Reflexão para o 14º Domingo do Tempo Comum
“Eis-me aqui, envia-me!” (Is 6,8)
Por Pe. Hermes A. Fernandes
Ao sentar-me para preparar nossa reflexão sobre Evangelho do 14º Domingo do Tempo Comum, veio-me à mente uma palavra presente no Livro do Profeta Isaías: “Eis-me aqui, envia-me!” (cf. Is 6,8). O Profeta responde ao chamado de Javé, diante da necessidade de esperançar o povo que estava dilacerado pelo terror da violência e da morte. E muito oportunamente, é este profeta que nos prepara para leitura da Boa Nova anunciada por Lucas na liturgia que estamos a refletir. Em tempos de medo, insegurança, desterro e morte; Isaías proclama a esperança diante da Jerusalém devastada. Também nós experimentamos tempos difíceis. Violência, morte, exploração do pobre, descaso pela ética e pela justiça. Nossa realidade sangra pelas violências todas. Pelos descasos todos. Assim como o Povo de Deus foi condenado ao sofrimento sob o braço poderoso da Babilônia, também nós somos subjugados pelas políticas de morte, pelas mentiras dos poderosos, pela sede insaciável de riqueza e poder. Isaías reverbera em nós seu grito de esperança: “Alegrai-vos com Jerusalém e exultai com ela todos vós que a amais; tomai parte em seu júbilo, todos vós que choráveis por ela, para poderdes sugar e saciar-vos ao seio de sua consolação, e aleitar-vos e deliciar-vos aos úberes de sua glória. Isto diz o Senhor: ‘Eis que farei correr para ela a paz como um rio e a glória das nações como torrente transbordante.‘” (Is 66.1-12).
O profeta da primeira leitura se fez anunciador da consolação e da resistência. Jesus, assumindo as palavras deste profeta como seu programa messiânico, anuncia a Boa Nova aos pobres e demais sofredores (cf. Lc 4,16ss). Nós, Igreja continuadora de sua missão, devemos ser igualmente comprometidos com o Reino de Deus e sua Justiça (cf. Mt 6,33). Por isso, como seus discípulos e discípulas, somos chamados e enviados a anunciar esta Boa Notícia de Libertação.
Contextualizando Lc 10,1-20
A partir do capítulo 9 de Lucas, mais precisamente depois do versículo 51, Jesus inicia sua jornada para Jerusalém. Uma longa caminhada da periferia para o centro, da Galileia para Jerusalém. Esta jornada se configura como a parte mais original de seu Evangelho, que lhe consagra dez capítulos (9,51 a 19,28). Os sinóticos tratam desta jornada de forma mais sucinta. Marcos ocupa um capítulo de seu Evangelho e Mateus dois. O sentido do relato desta viagem é tratar das implicações da morte de Jesus, como consequência de seu compromisso com as causas dos pequeninos, vítimas da opressão romana e do judaísmo normativo. Esta é a viagem da libertação que tem seu ápice e significado em Lc 23,46. Para seus discípulos, foi oportunidade de uma grande catequese, quando se teve maior intimidade com a pessoa de Jesus e com sua missão. Afinal, também eles serão responsáveis pela continuidade do anúncio da Boa Nova após a Ascensão e Pentecostes. Nesta dinâmica de aprofundamento e compromisso, Jesus propõe como que um estágio missionário.
Já em Lc 9,1-6, Jesus enviou os doze apóstolos em missão. Dando-lhes oportunidade de compreender qual seria o caminho após sua partida. Agora, em Lc 10,1-20, esta oportunidade se alarga. Em número e complexidade. Além dos doze, faz-se somar um contingente que chega ao número 72. Setenta e dois é um número simbólico, mostrando que não é apenas um pequeno grupo que continua a obra de Jesus, mas todos os que o seguem, todos os cristãos e cristãs. Se atentarmos para o número, veremos que setenta e dois é um múltiplo de doze. O que se conclui que não devemos nos preocupar com o algarismo em si, mas com seu significado. O Evangelho, falando de setenta e dois discípulos, nos informa que a missão se alarga, tanto geograficamente, quando em número. Antes, Jesus concentrou sua atividade na Galileia e redondezas. Agora se dirige à Jerusalém. Antes, cercou-se daqueles que chamou em seu ministério na Galileia, os doze. Agora, amplia o número e a responsabilidade da missão que lhes foi confiada. É a comunidade missionária tomando forma e embasamento para que o Evangelho chegue a toda criatura (cf. Mt 28,19).
