Reflexão para a Solenidade de São Pedro e São Paulo
Por Pe. Hermes A. Fernandes
Ao retomarmos o Ciclo Comum no Ano Litúrgico após a Solenidade de Pentecostes, temos como oportunidade um tempo favorável para aprofundarmos nossa intimidade com Jesus. A 13ª Semana do Tempo Comum se inicia com a Solenidade de São Pedro e São Paulo. Ao bebermos da fonte do testemunho destas duas colunas da Igreja do primeiro momento, somos inspirados a ser Igreja e testemunhar Jesus com a mesma coragem e fidelidade, até às últimas consequências. Pensando em Pedro e Paulo, veio-me ao coração uma riqueza do cancioneiro de nossas comunidades eclesiais que serve de prelúdio e inspiração para nossa reflexão.
“Glória ao Espírito Santo
que nos consola no pranto.
Que orienta a Igreja para que pobre ela seja.
Que deu coragem a Pedro
e aos Santos seus companheiros.
Que hoje junta esse povo
a buscar um mundo novo.“
(Reginaldo Veloso)
A Liturgia da Palavra desta solenidade nos brinda com textos referenciais para entender o ministério dos apóstolos e o nosso caminhar enquanto seguidores e seguidoras de Jesus em nossos tempos. Como é nosso costume, vamos centralizar nossa reflexão no Evangelho. Ao redor da Palavra de Deus, vejamos o que a Liturgia da Palavra nos revela em Mt 16,13-19.
A sabedoria litúrgica nos coloca diante do paralelo do texto de Lucas, proclamado no domingo passado, Lc 9,18-24. Neste domingo, temos a perícope de Mateus, Mt 16,13-19, com suas convergências e algumas particularidades. A pergunta sobre a identidade de Jesus enquanto messias inicia os dois textos. Todavia, os desdobramentos de Lucas e Mateus se dão a partir de suas particularidades. Caso queira relembrar a riqueza do texto lucano, clique aqui e leia nossa última reflexão, quando do 12º Domingo do Tempo Comum.
Contextualizando Mt 16,13-19
No caminhar de nossas comunidades, diante de muitas realidades de morte, vivemos esperando por alguém que nos salve e liberte, tanto ao nível pessoal, quanto coletivamente. Este libertador pode ser um político, um religioso, um reformador social.
No tempo de Jesus, o povo judeu também esperava ansiosamente por um messias, um libertador. Imaginavam que ele seria um grande chefe que, pela força da violência, libertaria o povo dominado pelo Império Romano e governaria com cetro de ferro, tornando Israel a maior das nações. Em verdade, tal anseio vinha de muito antes do contexto da ocupação romana. Esta espera do rei-messias vinha dos tempos do exílio na babilônia (609-538 a.C.), perpassando os tempos da intervenção persa (538-333 a.C.), da ocupação helênica (333-165 a.C.), até o contexto dos relatos dos quatro evangelhos, ou seja, a ocupação romana (63 a.C. até o século IV d.C.). É nesta perspectiva da espera de um libertador que Jesus nasceu e iniciou seu ministério. Sua palavra e ação têm muitas consequências econômicas, políticas e sociais. Todavia, não havia nele a aparência de um grande chefe, quanto menos, sinais de que usaria da pedagogia da violência. Seria ele o esperado? Seria ele o messias prometido? E aí nos deparamos com a mesma pergunta do evangelho do domingo passado (Lc 9,18-24). Hoje, também Mateus nos coloca diante do questionamento: “Quem é Jesus?”.
A exegese bíblica nos ajuda a entender os motivos pelos quais Mateus identificava Jesus como promotor de justiça e libertação. Assim como em nosso tempo, na época de Jesus as injustiças saltavam aos olhos. Trabalhadores, doentes, mulheres, órfãos e viúvas eram os mais atingidos pelas mazelas sociais daquele tempo.
De modo geral, a situação dos trabalhadores do tempo de Jesus era precária. Devido aos impostos, a grande maioria se empobrecia, contraía dívidas pesadas, perdia suas terras, acarretando com isso a concentração da propriedade da terra nas mãos de poucos. Isso gerava um enorme contingente de mão de obra barata e desocupada nas cidades, com grande mendicância, sobretudo em Jerusalém. Esta enorme massa era marginalizada do processo de produção e vivia de esmolas.
