O Amor é o Centro do Evangelho!

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Continuamos neste 15º Domingo do Tempo Comum nosso caminhar com Jesus rumo a Jerusalém. O Evangelho da Liturgia deste Domingo, Lc 10,25-37, está inserido neste contexto. A partir do capítulo 9 de Lucas, mais precisamente depois do versículo 51, Jesus inicia sua jornada para Jerusalém. Uma longa caminhada da periferia para o centro, da Galileia para Jerusalém. Esta jornada se configura como a parte mais original de seu Evangelho, que lhe consagra dez capítulos (9,51 a 19,28). Os sinóticos tratam desta jornada de forma mais sucinta. Marcos ocupa um capítulo de seu Evangelho e Mateus dois. O sentido do relato desta viagem é tratar das implicações da morte de Jesus, como consequência de seu compromisso com as causas dos pequeninos, vítimas da opressão romana e do judaísmo normativo. Esta é a viagem da libertação que tem seu ápice e significado em Lc 23,46. Para seus discípulos, foi oportunidade de uma grande catequese, quando se teve maior intimidade com a pessoa de Jesus e com sua missão. Afinal, também eles serão responsáveis pela continuidade do anúncio da Boa Nova após a Ascensão e Pentecostes.

Na Liturgia deste 15º Domingo do Tempo Comum, temos uma reflexão sobre o viver cristão, tendo o amor como centro do Evangelho.

Uma das questões mais presentes na vida humana é a busca do seu sentido. Muitos se sentem atribulados pelo desejo de compreender a existência humana e tudo ao que nela se implica. Não por respostas de sua origem somente, mas de seu significado. Com isso, entendendo o sentido e o significado, pode-se alvorecer em plenitude, chegando ao Dom de Deus que conhecemos como Vida Eterna. Sobre esta realização plena de nossa existência, há questões que sempre habitam nosso pensar. Devemos esperá-la para depois da morte, ou já podemos experimentá-la desde já? E mais do que quando se dará a plenitude da vida humana, a questão de sumo imperativo é como chegar a ela. “Mestre, que devo fazer para receber em herança a vida eterna?” (Lc 10,25). A Liturgia da Palavra deste Domingo deseja responder, com Jesus, esta pergunta.

Achega-se a Jesus um mestre da Lei (Lc 10,25). Suas intenções não eram as melhores. Não estava ali na condição de discípulo, ou mesmo tinha pretensão de sê-lo. O especialista em leis quer colocar Jesus numa condição delicada. Trata-se de uma armadilha. Sua pergunta sobre como herdar a Vida Eterna iria pôr ou não Jesus sob suspeita. Desejava saber se ele era fiel às Escrituras. Dependendo de sua resposta, poderia ser considerado herege diante dos que estavam ao redor. Além dos mandamentos do Decálogo, as dez Leis do Sinai, (cf. Ex 20,1-18; Dt 5,6-22), o judaísmo prescrevia seus desdobramentos em outras 613 leis. Dada a profusão de nuances nas prescrições do judaísmo normativo, não seria difícil encontrar alguma falha na pregação do Mestre Galileu. A pergunta do mestre da Lei era capciosa.

Jesus, Mestre de Sabedoria e de Amor, não responde. Devolve a pergunta ao especialista: “O que está escrito na Lei? Como lês?” (Lc 10,26). Ele sabe que naquele tempo se discutia muito sobre o núcleo fundamental de todos os mandamentos. O mestre da Lei responde a Jesus, unindo Deuteronômio 5,6 (amor a Deus) com Levítico 19,18 (amor ao próximo). E aqui se nota que o mesmo verbo comanda os dois mandamentos, mostrando que Deus e o próximo são duas faces de uma única moeda do amor. O amor a Deus é a mística interna que rege à práxis externa do amor. O amor a Deus exige total devotação (coração, alma, força, mente), e o amor ao próximo (como a si mesmo), demanda identificação, empatia, compaixão, misericórdia. E Jesus aprova a resposta do mestre da Lei. A mística do amor a Deus e a prática do amor ao próximo são elementos que geram vida. Neste sentido, também conduzem à Vida Eterna. A armadilha pretendida pelo especialista em Leis acaba em consenso, frustrando o desejo de confrontar Jesus. Movido por obcecada argúcia, disfere outro golpe: “E quem é o meu próximo?” (Lc 10,29).

