O Pai e o Pão, o Amor e o Perdão

Reflexão sobre Lc 11,1-13, para o 17º Domingo do Tempo Comum


Por Pe Hermes A. Fernandes

Na Liturgia dos Domingos do Tempo Comum, no esquema C do Ano Litúrgico, estamos caminhando com Jesus e seus discípulos até Jerusalém. Itinerário bem traçado enquanto geografia e teologia pelo Evangelho de Lucas. Nos domingos anteriores, vimos que o amor é o centro do Evangelho e que para bem viver os desafios que ele nos impele é preciso volver nossos “corações ao alto” e manter nossos “pés no chão”. Amar a Deus com todas as nossas forças (Dt 5,6) e ao próximo como a nós mesmos (Lv 19,18). Dialogar o vértice e o horizonte. Além disso, na Casa de Betânia, aprendemos que precisamos amar com gratuidade, brilho nos olhos e entusiasmo. Sem amargor ou ressentimento pelos sacrifícios que o seguimento de Jesus nos infere. Para tanto, precisamos escolher a melhor parte, ou seja, a Jesus como razão de nossas vidas, sem aforismos maniqueístas ou ressentimentos pessimistas. Sem alienação ou aridez. Trabalhar pelo Reino, enquanto discípulos e discípulas de Jesus, com olhos abertos às realidades e corações inflamados pelo fogo transformador e ressignificador de nossas vidas, o Evangelho do Cristo.

Neste 17º Domingo do Tempo Comum, Lucas nos convida a conciliar a espiritualidade com a vida. Mais uma vez, o vértice e o horizonte de nossa fé estão em perspectiva. Voltemos nosso olhar e coração para Lucas 11,1-13, uma catequese sobre a oração.

É seguro dizer que Jesus não inova quando se dispõe a ensinar seus discípulos a orar. Naquele tempo, os mestres ensinavam os discípulos a rezar e, na oração que transmitiam, entregavam uma síntese e o espírito de seus ensinamentos. Historicamente falando, grande parte dos seguidores e seguidoras de Jesus compreendiam-no como um rabino, um mestre. Tanto o é que veremos algumas vezes  alguém se dirigir a ele como Rabi, ou Raboni, que significa meu mestre. Nesta dinâmica de magistério, havia todo um programa a ser ensinado. Os evangelhos nos apresentam esta dinâmica pedagógica em sua sequência narrativa. No caso de Lucas, é bom lembrar que ele se dirige aos pagãos convertidos. Portanto, o evangelho lucano tem suas particularidades. Apresentando na sequência narrativa: curas e exorcismos, ensinamentos, gestos e até quando apresenta a mística de Jesus, em comunhão orante com seu Pai; imprime a identidade de sua comunidade. Tal particularidade carrega o mesmo esquema programático messiânico apresentado por ele em Lc 4,14-21. Toda palavra e ação de Jesus, no Evangelho de Lucas, revelam-no como o Messias dos Pobres e Sofredores.

Neste sentido, a oração ensinada por Jesus, enquanto Mestre do Amor, não poderia ser diferente.

O texto da Liturgia de hoje pode ser dividido em três partes: a oração cristã (Lc 11,1-4), a perseverança na oração (Lc 11,5-8) e a oração da confiança (Lc 11,9-13). Neste itinerário de oração e ação, de corações ao alto e pés no chão, vamos caminhar hoje com a comunidade lucana.

A oração do “Pai Nosso”, modelo orante apresentado por Jesus, não é exclusividade de Lucas. Se compararmos o texto lucano com o de Mateus 6,9-13, perceberemos que a catequese orante de Lucas é bem mais curta. Estudiosos da Bíblia nos ensinam por suas exegeses que o texto de Lucas contém mais fidelidade às próprias palavras de Jesus (ipsa verba Iesu). A versão de Mateus é mais ampliada, provavelmente devido ao uso na liturgia. Também a ocasião em que a comunidade lucana organizou seus escritos, parece estar mais próxima, de forma mais coesa, com a história. O texto de Mateus está no contexto do discurso inaugural do ministério de Jesus, isto é, o Sermão da Montanha. Lucas insere o ensinamento sobre a oração dentro do contexto de aprofundamento de sua catequese junto aos discípulos e discípulas que se comprometeram de forma mais efetiva com Jesus. Caminhar com Jesus até Jerusalém, é estar – de alguma forma – realmente comprometido com o discipulado. Não se trata de um primeiro contato, de alguém que era espectador do pregador galileu; como nos sugere o contexto de Mateus, no Sermão da Montanha, dos capítulos de 5 a 7.