Jesus se dirige à classe pobre, aos “Am-Ha-Ares”, o “povo da terra”, os “humildes da terra”. Sua mensagem de salvação-libertação é para os pobres, doentes, prostitutas e possessos/doentes de seu tempo. Sua pregação visa sobretudo a massa marginalizada do processo de produção e o proletariado rural e urbano espoliado e explorado em seu trabalho. Recruta seus discípulos da faixa da classe baixa que superou a situação de miséria absoluta. Cria seu projeto a partir dos trabalhadores de seu tempo. Denuncia a miséria das grandes massas como fruto da exploração dos grandes, e exige dos membros das classes dominantes que o procuram a “conversão”, a ruptura com sua classe e uma prática diferente que demonstre efetivamente a mudança de posição social (cf. Mc 10,17-27; Lc 19,1-10).
Jesus responde às esperanças, aspirações e angústias dos “Am-Ha-Ares”, o “povo da terra”, como também se dirige aos camponeses e setores da pequena burguesia urbana. Sua prática e seu discurso, no quadro da sociedade de seu tempo, adquirem um peso significativo, quando confrontados com a organização sociopolítico-econômico-religiosa da época. Confrontar-se com fariseus e saduceus, significou romper com as classes dominantes que, servindo-se da legitimação da Lei, mantinham o povo na opressão. Criar um novo projeto de sociedade, o projeto do Reino, a partir dos trabalhadores e demais empobrecidos de seu tempo, significou romper com a determinação cultural de que o pobre é ignorante, maldito por não conhecer a Lei. Escolher os apóstolos do meio da classe oprimida significou romper com o sistema de pureza que classificava os pobres como impuros. Romper com o Templo, acarretou-lhe a morte, mas ajudou a desmascarar os mecanismos legitimadores da opressão de seu tempo.
Jesus, homem do seu tempo, inserido em seu meio, assumindo os conflitos sociais da época, abre com sua palavra e ação a possibilidade de uma nova compreensão da vida e da sociedade. Sua prática lançou e continua a relançar as bases de uma sociedade “outra” que aquela alicerçada na exploração do homem pelo homem. E toda esta guinada da história foi percebida por Mateus e o evangelho de sua comunidade nos deixa como herança esta lente de compreensão da messianidade de Jesus.
Aprofundando
Vejamos o cenário da perícope de Mateus que estamos a refletir. Jesus vai com seus discípulos para Cesareia de Filipe. Uma região pagã, longe da espera nacionalista e triunfalista de seu povo (cf. Mt 16,13-16). E aí pergunta livremente aos que o seguem: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” (Mt 16,13). Os discípulos partilham com Jesus os comentários que correm. Há quem diga que Jesus é João Batista, outros Elias e ainda Jeremias, ou outro dos profetas. Estes foram profetas enviados por Deus, mas todos pertenciam ao Primeiro Testamento ou à Antiga Aliança, isto é, o tempo da espera mencionado no início de nossa reflexão.
Assim como na sinótico Lucas, em Mateus Jesus pergunta: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16,15). Tanto os discípulos, quanto nós que somos seus seguidores e seguidoras de hoje, sabemos o que Jesus disse e fez na Galileia e redondezas. Pedro, tomando a iniciativa, faz sua profissão de fé: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo!” (Mt 16,16). No Evangelho de Mateus, essa referência ao Filho do Deus vivo equivale ao nome de Jesus (Emanuel = Deus conosco). Em outras palavras, Jesus é a presença e a ação de Deus entre nós. Por isso ele é o Messias esperado (cf. Is 11,1-9) e o Filho do próprio Deus que quer liberdade e vida para todos. Em Jesus, a Aliança de Deus com os homens chega à plenitude, instaurando seu Reino de Justiça e Paz.
Ao professar sua fé em Jesus, reconhecendo sua messianidade, Pedro recebe um elogio e uma grande responsabilidade (Mt 16,17-20). A Pedro é confiada a liderança da comunidade dos seguidores e seguidoras de Jesus. Por reconhecer quem é Jesus, será confiado a Pedro a missão de plantar as sementes, das quais, nascerá a Igreja, comunidade de todos aqueles e aquelas que reconhecem na palavra e ação do mestre galileu, a gênese de uma nova humanidade, liberta e comprometida com a vida em plenitude.
