Esta escolha de setenta e dois outros discípulos, além dos doze apóstolos, só a encontramos no evangelho de Lucas.
Qual o contexto, qual o cenário e qual o seu significado?
O contexto é muito decisivo. Jesus encerra seus quase três anos de intenso ministério por todos os recantos da Galileia, assim resumido por Mateus:
“Jesus percorria toda a Galileia ensinando nas suas sinagogas, proclamando a boa notícia do reino e curando todo tipo de enfermidade. (…) Seguia-o uma grande multidão da Galileia, Decápole, Jerusalém, Judeia e Transjordânia” (Mt 4, 23-25).
Lucas tira Jesus da Galileia e o faz tomar resolutamente o caminho para Jerusalém percorrendo a Samaria e missionando pela Judeia:
“Quando ia se cumprindo o tempo para que o levassem, enfrentou decidido a viagem para Jerusalém e enviou à frente alguns mensageiros” (Lc 9, 51).
A primeira constatação diante do grande e desconhecido campo que se abre à sua frente é de que: “A messe é muita e os operários são poucos; pedi ao dono da messe que envie operários para a sua messe” (Lc 10, 2).
Comenta Schökel: “Assim como houve uma missão dos doze na Galileia (9, 1-6), assim se narra agora a missão de setenta na Judéia. Assim, temos um segundo círculo em expansão, que pode refletir a intenção de Lucas dirigindo-se às comunidades cristãs. São setenta, como os povos de que se compõe a humanidade (segundo Gênesis 10). O verbo da missão é o mesmo usado para os apóstolos”.
Estes foram enviados às doze tribos de Israel, os setenta aos povos todos da terra, enfatizando que os discípulos deviam levar a boa notícia e o seu testemunho até os confins da terra, como ordena Jesus depois de sua ressurreição:
“Mas recebereis a força do Espírito Santo, que vira sobre vós e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, na Judeia, na Samaria e até os confins do mundo” (At 1, 8).
Mas Jesus adverte àqueles que partem dois a dois:
“Eis que vos envio como cordeiros para o meio de lobos” (10, 3).
Ontem e hoje, Jesus nos arranca de nossos medos, indecisões, acomodação, como também incansavelmente nos convocava o Papa Francisco para uma “Igreja em saída”.
Jesus não nos envia como lobos para brigar com outros lobos, mas como cordeiros com uma mensagem de escuta das dores e raivas das pessoas, de sincero bem querer, com a mensagem do mais falta neste momento de muitos conflitos, divisões e exclusões:
“Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: ‘A paz esteja nesta casa’” (10, 5).
Jesus não nos diz o que devemos levar para a missão, mas o que não devemos levar:
“Não leveis nem bolsa, nem sacola, nem sandálias…” (10, 4).
O despojamento de tudo que possa intimidar e afastar o outro, ajuda a demonstrar que o missionário é também um pobre que vai necessitar da hospitalidade de quem o acolhe:
“Permanecei naquela mesma casa (que o acolheu), comei e bebei do que tiverem porque o trabalhador é digno do seu salário” (10, 7).
“Curai os doentes e dizei ao povo: ‘O Reino de Deus está próximo de vós’” (10, 9).
Hoje, basta um aceno de acolhida e compreensão que as pessoas começam a desabafar suas dores do corpo e da alma, sua solidão, suas perdas, ingratidões que sofreu. São sinais vivos de uma sociedade que está profundamente doente pelas desigualdades, pela indiferença e hostilidade em relação aos empobrecidos, pela aposta na violência e nas guerras.
Que em nossas comunidades, de dois em dois, tomemos uma hora cada semana, para visitar as famílias, ouvir as pessoas, curá-las de sua solidão, desamparo, necessidades e ser para elas essa presença do próprio Jesus que entra saudando: “A paz esteja convosco”.
Aos discípulos que retornam contentes da missão porque curaram e expulsaram demônios e outros males, Jesus diz:
“Contudo, não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem. Antes, ficai alegres porque vossos nomes estão escritos no céu” (10, 20).
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