Aprofundando
No relato de Lc 10,1-11 temos algumas informação de grande importância, sobre as quais se justifica comentar. “O Senhor escolheu outros setenta e dois discípulos e os enviou dois a dois, na sua frente, a toda cidade e lugar onde ele próprio devia ir” (10,1). Assim como quando enviou os doze (9,1-6), em Lc 10,1 ele envia os setenta e dois em duplas, ou seja, de dois em dois. Esta informação significa que ninguém constrói o Reino, ou vive de forma missionária, sozinho. Toda ação evangelizadora é coletiva, nunca tendo a autorreferencialidade como objetivo. Na comunidade de Jesus, sempre o “nós” vem antes do “eu”.
Seguindo um pouco adiante, temos no v. 2: “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Por isso, pedi ao dono da messe que mande trabalhadores para a colheita”. A palavra messe utilizada na maioria das traduções bíblicas que temos no Brasil, é bem significativa. Trata-se de uma plantação em tempo de colheita. E, mesmo a quem conhece pouco a vida rural, não é difícil concluir que uma colheita tem seu prazo. Nunca antes demais, nunca depois. Ou se colhe de forma prematura, tendo frutos da terra inúteis; ou se perde pela demora, tendo frutos ressequidos ou podres. Portanto, o tempo da colheita é uma informação muito importante no relato lucano que estamos a refletir. Jesus informa que o tempo de Deus chegou. Que as promessas estão se realizando, tais quais foram profetizadas. E que não se pode perder tempo. O Reino de Deus urge em ser anunciado e construído a cada dia. No que se refere aos trabalhadores, Jesus exorta que peçamos ao dono da messe que envie mais operários. A referência ao Senhor da Messe, alude ao próprio Deus. Na dinâmica de construção de seu Reino, é indispensável que não se perca de vista a quem ele pertence, isto é, ao Deus da Vida. Muitas vezes somos tentados a confundir os projetos de Deus com nossos próprios projetos. O Reino de Deus tem como beneficiários os pobres e todos aqueles e aquelas que estão em situação de sofrimento (cf. Is 61,1-3 e Lc 4,18-19). Portanto, quem não está comprometido com os vulneráveis, não trabalha na messe do Senhor. Não está ao serviço dele. Certamente, está comprometido com suas satisfações pessoais, na busca de riqueza, fama e poder.
Se o Reino de Deus tem como primeiros beneficiários os sofredores, certamente opõe-se a todos aqueles e aquelas que geram sofrimento. Os exploradores dos pobres, os que promovem a marginalização e o preconceito, os que buscam incessantemente por riquezas, fama e poder. Daí se conclui que o anúncio do Reino de Deus é algo perigoso. Que tem consequências, muitas vezes, atentando contra a vida dos operários da messe. Por isso, Jesus exorta ao cuidado e previne que nada será fácil. “Eis que vos envio como cordeiros para o meio de lobos” (Lc 10,3).
A missão é perigosa e urgente. Por isso o discípulo não perde tempo nem com o necessário, nem com etiquetas de educação e nem com os que não aceitam o anúncio. “Não leveis bolsa, nem sacola, nem sandálias e não cumprimenteis ninguém pelo caminho!” (Lc 10,4). A saudação com votos de que “a Paz esteja nesta casa” significa mais do que desejo de que o outro esteja tranquilo, sem preocupações. Esta saudação refere-se ao mais íntimo conceito de Shalon, que é um desejo pleno de benção, significando que o anúncio do Reino traz a justiça e a misericórdia que levam à paz. Biblicamente, a paz significa a plenitude de todas as condições que realizam as pessoas. Desejar Shalon é comprometer-se com a dignidade plena da pessoa humana. Por isso o v. 9 exorta a se curar as doenças que naquela localidade possam estar oprimindo as pessoas. A cura aqui não pode ser entendida como algo milagreiro e exibicionista. Há que se entender que curas e exorcismos nos evangelhos significam devolver às pessoas sua dignidade. A teologia do Templo afirmava que aqueles e aquelas que estavam vitimados por algum mal físico, algumas vezes associados às ações demoníacas, significava que aquela pessoa estava em situação de pecado. Por isso, estar doente significava estar excluído da sociedade e religião daquele tempo. A exortação de Jesus para que operassem curas, significa que os missionários deveriam ser agentes de libertação do povo sofrido. Não curandeiros exibicionistas, promovendo espetáculos de fé.
