Para seguir Jesus é preciso “Corações ao Alto” e “Pés no Chão”!

Conversando sobre Lc 10,38-42 | 16º Domingo do Tempo Comum – Ano C

Por Pe. Hermes A. Fernnandes

Neste 16º Domingo do Tempo Comum, a Liturgia da Palavra nos impulsiona a continuarmos nossa jornada com Jesus até Jerusalém, inspirados pelo Evangelho de Lucas. A partir do capítulo 9, mais precisamente depois do versículo 51, Jesus inicia sua jornada para Jerusalém. Uma longa caminhada da periferia para o centro, da Galileia para Jerusalém. Esta jornada se configura como a parte mais original de seu Evangelho, que lhe consagra dez capítulos (9,51 a 19,28). Os sinóticos tratam desta jornada de forma mais sucinta. Marcos ocupa um capítulo de seu Evangelho e Mateus dois. O sentido do relato desta viagem é tratar das implicações da morte de Jesus, como consequência de seu compromisso com as causas dos pequeninos, vítimas da opressão romana e do judaísmo normativo. Esta é a viagem da libertação que tem seu ápice e significado em Lc 23,46. Para seus discípulos, foi oportunidade de uma grande catequese, quando se teve maior intimidade com a pessoa de Jesus e com sua missão. Afinal, também eles serão responsáveis pela continuidade do anúncio da Boa Nova após a Ascensão e Pentecostes.

No caminho para Jerusalém, além das instruções acerca das condições do seguimento (cf. 9,51-10,42), da oração (cf. 11,1-13) e das características do verdadeiro discípulo – para que os discípulos compreendam as implicações da mensagem de Jesus na práxis cotidiana –, é narrada a parábola que nos foi apresentada na liturgia do domingo passado, universalizada com o título de “o Bom Samaritano” (cf. 10,25-37). Nessa parábola, a vivência do seguimento de Jesus é a execução da vocação do ser humano expressa na totalidade das Escrituras, vocação que, em resumo, implica a tarefa de amar efetivamente a Deus e ao outro que nos interpela no caminho para a vida eterna.

Agora, na liturgia deste 16º Domingo do Tempo Comum, temos diante de nós um texto emblemático e desafiante em Lucas (Lc 10,38-42). Um encontro discipular entre Marta, Maria e Jesus. Quantas não foram as ideias defendidas, fundamentadas nesta perícope lucana, postulando qual seria o modelo ideal de discipulado,? E quantos equívocos também nos proporcionou este texto? Quem foi Marta e Maria? Qual implicação este episódio narrado por Lucas pode ter em nossas vidas?

Antes de entrarmos no texto do Evangelho da Liturgia em si, gostaria de chamar a atenção para alguns detalhes no relato. Jesus está em casa, onde duas mulheres são mencionadas. Ninguém mais é citado. Nenhum outro homem. Bem sabemos que o judaísmo normativo proibia terminantemente que qualquer mulher estivesse sozinha com algum homem, sem a supervisão de seu göel, seu protetor. Lázaro, irmão de Marta e Maria, não é citado neste relato. Propositalmente? Claro que sim!

Jesus rompe com muitos dos preceitos do judaísmo normativo. Alguns destes, colocavam as mulheres em condição de injusta submissão. Uma das pedagogias inclusivas de Jesus que chamam a atenção no Evangelho é a prática da acolhida às mulheres. Todos os Evangelhos mostram a acolhida de Jesus às mulheres, mas sobressai entre eles o Evangelho de Lucas: é o único que conta a história de Isabel (Lc 1,5-25), Maria (Lc 1,26-56), Ana (Lc 2,36-38), da viúva de Naim (Lc 7,11-17), de Maria Madalena, Joana, Susana e das outras mulheres que seguiam Jesus (Lc 8,1-3), de Marta e Maria (10,38-42), da mulher encurvada (Lc 13,10-17), da mulher que procura a moeda perdida (Lc 15,8-10), da viúva insistente (Lc 18,1-8) e das mulheres de Jerusalém que choram atrás da cruz (Lc 23,27-31). Além dessas mulheres, Lucas partilha com os sinóticos outras cenas de acolhida, como é o caso da sogra de Simão (Lc 5,38-39; Mt 8,14-15; Mc 1,29-31), a hemorroíssa e a filha de Jairo (Lc 8,40-56; Mt 9,18-26; Mc 5,21-43), a viúva que dá tudo quanto tinha para o tesouro do templo (Lc 21,1-4; Mc 12,41-44), as mulheres da Galileia que descobrem o túmulo vazio (Lc 24,1-8; Mt 28,1-8; Mc 16,1-8). É interessante que o aparecimento de uma mulher acaba sempre por trazer elementos positivos aos relatos evangélicos, e isso faz que o encontro com as mulheres pontue o caminho de Jesus.

No relato de Lc 10,38-42, Marta e Maria são colocadas na condição de discípulas de Jesus, quando o texto diz: “Sua irmã, chamada Maria, sentou-se aos pés do Senhor, e escutava a sua palavra” (v. 39) Uma mulher na condição de discípula seria algo improvável – até condenável – dentro do judaísmo rabínico.

Caminhemos um pouco mais em nossa reflexão!