No relato lucano, somos informados de que um discípulo pede a Jesus que o ensine a rezar, “como também João ensinou a seus discípulos” (11,1). Esta nuance do relato lucano nos sugere não só a época (tempo de aprofundamento da opção por Jesus), como também deixa clara a revelação de que a oração cristã é original, distinguindo-se da oração judaica e da oração dos discípulos de João Batista. O modelo de oração de Jesus reflete todo seu ensinamento e testemunho, suas palavras e ações. A vida de oração na comunidade deve refletir o caminho de seguimento dele. Portanto, não pode estar alienada da realidade, nem mesmo ter algum aspecto espetaculoso. A espiritualidade e liturgia cristãs devem ser reflexo da vida da Igreja. Para tanto, o itinerário orante apresentado por Jesus nos ajuda a manter fé e vida conectadas e sincrônicas. Vejamos!

Já nas primeiras palavras da oração que Jesus nos ensinou, encontramos o endereço, o destinatário da prece. No aramaico, a forma com que Jesus se dirige ao Pai, Abbá, sugere um diminutivo carinhoso: “Paizinho“. Não temos (אֲדֹנָי)  “Adonay”, (אֱלהִים) “Elohim” ou (אל שדי) “El Shaddai”. Estas eram fórmulas litúrgicas em hebraico de se dirigir à Iahweh. Jesus substitui a fórmula reverencial pela intimidade familiar. Isso é de grande originalidade! Os judeus concebiam Deus como Pai de todo o povo, mas não ousavam dirigir-se pessoalmente a ele com tanta intimidade. Jesus não só se identifica como Filho deste Paizinho, como nos convida a adentrar neste mesmo ambiente de intimidade que existe na Trindade do Amor. Ele, o Filho Amado, nos introduz em situação de fraternidade com ele e nos faz participar de sua própria filiação. Somos transcendidos, ressignificados da condição de criaturas à de filhos e filhas do Altíssimo. E, por isso, seja ele louvado para sempre!

Após introduzir seus discípulos, e com eles, toda a humanidade na condição filial, a oração do Pai Nosso apresenta cinco pedidos. Mais do que súplicas, estes pedidos são a plenificação de nossa condição de seguidores e seguidoras de Jesus e, com isso, nossa aproximação da comunidade de amor, o Reino de Deus.

“Pai, santificado seja o teu nome” (11,2). Na Bíblia, o nome equivale à pessoa. Esse pedido é, portanto, um desejo pleno: que toda a humanidade reconheça a santidade do Deus verdadeiro, deixando os ídolos que produzem a escravidão e a morte, para adorar o Deus Santo, que traz a liberdade e a vida. E aqui vale perguntar: o que é a santidade de Deus? É a manifestação da sua glória, através dos atos que ele realiza no mundo e na história. O cerne dessa santidade gloriosa é a instauração da justiça, que transforma as relações humanas, trazendo o Reino de Deus. A Glória de Deus não significa triunfalismos teofânicos, meramente. Quanto mais vemos Deus de forma triunfalista em nossas teologias e liturgias, mais longe estamos dele.

“Venha o teu Reino” (11,2b). O Reino é o centro e o fim de todo o projeto de Deus. Consiste no reconhecimento da vontade dele, que quer liberdade e vida para todos, e – para isso – instaura relações de fraternidade e partilha entre as pessoas, de modo que todos tenham igual acesso aos bens da vida e igual participação na construção da sociedade e dos rumos da história. E este Reino não está só no futuro. Ele se concretiza pouco a pouco, à medida que as pessoas vivem a fraternidade e a partilha, repartindo a liberdade e a vida. O anseio pelo Reino mostra a meta da vida e da ação da comunidade, porque o Reino deve chegar para todos, até que Deus seja tudo em todos (cf. 1Cor 15,28). O Reino de Deus já está no meio de nós, porque Deus se fez Emanuel (מָּנוּאֵל), Deus conosco.

