Reflexão para o 18º Domingo do Tempo Comum
Por Pe. Hermes A. Fernandes
Continuamos nossa caminhada com Jesus para Jerusalém. O Evangelho de Lucas se faz norte neste caminho. Com os discípulos do Mestre Galileu, aprofundamos nossa catequese para, com eles, nos tornarmos discípulos e discípulas conscientes e comprometidos com o Projeto de Jesus, o Reino de Deus.
Na Liturgia deste 18º Domingo do Tempo Comum, nos é apresentado o texto de Lucas 12,13-21. Nesta secção do Evangelho lucano, Jesus nos exorta ao cuidado com o apego às riquezas. Ilustra sua catequese com uma parábola de invectiva sensibilidade. A essência deste texto é uma advertência de que a riqueza não é sinal de segurança. Como nos adverte o Salmo 46/45: “Nossa fortaleza é o Deus de Jacó”.
Jesus caminhava com seus discípulos para Jerusalém. Entre a multidão que ouvia suas catequeses, um problema se faz digno de atenção. Um dos presentes interpela a Jesus: “Mestre, dize ao meu irmão que reparta a herança comigo” (12,13). Não é difícil entender a delicadeza da questão apresentada a Jesus. Como bem sabemos, a partilha de herança é sempre um problema, pois se faz oportunidade para a ganância e a ambição. Ainda hoje famílias são divididas, inimizades nascem, conspirações, mentiras e até mesmo violência, quando se tem na mesa de discussão o tema da herança. Algumas vezes, nem a dor do luto é respeitada, pois – à beira do féretro – em vez de lágrimas, vemos ávidos olhares de ganância pelo espólio do falecido. A ganância mata o amor e o luto. Destrói nossa humanidade.
A reação de Jesus pode nos surpreender hoje, assim como o fez com os espectadores do episódio: “Homem, quem me encarregou de julgar ou de dividir vossos bens?” (v. 14). No versículo 15 ele se faz entender: “Atenção! Tomai cuidado contra todo tipo de ganância, porque, mesmo que alguém tenha muitas coisas, a vida de um homem não consiste na abundância de bens”. Para melhor elucidar sua exortação, conta uma parábola. No cenário temos um homem rico, uma super-colheita e a ambição de a tudo aproveitar, sem nada perder. Não pensa em partilhar o excedente de seus lucros com os necessitados, decide por construir celeiros maiores, para acumular melhor seus bens, protegendo seu lucro. Esse rico imaginava estar assim acumulando garantias para sua vida futura. Não é o sonho de muita gente? Todavia, o revés acontece. Ora, diz Jesus, de repente Deus pede de volta sua vida. O rico é apresentado ao inevitável, a morte (12,20). Aqui vale sublinhar que nossa maior riqueza, a vida, não nos pertence. Não é nossa propriedade, e sim de nosso Pai do Céu, que nos concede como um empréstimo. De que adianta os bens acumulados? Os bens não garantem a vida, pois ela é dom de Deus, e ele pode reclamá-la de volta a qualquer momento. Após a Páscoa Definitiva, para quem ficam as coisas acumuladas? Daí se infere o cerne deste ensinamento de Jesus. Primeiramente, cada um de nós deve ter diante de si a partilha e a solidariedade como perspectiva. O acúmulo, desde os primeiros capítulos de Lucas, nos é apresentado como uma tentação diabólica (cf. Lc 4,1-13). Neste sentido, tudo o que nos sobra não mais nos pertence, mas deve ser destinado a todos aqueles que nada têm (cf. Lc 11,41 e 12,33). Em segundo lugar, mesmo que a riqueza seja resultado de herança, irá gerar problemas, como o que aconteceu com o interlocutor de Jesus, no início de nossa perícope evangélica que estamos a refletir (12,13).
Lucas 12,13-21 é muito apropriado aos nossos dias. Vivemos em tempos, nos quais a ganância tem ferido corações e cerceado vidas. Haja visto o que acontece com os povos em guerra. Ucrânia e Rússia, Israel e Palestina. Aqui vale lembrar que a palavra guerra não se aplica de forma assertiva. Os motivos e os métodos adotados margeiam ao genocídio. Ademais, as motivações são as mesmas dos grandes opressores da história da humanidade. A Rússia acredita que a Ucrânia não é composta de pessoas humanas e sim de propriedade. Ou se sujeitam à tirania russa, ou serão exterminados. Israel tem exterminado os palestinos com suas armas e pela fome. Sob a falsa alegação de lutar contra uma facção terrorista, assassinam os palestinos – chegando ao extremo de condená-los à fome, e por ela, à morte. Em nosso contexto, o Brasil, o presidente americano acredita que pode nos sujeitar aos seus desmandos, cerceando nossa liberdade. Por que estes líderes declaram guerra aos seus querelantes? Ganância, a mais vil das ambições!
Nossas comunidades precisam prestar a devida atenção ao texto lucano que a Liturgia da Palavra nos oferece. Assim como famílias se destroem por disputas de herança, povos inteiros estão sob ameaça de extermínio por ambição e ganância. Em nome do capital, Direitos Humanos são ameaçados, vidas perigam à inexistência. Que possamos aprender com Jesus que as riquezas devem estar ao serviço da vida e que nossas comunidades precisam pautar suas relações pela partilha e solidariedade. O Reino de Deus é isto: Justiça, Paz e Alegria. E ele só se fará realidade quando vivermos eclesialmente de forma missionária e samaritana, escolhendo sempre os fracos, defendendo seus direitos, promovendo a liberdade e a vida. Como nos ensinou Santo Agostinho: amar sem medida, escolhendo os pobres como destinatários primeiros de nossa afeição e cuidado, entendendo que eles estão na centralidade do Evangelho. A única herança que interessa ao cristão e à cristã é o amor doado e recebido.
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