Igreja dele, devemos buscar unidade na diversidade, identidade na comunidade. Afinal, como nos inspira o cântico litúrgico acima lembrado, Jesus continua entre nós. No Pão, no Vinho, no Amor. Partilhando deste Pão e deste Vinho no amor, também nós somos um com ele.

Para bem viver e celebrar este Mistério, a Liturgia nos apresenta o Evangelho de Lc 24,46-53. Estamos no contexto da despedida de Jesus e do desafio de ser discípulo enquanto continuador de sua mensagem. Jesus volta para o Pai, mas se mantém presente. É no testemunho que a Igreja faz de sua Palavra e Ação, memória e presença do Senhor. Esta será a missão dos discípulos: testemunhar Jesus! Tal missão consiste em anunciar a todos a pessoa de Jesus, de modo a confirmar todas as experiências de Jesus que a humanidade faz. O Ressuscitado não é propriedade de ninguém. A missão da Igreja é apontá-lo onde quer que ele esteja, a fim de que todos o reconheçam e, na liberdade, se decidam ou não a segui-lo. Ele continua vivo e atuante. No Pão, no Vinho, no Amor. E Lucas nos apresenta este Mistério, com tal maestria, que somos inseridos nele.

O Evangelista termina o terceiro evangelho com aquilo que será o início do livro de Atos dos Apóstolos. Jesus volta para o Pai. É a Ascensão. Significa que Jesus ressuscitado agora está na vida de Deus. Longe de nós? Não! Pelo contrário: mais perto ainda, pois Deus está no mais profundo de todos os seres, dando-lhes vida e liberdade. O fato de Jesus ir para Deus é, portanto, a maior garantia de que ele estará no meio de nós. No Pão, no Vinho, no Amor. E, por conseguinte, na solidariedade, na partilha, na justiça.

Para brindar este Mistério, revestindo-o de ternura materno-paterna, Jesus abençoa os seus, como gesto de esperança e vida. A reposta a esse gesto é a adoração, o reconhecimento de que a vida vem de Deus, e deve frutificar em mais vida, a ser repartida entre todos. Contemplar Jesus ressuscitado não nos fecha em nós mesmos. Ao contrário, nos abre a todos como comunicadores de sua vida e plenitude.

Caprichosamente, a sabedoria lucana vai terminar o Evangelho onde começou. Em Jerusalém e no Templo. A cidade e o santuário eram o coração do antigo povo de Deus. É daí que partirá o anúncio e a ação dos cristãos para todos os tempos e lugares, formando o novo Povo de Deus. Desta forma, Jerusalém e o Templo se tornam o ponto de chegada e o ponto de partida de toda história. Com isso, se alinha a história do antigo povo de Deus, do Primeiro Testamento, com a história de Jesus, no Segundo Testamento, e a nossa. Assim como Jesus, o Pai e o Santo Espírito se fazem Um na Comunidade Trinitária, as Comunidades de Jesus, de ontem e hoje, se fazem unas na vida e na história.

Refletir e celebrar o Mistério da Ascensão, é nos colocar em comunhão e transcendência. A partir deste dia, referenciado nos Evangelhos, Jesus se faz Um com a Comunidade Trinitária. Daí se manifesta, em definitivo, sua glória. Já não há mais lugar para a dúvida. Jesus é – de fato – o Messias. E mais, é Um com o Pai. Com isso, na unidade do Espírito Santo, a Igreja deve ser una e primar pela unidade. Claro que unidade não pressupõe uniformidade. Na diversidade de carismas, dons e culturas, devemos oferecer nossas riquezas pelo bem de todos. Na Comunidade Trinitária somos chamados a entender que não podemos cultuar o individualismo em nossa vivência do discipulado. O Pai e o Filho se fazem Um no amor, e – pelo amor – a Igreja deve ser una, promovendo unidade. E o que, de fato, pode significar unidade? É o desejo de todos em viver inspirados na Palavra e impulsionados pela Ação de Jesus, amando sempre, perdoando sempre e, nos “pegues e pagues da vida“, nos colocando sempre ao lado dos fracos, dos pobres, dos excluídos. E estas portas nos foram abertas pela literatura lucana de forma paradigmática.

Sigamos em frente, como continuadores do anúncio e testemunho da Boa-Nova de Jesus. Afinal, o cancioneiro das comunidades nos incita: “O tempo não para, chegou minha hora, eu vou para o Pai, mas eu fico por perto. Eu sou este Pão, este Vinho, este Amor. Perfaz o caminho que encontra-se aberto!” Sigamos juntos! Enquanto Comunidades de Amor, alimentadas pela Palavra, pelo Pão e pelo Vinho; vivamos a solidariedade e a partilha, buscando sempre o Reino de Deus e sua Justiça.


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