Reflexão de Pe. Oscar Beozzo para o 14º Domingo do Tempo Comum


Esta escolha de setenta e dois outros discípulos, além dos doze apóstolos, só a encontramos no evangelho de Lucas.


Qual o contexto, qual o cenário e qual o seu significado?


O contexto é muito decisivo. Jesus encerra seus quase três anos de intenso ministério por todos os recantos da Galileia, assim resumido por Mateus:


“Jesus percorria toda a Galileia ensinando nas suas sinagogas, proclamando a boa notícia do reino e curando todo tipo de enfermidade. (…) Seguia-o uma grande multidão da Galileia, Decápole, Jerusalém, Judeia e Transjordânia” (Mt 4, 23-25).


Lucas tira Jesus da Galileia e o faz tomar resolutamente o caminho para Jerusalém percorrendo a Samaria e missionando pela Judeia:


“Quando ia se cumprindo o tempo para que o levassem, enfrentou decidido a viagem para Jerusalém e enviou à frente alguns mensageiros” (Lc 9, 51).


A primeira constatação diante do grande e desconhecido campo que se abre à sua frente é de que: “A messe é muita e os operários são poucos; pedi ao dono da messe que envie operários para a sua messe” (Lc 10, 2).


Comenta Schökel: “Assim como houve uma missão dos doze na Galileia (9, 1-6), assim se narra agora a missão de setenta na Judéia. Assim, temos um segundo círculo em expansão, que pode refletir a intenção de Lucas dirigindo-se às comunidades cristãs. São setenta, como os povos de que se compõe a humanidade (segundo Gênesis 10). O verbo da missão é o mesmo usado para os apóstolos”.


Estes foram enviados às doze tribos de Israel, os setenta aos povos todos da terra, enfatizando que os discípulos deviam levar a boa notícia e o seu testemunho até os confins da terra, como ordena Jesus depois de sua ressurreição:


“Mas recebereis a força do Espírito Santo, que vira sobre vós e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, na Judeia, na Samaria e até os confins do mundo” (At 1, 8).


Mas Jesus adverte àqueles que partem dois a dois:


“Eis que vos envio como cordeiros para o meio de lobos” (10, 3).


Ontem e hoje, Jesus nos arranca de nossos medos, indecisões, acomodação, como também incansavelmente nos convocava o Papa Francisco para uma “Igreja em saída”.


Jesus não nos envia como lobos para brigar com outros lobos, mas como cordeiros com uma mensagem de escuta das dores e raivas das pessoas, de sincero bem querer, com a mensagem do mais falta neste momento de muitos conflitos, divisões e exclusões:


“Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: ‘A paz esteja nesta casa’” (10, 5).


Jesus não nos diz o que devemos levar para a missão, mas o que não devemos levar:


“Não leveis nem bolsa, nem sacola, nem sandálias…” (10, 4).


O despojamento de tudo que possa intimidar e afastar o outro, ajuda a demonstrar que o missionário é também um pobre que vai necessitar da hospitalidade de quem o acolhe:


“Permanecei naquela mesma casa (que o acolheu), comei e bebei do que tiverem porque o trabalhador é digno do seu salário” (10, 7).


“Curai os doentes e dizei ao povo: ‘O Reino de Deus está próximo de vós’” (10, 9).


Hoje, basta um aceno de acolhida e compreensão que as pessoas começam a desabafar suas dores do corpo e da alma, sua solidão, suas perdas, ingratidões que sofreu. São sinais vivos de uma sociedade que está profundamente doente pelas desigualdades, pela indiferença e hostilidade em relação aos empobrecidos, pela aposta na violência e nas guerras.


Que em nossas comunidades, de dois em dois, tomemos uma hora cada semana, para visitar as famílias, ouvir as pessoas, curá-las de sua solidão, desamparo, necessidades e ser para elas essa presença do próprio Jesus que entra saudando: “A paz esteja convosco”.


Aos discípulos que retornam contentes da missão porque curaram e expulsaram demônios e outros males, Jesus diz:


“Contudo, não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem. Antes, ficai alegres porque vossos nomes estão escritos no céu” (10, 20).


Deixe um comentário

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