Sabemos que o judaísmo normativo era profundamente moralista e xenófobo. Excluía as pessoas por suas origens geográficas, por alguma situação de pecado, por suas condições físicas, em caso de doença ou deficiência. Para um judeu tradicional, qualquer pessoa que não se assemelhasse a eles, ou seguisse suas convicções religiosas, era considerada impura ou perigosa, deixada à margem do convívio religioso e social. Portanto, para o judaísmo normativo o amor deve ser dedicado àqueles que são verdadeiramente merecedores, sendo considerados próximos. A isso se restringia por qualquer empecilho diante das 613 Leis, além da própria xenofobia em si. Naquele tempo, assim como no nosso, religiosos e religiosas querem pôr fronteiras no amor, sejam elas morais ou sociais. Daí, mais uma vez frustrando a armadilha do mestre da Lei, Jesus aproveita a oportunidade para oferecer uma bela catequese sobre o amor, que nos ficou como legado da comunidade lucana, a qual conhecemos como a Parábola do Bom Samaritano (cf. Lc 10,29-35).

“Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos de assaltantes. Estes arrancaram-lhe tudo, espancaram-no, e foram-se embora deixando-o quase morto.” (Lc 10,30). A Parábola de Jesus já se inicia com a informação de alguém em situação de extrema vulnerabilidade. O homem assaltado e deixado em situação de quase morte simboliza toda fragilidade humana, diante da qual, o amor de alguém a Deus é posto à prova. A estrada de Jerusalém a Jericó ainda hoje é perigosa, e tudo nos faz pensar que o homem que foi assaltado e está quase morto é um judeu. O sacerdote e o levita veem o homem ali caído e se desviam “pelo outro lado”. Certamente tinham boas teorias sobre o próximo, e não vale a desculpa de que tivessem medo de tocar um provável morto, pois estavam vindo e não indo para o Templo em Jerusalém. Nenhuma implicação de empecilho do interdito justifica a indiferença diante do sofrimento daquele homem caído às margens do caminho. E a parábola deixa clara a ideia de que se tratava de um concidadão, um judeu. A atitude do sacerdote e do levita é de indiferença e ausente empatia, pura e simples.

Diferente dos religiosos de profissão, sacerdote e levita, os clérigos do judaísmo; um samaritano – inimigo tradicional dos judeus – vê o homem caído, ferido, à beira da morte, e se enche de compaixão, ou seja sofre junto, identificando-se com o homem ferido. E começa a prática do amor. Ali mesmo faz os primeiros cuidados, coloca o ferido em seu jumentinho e, a pé, vai até uma pensão, onde continua a cuidar dele. No dia seguinte, dá duas moedas (salário de dois dias) ao dono do estabelecimento e compromete-se a pagar o que mais for gasto até o pleno restabelecimento do homem em convalescência. Esta parábola descreve tudo o que o samaritano fez de forma muito detalhada, para salientar que a prática do amor não tem limites. É a necessidade do outro que diz o que deve ser feito e até que ponto se deve amar. Além disso, o amor quebra todas as fronteiras: o samaritano não se perguntou se aquele ferido era judeu ou não. O próximo é toda pessoa que está diante de mim, ou que precise de minha misericórdia. No amor não há fronteiras geográficas ou sociais, religiosas ou de gênero.