É em outro Evangelho que podemos conhecer melhor os personagens da perícope de Lc 10,38-42. A partir de Jo 11,1-44 sabemos que Jesus era amigo de Marta e Maria, que elas moravam em Betânia, e que tinham temperamentos diferentes. Lc 10,38 nos informa que Jesus chega a um povoado (Betânia) e que Marta o recebera em sua casa. Em seguida (v. 39), Lucas nos informa que também Maria ali estava e, sentada aos pés de Jesus, ouvia sua palavra, enquanto Marta “estava ocupada com muitos afazeres” (v. 40a). Certamente, Marta estava preocupada em preparar uma boa refeição, enquanto Maria se preocupava em ouvir Jesus. E, diante da atribulação dos afazeres, reclama: “Senhor, não te importas que minha irmã me deixe sozinha, com todo o serviço? Manda que ela me venha ajudar!” (v. 40b). Jesus responde: “Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas. Porém, uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada” (Lc 10,41-42). A resposta à reclamação de Marta mostra que mais importante do que simplesmente fazer as coisas, é preciso que as façamos de forma nova, inserindo tudo no projeto de Jesus. Na condição de discípulo e discípula dele, tudo se transforma em novidade, na perspectiva do Reino de Deus. É preciso ter este Reino em foco em todo pensar e agir. Neste sentido deve caminhar toda reflexão sobre esta perícope lucana.

Muito se cogitou a respeito do que significa este relato de Lucas. O texto não diz o que Jesus estava falando a Maria, mas – colocando este episódio logo após a conversa de Jesus com o mestre da Lei (Lc 10,25-37) – há que se concluir que ambos os ensinamentos estão conectados. No domingo passado, vimos que Jesus coloca o amor no centro do Evangelho. Este amor, direcionado a Deus, deve ser canalizado ao próximo em forma de solidariedade e partilha. Hoje, Lucas nos acrescenta mais uma informação em 10,38-42:  o amor deve nos colocar na condição de servidores e servidoras, em estado de diaconia. E outra informação também nos é oferecida: o serviço sem amor se torna atribulado, gerando aridez no coração. O grande imperativo nas duas passagens do Evangelho de Lucas é o mesmo. Lc 10,25-37 e Lc 10,38-42 nos apontam o amor como resposta ao caminho de seguimento de Jesus. Na solidariedade, na partilha e no serviço. O amor nos une a Deus, de forma mística, nos impelindo a amar ao próximo, enquanto comprometimento concreto com aqueles e aquelas que estão ao nosso redor. É o amor que revela o sentido da vida, fazendo-nos realizar com gosto e alegria aquilo que deve ser feito. Quem tem coração transbordante de amor, não se deixa afetar pelas atribulações que este amor infere em nossas vidas. Todo amor verdadeiro gera sacrifício, mas nem todo sacrifício gera amor. É o amor que dá aquele tempero especial à vida, fazendo de nosso agir um constante celebrar da vida. O contrário disso, será viver de forma amarga, emburrada como Marta. Ou mesmo ser ressentido da virtude, como podemos ver em outro momento do evangelho lucano, quando da Parábola do Filho Pródigo (cf. Lc 15,11-32). O irmão dedicado ao pai sentiu amargura de sua fidelidade, ao ver que seu irmão perdulário foi perdoado – mesmo depois de tudo o que fez. O que nos faz concluir que sua responsabilidade para com o pai não estava mergulhada no amor. Se estivesse, além de não se ressentir com o pai misericordioso, também se alegraria com o irmão que voltava para casa. Quem experimenta o amor, rompe barreiras humanas, vencendo a mesquinhez, o rancor, a arrogância; abrindo-se à partilha, à solidariedade e à misericórdia. O amor nos coloca na verdadeira condição de seguidor e seguidora de Jesus.

Tendo conversado um pouco sobre Lc 10,38-42, somos impelidos a questionar o que a mensagem deste texto do evangelho lucano pode implicar em nossas vidas. Como posto acima, muitas foram suas vertentes hermenêuticas. Há quem afirme ser uma dialética entre a contemplação e a ação. Entre o Tabor e o Calvário. Entre o vértice e o horizonte. Maria é vista como paradigma de contemplação e Marta de ação. Não penso ser esta hermenêutica equivocada. Todavia, preciso dizer que é um tanto minimalista e tendenciosa. Todo discipulado aponta para o Mestre, Jesus de Nazaré. Ele mesmo viveu de forma a equilibrar a oração e a ação, gerando proficuidade em seu ministério messiânico. Nos relatos dos evangelhos somos sempre informados de que Jesus, vez por outra, retirava-se para rezar. Todavia, os evangelhos também nos informam que Jesus esteve em refeição fraterna com seus discípulos e discípulas, em uma festa de casamento, caminhando pelas estradas. A vida Jesus não foi marcada de contemplação ou ação de forma exclusiva. Jesus vivia em plenitude sua condição humana e divina, unindo o vértice ao horizonte. Em nossas vidas, enquanto seguidores dele, precisamos manter tal equilíbrio. Sem espiritualidade alienada, nem militância árida. E o Evangelho da liturgia do 16º Domingo do Tempo Comum nos apresenta pistas para buscar este equilíbrio entre contemplação e ação. O amor, enquanto centro do Evangelho, é o tempero da vida cristã.

Com amor tudo faz sentido e encontra seu lugar de importância na vida. O amor nos proporciona intimidade com Deus (contemplação) e constrói relações profundas enquanto comunidade de irmãos e irmãs, seguidores e seguidoras de Jesus, nos impelindo a ser testemunho de solidariedade e partilha (ação). Para seguir Jesus é preciso “corações ao alto” e “pés no chão”!


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