Por Pe. Hermes A. Fernandes
Muito se disse sobre a oração em línguas, fenômeno presente em grupos de identidade neopentecostal, católicos ou não. Diante da necessidade de se aprofundar a catequese sobre o tema e corrigir alguns equívocos, destinamos ao leitor do Blog Eclesialidade & Missão algumas considerações.
O Dom de Pentecostes
At 2,1-11 nos introduz no contexto de Pentecostes. “Quando chegou o dia de Pentecostes, todos eles estavam reunidos no mesmo lugar” (At 2,1). O Espírito Santo como Dom de Deus em Pentecostes – originalmente, entre os israelitas – era a festa da colheita (cf. Ex 34,22). Era celebrada num clima de muita alegria e de ação de graças. Posteriormente, passou a ser a comemoração do aniversário da promulgação da Lei de Deus no monte Sinai. Lucas, ao descrever o Pentecostes cristão, reinterpreta essa festa como o momento propício não mais da concessão da Lei, mas da graça do Espírito Santo. Os símbolos do furacão e do fogo lembram a teofania no Sinai. Numa casa, em Jerusalém, estão reunidos em oração os apóstolos, “algumas mulheres, entre as quais Maria, a mãe de Jesus, e os seus irmãos” (At 1,14). O tempo da espera se completou e a promessa de Jesus se cumpre. Os judeus da diáspora acorrem a Jerusalém, “vindos de todas as nações que há debaixo do céu” (At 2,5). Estão aí para celebrar a festa, fiéis à sua tradição religiosa. Tornam-se testemunhas da efusão do Espírito Santo sobre a comunidade dos discípulos e discípulas de Jesus. O acontecimento de Pentecostes quer mostrar a continuidade com a história de Israel. O Deus que se revelou aos antepassados é o mesmo que se revela em Jesus Cristo e se dá a conhecer ao mundo inteiro. Lucas enumera ainda a presença de vários povos, do oriente e do ocidente, representantes de todas as nações. A palavra do evangelho deverá alcançar a todos. Em suas próprias línguas ouvirão o anúncio das maravilhas de Deus. Portanto, o Dom do Espírito tem, essencialmente, uma finalidade missionária. A comunidade de Jerusalém é o ponto de partida para a difusão da fé cristã; é a mãe de todas as comunidades cristãs. Por isso, vai ser caracterizada como a comunidade ideal (cf. At 4,32-35). Com base nesse modelo, em círculos sempre mais amplos, a Palavra será disseminada universalmente. O Espírito Santo é o principal protagonista da evangelização. É quem garante a unidade da fé em Jesus Cristo na diversidade de línguas e culturas. Como podemos constatar no conjunto do livro de Atos dos Apóstolos, os discípulos, após a experiência transformadora do Espírito, enchem-se de ousadia e coragem e lançam-se nesta tarefa profética de testemunhar a fé no Salvador, Jesus Cristo. Vários deles até ao martírio. É a Semente do Evangelho que cresce iluminada pela Luz do Santo Espírito e irrigada pelo sangue dos santos e santas, de ontem e hoje.
E o dom de línguas?
Nesta mesma perspectiva, considerando a catequese bíblica, vale aqui mencionar uma confusão comum em nosso tempo sobre os dons do Espírito Santo. Não são raras as vezes em que se faz menção à oração em línguas como glossolalia (em grego: γλώσσα = língua + λαλώ = falar), alegando ser o Dom de Línguas de Pentecostes. Conforme percebemos na dinâmica narrativa do Livro de Atos, o Dom de Línguas consistia em se anunciar o Evangelho num idioma nunca estudado pelo evangelizador. A comunidade dos apóstolos de Jesus era formada por pessoas simples, em sua maioria iletrada. É de se crer que estes não eram versados em idiomas falados fora da região da Galileia, de onde se originava a maior parte do grupo dos discípulos do primeiro momento. O relato de Atos 2,5-12 é muito claro em nos informar que as diversas línguas em que se ouvia o anúncio do Evangelho após o Pentecostes, eram inteligíveis, ou seja, línguas faladas pelos que ali estavam: “Esses homens que estão falando, não são todos galileus? Como é que cada um de nós os ouve em sua própria língua materna? Entre nós há partos, medos e elamitas; gente da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egito e da região da Líbia vizinha de Cirene; alguns de nós vieram de Roma, outros são judeus ou pagãos convertidos; também há cretenses e árabes. E cada um de nós em sua própria língua os ouve anunciar as maravilhas de Deus!” (At 2,7-11).
O Dom de Línguas consiste, conforme a revelação bíblica, numa criatividade da Trindade, por seu Santo Espírito, que proporcionou eficácia na evangelização. Se alguém fala em línguas estranhas que nenhum grupo humano tem como sua língua materna, não podemos crer que seja o Dom de Línguas. O que temos é um erro de interpretação bíblica. Um espetáculo de esquisitice! E nem vale dizer que se trata da língua dos anjos, pois estes – os mensageiros de Deus – ao se manifestar aos homens e mulheres dos relatos bíblicos, o fizeram na língua do destinatário da mensagem. Como exemplo, podemos verificar a anunciação à Virgem Maria. Em Lc 1,26-28 o anjo Gabriel se dirigiu à Santíssima Virgem no idioma dela. Não na “língua dos anjos”, como muitos teimam argumentar em favor da oração em línguas. Em síntese: o Dom de Línguas, biblicamente fundamentado, tem como objetivo o anúncio da Boa Nova de Jesus. É fundamentado na necessidade de unidade na diversidade e na eficácia da missão. Se não está ao serviço da comunhão fraterna e da missão, pode ser muita coisa, menos dom do Espírito Santo.
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