Depois de ter contado tal parábola, Jesus pergunta ao mestre da Lei: “Na tua opinião, qual dos três foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?” (Lc 10,36). A questão se inverte. Jesus subverte a lógica do mestre da Lei. O amor nasce da mística interna do amor a Deus, que faz com que nos aproximemos do necessitado e respondamos concretamente às necessidades dele. O mestre da Lei estava preocupado com as fronteiras do amor. Jesus mostra que o amor é o centro, do qual se irradia ações práticas, cujas fronteiras nunca existem. E aqui vale sublinhar a resposta do mestre da Lei quando da pergunta de Jesus sobre quem teria sido o próximo do homem ferido: “Aquele que usou de misericórdia para com ele” (Lc 10,37). Ao usar da palavra misericórdia (revolver o coração), mostra que amar o próximo é mudar o coração tendo o outro em perspectiva, sintonizando-se com o sofredor e sentindo compaixão, ou seja, sofrendo com ele.

Desta catequese, reflexão teórica, nasce o imperativo prático. Por uma ordem solene, Jesus exorta: “Vai e faze a mesma coisa” (Lc 10,37).

O que podemos concluir do ensinamento do Evangelho na Liturgia deste 15º Domingo do Tempo Comum? O que Lc 10,25-37 nos impele concretamente na vida eclesial?

Podemos perceber que na parábola são apresentados três modos de ser e de viver: o dos assaltantes, o do sacerdote e do levita, e o do samaritano. São três concepções diferentes, que condicionam o ser e o agir das pessoas. Vejamos:

O ladrão acha que o outro é sempre fonte de benefício pessoal. Desconhece quaisquer limites em suas ações, no que toca ao respeito aos outros. Está sempre à espreita, buscando beneficiar-se daquilo que não é capaz de adquirir honestamente. São os ladrões de bens materiais e existenciais. Mentem, traem, corrompem, subjugam, conspiram. Tudo em nome do lucro. Roubam bens, consciências e dignidade.

O sacerdote e o levita vivem fechados em seus mundos, deslumbrados com sua autorreferencialidade. Para eles, bastam-lhes o prestígio e o poder que a posição religiosa lhes outorga. São deslumbrados pelas vestes e liturgias, esquecendo-se que estas não se justificam sozinhas. Para que o altar de Deus seja pleno, antes é preciso passar pelo altar dos pobres, dos sofredores, dos marginalizados e deixados à beira do caminho. Religião que não promove a dignidade, a liberdade e a vida é idolatria.

E por fim, temos o samaritano. Paradigma daquele que cumpre fielmente a vontade de Deus (as Leis), sendo merecedor da Vida Eterna. Este não só partilha seu coração. Seu amor não é conceitual. Canaliza-se a gestos concretos. Sua ideia de amor a Deus, não se aliena da ideia de amor ao próximo. A este modelo de viver a fé, Jesus nos exorta: “Vai e faze a mesma coisa” (Lc 10,37).

Em nosso viver eclesial, atualmente somos bombardeados de exortações por uma vida religiosa santa. Nada errado nisso. Todavia, estes mesmos que nos exortam, querem nos convencer de que nosso amor a Deus não necessita de uma prática condizente. Afirmam que nosso viver eclesial deve ser exclusivamente vertical. Que a missão da Igreja é salvar almas. Que não devemos nos preocupar com questões seculares, tais como justiça social, ecologia etc. Lendo o Evangelho desta Liturgia, fica-nos a pergunta: a qual igreja estes que nos exortam pertence? Certamente, não é a Igreja de Jesus. Como vimos no Evangelho que refletimos hoje, a centralidade da vida cristã está no amor. E a literatura joanina nos ensina: “Amados, amemo-nos uns aos outros, pois o amor vem de Deus. E todo aquele que ama, nasceu de Deus e conhece a Deus. Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor (1Jo 4,7-8). E ainda: “quem ama a Deus, ame também o seu irmão” (1Jo 4,21).

A tradição patrística também nos ensina sobre o verdadeiro amor a Jesus: “Se você não reconhece Jesus no mendigo à porta da igreja, também não o encontrará no cálice” (São João Crisóstomo).

O amor a Deus nos impele a amar o próximo! “Vai, e faze tu o mesmo!” (Lc 10,37).


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