Se o anúncio do Reino significava compromisso com a justiça e a misericórdia, há que se considerar a possibilidade de se encontrar quem nada queira com o projeto libertador de Jesus. Por isso, ele adverte e exorta: “Mas, quando entrardes numa cidade e não fordes bem recebidos, saindo pelas ruas, dizei: ‘Até a poeira de vossa cidade, que se apegou aos nossos pés, sacudimos contra vós'” (Lc 10,10-11). A exegese bíblica nos informa que para os povos daquele tempo, sacudir o pó dos pés era um gesto de rejeição e julgamento. Não se deve perder tempo com os que não acolhem o anúncio e a prática do Reino. No dia do julgamento Deus terá mais misericórdia para com Sodoma, a cidade pecadora, e para com as cidades pagãs (Tiro e Sidônia), do que para com as cidades que rejeitaram o Reino. Aqui temos uma ameaça grave. É preciso entender a nuance desse relato. Rejeitar os discípulos é rejeitar o próprio Jesus e seu Pai, que o enviou com o Dom da liberdade e da vida. Rejeitar o Dom de Deus é escolher a própria destruição. É autocondenar-se à escravidão e à morte, ficando fora da nova história e das novas relações sociais produzidas pelo projeto de Deus. O texto de Lc 10,10-11 é muitas vezes mal interpretado. Há quem dele use para uma teologia do medo ou da condenação. Todavia, o que temos aqui é muito mais uma lógica da consequência do que uma ideia de que Deus é um castigador implacável. Jesus nos oferece o Reino de Deus. Rejeitar a este Reino é colocar-se em situação de consequente sofrimento. Só o projeto de liberdade e vida, presente no Evangelho, é caminho seguro para uma sociedade plena em partilha, solidariedade, liberdade e vida.
Assim, entendida a missão, os setenta e dois seguem o caminho, anunciando o Reino de Deus e sua Justiça.
Ao retornar, informação que temos do v. 17 até o 20, os discípulos partilham suas experiências. Estão alegres e impressionados porque até conseguiram expulsar demônios em nome de Jesus. A expressão expulsar demônios precisa de uma especial atenção. Estar possesso de um demônio em um relato bíblico, não pode ser entendido como uma cena de filme de terror. Há pregadores que se impressionam mais com possíveis ações demoníacas do que com a ação misericordiosa de Deus e seu Filho, Jesus. O conhecimento exegético nos informa que no tempo de Jesus muitas doenças mentais eram desconhecidas das ciências médicas. O que produzia marginalização e exclusão religiosa e social. Portanto, não se deve interpretar literalmente um relato de possessão demoníaca. Além disso, a palavra diabo – do grego διάβολος – significa aquele que separa. Já demônio, do grego δαίμων, traz um sentido mais abrangente, podendo significar qualquer ação contrária a Deus e seu projeto. Expulsar demônios, portanto, significa ir contra tudo o que é contrário ao sonho de Deus para seus filhos. Assim sendo, a forma mais correta de entender “expulsar demônios” seria desalienar as pessoas, libertando-as para a consciência de si mesmas. Por isso Jesus amplia o significado de tais feitos, sublinhando que o anúncio e a prática do Reino vão, pouco a pouco, derrotando o domínio de satanás e seus projetos diabólicos. Estes projetos são muito bem delineados no relato das tentações no deserto, em Lc 4,1-13, quando a Jesus são apresentadas as seduções da abundância, da riqueza, do poder e do prestígio. O que nos pode ajudar a entender o sentido real do exorcismo nos relatos evangélicos. Trata-se de toda forma de oposição aos projetos demoníacos que alienam nosso povo da dignidade e da vida. Não necessariamente se trata de um ritual de enfrentamento espiritual, tais quais se nos apresentam a ficção dos filmes de terror. O exorcismo no Evangelho é a instauração do Reino de Deus, que traz liberdade e vida para todos, dirigindo a história e a sociedade para a paz, para a plenitude da vida. É restaurar o sonho de Deus para a humanidade desde a criação.
Isto posto, podemos prosseguir um pouco mais rumo ao encerramento do cenário do relato evangélico que estamos a refletir. Jesus aprofunda por sua catequese a verdadeira importância daquele momento de júbilo. A alegria maior do discípulo não deve ser pelo poder recebido para expulsar demônios (cf. Lc 9,1 e Lc 10,19). Eles devem se alegrar porque seus nomes estão escritos no céu, ou seja, porque são amados por Deus e fazem parte de seu Reino. Por traz desta expressão (escritos no céu), está a imagem do “livro da vida”, muito comum na Bíblia (Dn 12,1; Ap 3,5). Deus ama e dá a vida a todos aqueles e aquelas que aceitam e anunciam seu projeto.
O entendimento do sentido teológico deste texto lucano nos provoca muitos pensamentos. A Igreja continua o discipulado de Jesus ao longo dos séculos, chegando a pouco mais de dois milênios. Não são raras as vezes em que nos vimos separados do real entendimento do Evangelho e das reais implicações do anúncio para o qual somos chamados. Ao longo da história, questões emoldurais foram confundidas como essenciais. A Igreja que se construiu a partir dos primeiros discípulos, acabou se afastando deste ideal do primeiro amor, confundindo-se com ideais imperialistas. A Igreja-carisma foi sendo sufocada pela Igreja-poder. A intuição minguou-se diante da instituição.
