O que guardamos, o que soltamos…

“Então Iahweh Deus modelou o homem com a argila do solo,
insuflou em suas narinas um hálito de vida
e
o homem se tornou um ser vivente.” (Gn 2,7)

Nesta serra que eu subo,
Com passo firme e medido,
Já deixei no caminho o que não pude carregar,
Trago somente o que serve
Para me manter subindo,
E, desse pouco que eu tenho, ainda muito vou soltar.
(Leandro Narduzo)

Por Leandro Narduzzo

Ser capaz de soltar, de não segurar aquilo que nos faz bem, é sempre uma bênção, se entendemos a importância de dar, de oferecer os dons para o bem dos outros. Mas também é uma tarefa difícil e um trabalho que se faz ao longo de toda a vida. Para quase todos nós, muitas vezes, é algo incompreensível, sobretudo porque assumir a própria vida e ser dono dela já é uma tarefa colossal e uma conquista enorme. Pensar no bem do outro, quando apenas mal podemos com nós mesmos, parece ser uma exigência que está fora do nosso alcance. Contudo, o caminho se faz não necessariamente com certezas ou seguranças, mas com fé; isso é o que o Pai nos pede.

No livro do Gênesis, Deus insufla seu hálito de vida nas narinas do ser humano. Logo pensamos na respiração e podemos notar que, como toda atividade vital, respirar implica soltar:  soltar o ar. Não é estranho que tudo o que nos mantém com vida deva ser solto, justamente porque a vida é um processo; ao darmos um passo, deixamos o anterior atrás. Tudo o que fica quieto, carece de vida. Ninguém vai ter mais vida se tenta segurar uma inalação; muito pelo contrário, vai ter sérios problemas. Acontece a mesma coisa com o alimento, a água, os remédios no caso de necessidade… Se o corpo não expulsa o excesso, o processo da vida fica estancado. Ao seu modo, o cérebro também se comporta assim; ficar pensando em cada coisa nos deixaria perturbados e sem capacidade de apreender coisas novas: para dar as boas vindas ao novo, temos de abrir mão do velho. Acontecerá o mesmo no âmbito espiritual?…

O Senhor é bênção em nossa vida, para que nós sejamos bênção; é amor, cuidado e ternura, para que nós o sejamos na vida da comunidade! Ele mesmo é a Vida, portanto encontra-se sempre em movimento e nos dá vida na medida da nossa capacidade de receber e de dar. Se ficarmos quietos, estancados no único apelo de receber, receber e receber, então estamos matando a vida e somos artífices da nossa própria morte. Ele, Deus, é o próprio ar que nos mantém vivos e, à medida que somos capazes de não segurá-lo, de não guardá-lo só para nós, somos felizes, somos bênção, somos testemunhas, somos Boa Nova na vida do povo: sejamos, pois, Vida! Bem diz a oração de São Francisco: “É dando que se recebe…”

Colaborou: Fique Firme


Deixe um comentário

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