Na teologia mateana, a justiça é palavra-chave para se compreender a dinâmica do Reino de Deus. É neste sentido que entendemos o versículo 19: “Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus”. Ligar ou desligar significam, neste contexto, preservar a causa da justiça. Quem é injusto ou não luta pela justiça, não pertence à comunidade dos seguidores e seguidoras de Jesus, porque a luta pela justiça é a alma dessa comunidade.
Atualizando
Para atualizar nossa reflexão a partir da vida eclesial, voltemos às fontes da Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano em Puebla (1979):
“Vemos, à luz da fé, como um escândalo e uma contradição com o ser cristão, o abismo crescente entre ricos e pobres. O luxo de alguns poucos converte-se em insulto contra a miséria das grandes massas. Isto é contrário ao plano do Criador e à honra que lhe é devida” (Puebla, 28).
Com Pedro somos chamados a reconhecer quem é Jesus. Inspirados nele, somos provocados a entender como e porque devemos ser Igreja. É na justiça, palavra-chave para entender o Evangelho de Mateus, que se insere a essência da vivência cristã. A construção do Reino de Deus e sua Justiça é a via segura de entendimento da teologia mateana (cf. Mt 6,33).
O evangelho que nos foi proclamado nesta Solenidade de São Pedro e São Paulo não nos apresenta somente o reconhecimento de Jesus como Messias e a missão que é dada a Pedro e seus companheiros. Apresenta, em verdade, os pilares da Igreja que será continuadora da palavra e ação de Jesus. Em Pedro, assim como em Paulo, celebramos hoje o nosso compromisso com a Justiça do Reino. Com a construção de um novo mundo, diferente daquele com o qual o próprio Jesus rompeu. Onde os pobres, os doentes, os vulneráveis todos; são colocados à margem, enquanto indesejáveis da sociedade formada por aqueles que têm uma ideia torta de Deus. Ideia esta que identifica o sofrimento humano como maldição ou castigo, resultado da situação de pecado. Ao contrário, Jesus apresenta a Justiça como via da misericórdia. E que se entenda justiça enquanto equidade e não como legalismo. A Igreja solidificada em Pedro, Paulo e os santos e santas – seus companheiros e companheiras – tem como missão ressignificar vidas e não condenar.
Teologicamente afirmamos que a Igreja é a continuadora da missão de Jesus. A Igreja é o Corpo de Cristo. Ela é a seguidora de Jesus e a comunidade da consciência da salvação, sinal-instrumento-sacramento desta salvação (LG, 1). Como seguidora e continuadora da missão de Jesus, deve, como seu fundador, lutar para “que todos tenham vida e tenham vida em abundância” (Jo 10,10). Este é o sentido fundamental da revelação de Deus-Pai por Jesus, não enquanto personagem abstrato, mas como o doador da vida, promessa presente na história desde a criação do homem e da mulher (Gn 1,26-28), chamados à vida e à vida como um povo (Gn 12,1-3), povo que caminha para a terra da liberdade (Ex 3,8) e que é chamado a realizar a verdadeira vida de Comunhão-Aliança com Deus e com os irmãos (Dt 8,1-10; Jr 31,31-34). Esta dinâmica salvífica de busca de vida, liberdade e comunhão perpassa toda a Escritura e aponta para a nova terra (cf. Gn 12,1-3; Ex 3,8; Is 65,17-25; Ap 21,1; 22,1-5; 2Pd 3,13). Esta dinâmica esteve sempre presente na vida de Jesus e de seus discípulos, mostrando pela sua prática de partilha e fraternidade, o verdadeiro projeto do Deus da vida. Este projeto está bem sintetizado na oração do Pai nosso (Lc 11,1-4; Mt 6,9-13): Deus é nosso Pai e ele quer ser o nosso pão, nossa vida.
Que possamos, ao celebrar estes santos que alicerçaram a Igreja, nos inspirar em sua palavra e testemunho. Pedro e Paulo deram suas vidas pelas causas do Reino. Que possamos comprometermo-nos com estas mesmas causas. Com Pedro e Paulo, sejamos anunciadores do Evangelho da Vida, até às ultimas consequências.
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