Somos mensageiros da Esperança Cristã | Homilia do 14º Domingo do Tempo Comum – Ano C | Pe. Paulo Sérgio Silva

[…] e dizei ao povo: ‘O Reino de Deus está próximo de vós!” (Lc 10,9)

A nossa peregrinação catequética/celebrativa deste domingo, em continuidade da temática vocacional abordada anteriormente, nos apresenta o tema do Envio. Deus, em sua infinita sabedoria e providência, escolhe e convida pessoas para colaborar em seu plano salvífico. Mediante o convite, aqueles que o responderam positivamente passam a ser formados nos valores do Reino. Uma vez preparados e firmes na fé, os vocacionados são apresentados a missão e enviados a evangelizar o mundo. Esses vocacionados se tornam discípulos missionários que testemunham, através da vida cotidiana e das celebrações, a redenção realizada na cruz pelo Filho de Deus.

A primeira leitura (Is 66,10-14c) nos apresenta alguns versículos dos chamados “oráculos da consolação, que como o próprio nome indica, são poemas escritos para consolar e animar aqueles que buscavam reconstruir Jerusalém depois do Exílio da Babilônia. Seus versos, ao utilizarem metáforas significativas para o povo de Israel, buscam fortalecer a esperanças nas promessas messiânicas. O retorno pós-exílio foi lento, sofrido e doloroso. O povo, no entanto, ao invés de buscar a união entre aqueles que foram exilados e os que permaneceram na cidade santa, preferiu alimentar antigas e novas rivalidades e divisões. Como resultado disto, retornam também os crimes, pecados e injustiças que corroem o tecido social. A desconfiança nas promessas divinas se fortalece e o desânimo se espalha. O profeta conclama o povo escolhido a abandonar as vestes de luto que remetem ao sofrimento do Exílio e tomar consciência do júbilo que experimentam. Não estão mais em terra desértica, mas na casa materna (Jerusalém) onde serão alimentados e nutridos pela presença divina.

A segunda leitura (Gl 6,14-18), enquanto apresenta a catequese paulina a comunidade dos Gálatas, aproveita para indicar Paulo como modelo de discípulo cristão. Tendo como base a própria experiência missionária, o Apóstolo lembra que o discípulo não deve ter outra preocupação a não ser anunciar a Verdade e a Cruz de Cristo. Alguns pregadores advindos do judaísmo ensinavam que os cristãos, para evitar as perseguições do império romano, deveriam esconder sua identidade e fingir pertencer ao judaísmo através da prática da lei de Moisés. Para Paulo, mesmo em meio as perseguições, calúnias, difamações e ameaças a vida, o discípulo não deve esconder o que de fato é: um Homem Novo. A redenção como uma nova criação se tornará basilar na teologia paulina e aprofundada em muitos outros escritos (Ef 2,15-17; Ef 4, 22-24; 2Cor 5, 17; Rm 6, 3-7). Se o discípulo tem convicção de que a cruz de Cristo alcançou para todos a justiça e a santidade almejadas por Deus e que todos que receberam o Batismo foram regenerados, então deve viver como Homem Novo à imagem e semelhança de Cristo, livre do orgulho, e do egoísmo. Pois, somente revelando-se ao mundo como humanidade nova transformada pela graça de Cristo, poderá transformar a realidade marcada pelo pecado em um mundo novo de felicidade e vida em abundância.

O Evangelho de hoje (Lc 10,1-12.17-20) apresenta um relato singular do evangelista Lucas (dentre os quatro evangelhos, somente ele menciona uma missão formada por 72 discípulos) já que Mateus e Marcos narram apenas o envio dos 12 discípulos em missão (Cf. Mc 6, 7-13 e Mt 10, 5-33).

O envio é iniciado através de uma breve parábola onde Deus é apresentado como um grande proprietário de terras férteis que deve ser comunicado – através da oração vocacional – da necessidade de mais trabalhadores para realizar a colheita afim de que nenhum fruto se perca (Cf: Jo 6,37-39). Deste modo, seguindo o exemplo de oração constante de Jesus, somo convidados, aconselhado e exortados a clamar ao Pai pedindo zelosos pastores, através da oração. E Deus escuta os clamores, pois a vinda do Filho é a manifestação desta escuta divina. E o Filho escolhe discípulos conforme o seu coração (Jr 3,17). Jesus escolhe os discípulos para que através do anúncio do evangelho eles façam a humanidade ter conhecimento de que a salvação já se aproxima.

A missão dos discípulos – que é o prolongamento da própria missão de Jesus – consiste em anunciar o Reino e em se opor decididamente contra tudo aquilo que escraviza o homem, ferindo a sua dignidade – “curai os doentes que nela houver” (Lc 10,9). A missão acontece primeiramente na proclamação jubilosa de que o alvorecer da salvação se aproxima, pois “o Reino de Deus está próximo de vós!” (Lc 10,4.9). Todavia, a missão não é apenas teoria, logo, não são suficientes discursos e pregações. O Reino precisa ser comunicado também em atos – eles devem curar, ressuscitar, purificar e expulsar o mal (Mt 10,8).

Os discípulos recebem instruções sobre como realizar a missão. Jesus os convida viver à pobreza, à simplicidade, ao despojamento dos bens materiais, fugindo do desejo de poder e dominação que muitas vezes leva a buscar os próprios interesses (Lc 10,4-8). O Reino é também fraternidade, então um discípulo deve apoiar o outro – sem rivalidade ou divisão – e juntos devem se comprometer fielmente com o anúncio da mensagem de Jesus (Lc 10,1.3).

O envio e as instruções do Evangelho proclamado permanecem válidos, pois a Verdade independe do tempo. As condições para a missão e os contextos variam a cada era e a cada cultura onde o evangelho é semeado, todavia a recomendação de que da Palavra de Deus permaneça como centro da missão e que nossas atitudes sejam reflexos da pregação são e permanecem condições essenciais para que todas as atividades missionárias frutifiquem em sinais concretos do Reino de Céus.

Pe. Paulo Sergio Silva
Diocese de Crato


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