“Dá-nos a cada dia o pão de que precisamos” (11,3). Não se trata aqui de pedir alimento físico somente. Esta comensalidade presente no modelo de oração de Jesus, abrange todo o sentido da vida humana, pleiteando a vida eterna. É o “Pão do Banquete Celeste” (cf. Mt 8,11; Lc 6,21). Os cristãos não pedem a satisfação dos bens materiais. Querem mais do que isso! Querem participar do Banquete do Reino, abraçando as riquezas que não passam, isto é, as dádivas deste Reino. O pão que se pede ao Paizinho do Céu é justiça, paz e alegria, que só se fazem possíveis com fraternidade e partilha, através da solidariedade e da misericórdia. Com isso, os pedidos da oração proposta por Jesus casam-se perfeitamente com os ensinamentos anteriores da Parábola do Bom Samaritano (Lc 10,25-37) e até mesmo com o relato do encontro de Jesus com Maria e Marta (cf. Lc 10,38-42). Como posto anteriormente, a oração de Jesus está ligada intimamente com sua catequese, com suas palavras e ações.

“Perdoa-nos os nossos pecados, pois nós também perdoamos a todos os nossos devedores” (11,4). Aqui a comunidade cristã toma a dianteira e, antes de pedir perdão a Deus, apresenta como crédito o fato de antes perdoar os outros. Pode parecer uma condicional capciosa, mas não é. Ao contrário, o texto do Evangelho é mais uma exortação à coerência do que colocar Deus sob chantagem. Se Deus deve nos perdoar na proporção de que nós mesmos perdoamos aqueles que nos magoam e prejudicam, fica clara a proposição positiva da equivalência. A misericórdia de Deus deve ser equivalente à nossa própria misericórdia para com quem lidamos no dia a dia. Nossas relações fraternas devem ser reflexos de nossa relação com Deus. Aqui não se trata de condicional, mas de coerência. Se cada um de nós é carente da misericórdia divina, clamando cotidianamente por seu perdão face às nossas fraquezas, também nós temos que ter misericórdia para com as fraquezas de nossos irmãos e irmãs de caminhada.

Por fim, “não nos deixeis cair em tentação” (11,4b). Esta segunda parte do v. 4 não trata das pequenas falhas, pecados veniais. Refere-se à grande tentação de abandonar o projeto de Jesus em troca dos projetos de Satanás, ou seja: abundância, riqueza, poder e prestígio (cf. Lc 4,1-13). Seria a traição final a Jesus! Pode parecer dramático esse pensamento, mas esta realidade está mais próxima de nós do que imaginamos. Em nossas comunidades eclesiais, vez por outra somos tomados pelo desânimo. A construção do Reino de Deus é um trabalho árduo. Se não bastassem os desafios próprios dos imperativos do Evangelho, somos bombardeados a todo instante pelos projetos do Anti-Reino. Jesus nos pede fraternidade, partilha, solidariedade e justiça para termos liberdade e vida, e somos sempre confrontados por projetos de ambição, egoísmo, opressão, mentira e morte. Este confronto pode ter sérias consequências, ameaçando nossas vidas. Por isso, muitas vezes, alguns de nossos irmãos e irmãs desanimam, abandonando as causas do Reino. Ou, até mesmo, passam para o outro lado; cedendo às tentações do prestígio, fama, riqueza e poder. A estas realidades clamamos ao Pai: não nos deixeis cair em tentação!

Terminada a exposição do modelo de oração, Jesus apresenta exortações catequéticas de cunho aperfeiçoador do discipulado. Agora posto o modelo de oração, cabe ter perseverança no orar (11,5-8) e rezar com total confiança (11,9-13). Nossa prece deve refletir nosso agir. Coragem e confiança devem ser os calçados com os quais seguimos nossa caminhada rumo ao Reino de Deus. Certamente, nossa oração deve refletir este caminhar.

Que este 17º domingo do Tempo Comum possa infundir em nós um desejo constante de intimidade com Deus. Não de forma alienada, vivendo espiritualidades angélicas, anacrônicas. Em sintonia com os ensinamentos anteriores do Evangelho de Lucas, precisamos manter nossos corações em íntima relação com Deus e nossos pés firmes no chão. Fé e vida, mística e compromisso com a realidade! Precisamos viver como Igreja orante, missionária e samaritana; construindo o Reino de Deus, na expectativa do Reino Definitivo.


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