Na história mais recente da Igreja, este desejo de se resgatar o primeiro amor se fez presente. Há pouco mais de 60 anos tivemos o Concílio Vaticano II que se preocupou herculeamente em resgatar o brilho do ardor missionário e o amor à Palavra de Deus. O tempo passou e já contamos algum tempo da alvorada conciliar. O que ainda temos do espírito do Concílio? O que sobrevive deste desejo de se resgatar os valores e sonhos das primeiras comunidades de Jesus?
Atualizando
Muitos teólogos de nosso tempo salientam a importância de se rever algumas de nossas escolhas pastorais mais recentes, ou seja, posteriores aos anos 1980. Vivemos em tempos complicados, pois a superficialidade de nossas escolhas salta-se aos olhos. Isso se conclui até mesmo por uma breve olhada nas agendas paroquiais. Veremos estampados os eventos: Cerco de Jericó, Missa do Impossível etc. Sem considerar que essas liturgias sequer estão previstas no Missal Romano, o que configura mera invencionice, raramente vemos em pauta projetos de primeira importância tais como formações e momentos de ação sócio transformadora. Fica claro que nossas comunidades eclesiais estão vivendo uma escolha pela religião da autoajuda, do prêt-à-porter, dos impulsos epicuristas – onde se nega a dor e seu enfrentamento, afirmando que o amor de Deus se traduz imediatamente em satisfação, por possíveis milagres. Criou-se uma imagem de Deus, com o qual se relaciona pelo toma-lá, dá-cá. Há muitos que pensam: “Sou católico, devoto de Nossa Senhora e do poderoso São Miguel, rezo, jejuo, me visto pudicamente, sou cidadão/cidadã de bem; portanto: mereço ser feliz, ter bens materiais, e que se afaste de mim todo mal”. Triste engano. Ser cristão não é antídoto contra o sofrimento. Não é isso que a Bíblia ensina. Nem o Magistério da Igreja. E bem vimos isso no Evangelho sobre o qual nos debruçamos em reflexão. Porém, os projetos de poder e enriquecimento pregam exatamente a primazia do contentamento e da vanglória. Essa igreja das promessas de felicidade milagrosa não vem do Evangelho de Jesus, conforme refletimos acima. Trata-se de religião-comércio. É só um bom negócio.
Ao contrário, os quatro Evangelhos nos apresentam Jesus afirmando que se ele, o Mestre, seria perseguido e morto; certamente seus seguidores e seguidoras teriam o mesmo destino. A mensagem de Jesus não é uma lista de orientações para ser feliz de forma egoísta. “Eu quero, eu posso, eu mereço!” Os Evangelhos nos exortam exatamente ao contrário: ame, perdoe, doe-se, tenha misericórdia, cuide dos vulneráveis, busque o Reino de Deus e sua Justiça. E fazendo, um pouquinho que seja disso, os projetos de morte, representando os gananciosos e prepotentes, se sentirão ameaçados. E, por isso, perseguem os verdadeiros seguidores de Jesus. Aqueles que anunciam que o Novo Tempo chegou, onde a partilha e a solidariedade construirão uma nova sociedade.
Pensando em tudo isso, faz-se imperativo que nos coloquemos sob sincera avaliação. Repensemos nossos caminhos. Nossos tempos afirmam valores vazios e até mesmo contrários ao Evangelho de Jesus. Onde a liturgia impecável tem primazia sobre sentido do que se celebra. Onde padres e religiosos consagrados são avaliados pelas roupas que vestem e não pelo compromisso que de fato têm com o Reino de Deus. Onde importa defender a fé fora da Igreja, como soldados de Cristo, mas esquece-se de cultivar essa mesma fé e suas consequências dentro dela, com relacionamentos fraternos condizentes com o conceito de uma comunidade de irmãos e irmãs. Onde se investe tempo e dinheiro nos mais variados acessórios da fé, fazendo dos espaços celebrativos verdadeiras obras faraônicas, mas ignora-se o pobre, o explorado, o excluído, o marginalizado. Ah, e se alguém se lembra destes desvalidos, colocando-os no centro do debate e da celebração litúrgica, é logo chamado de comunista.
Vivemos em tempos de uma Igreja obcecada pela estética, mas vazia de ética e de compromisso com transformação. De onde veio essa obsessão? Certamente, não foi de uma leitura atenta da Palavra de Deus. Lá está escrito: “Buscai primeiro o Reino de Deus e sua Justiça” (Mt 6,33). E a verdadeira alegria está em ter nossos nomes escritos no céu (Lc 10,20), ou seja, fazer parte da família de Jesus, com a qual se constrói um Mundo Novo.
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