Esperançar e Vigiar na Fé, construindo o Reino de Deus!

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Na Liturgia deste 19º Domingo do Tempo Comum, somos conduzidos pelo Evangelho de Lucas, no qual Jesus exorta seus discípulos – e de forma extensiva também a nós, Igreja Peregrina da Esperança – a nos prepararmos para a instauração de seu Reino. As advertências do Messias não podem ser entendidas como uma teologia do medo. Ao contrário, é um esperançar, denunciando as realidades daquele tempo e do nosso, que nos distraem do que é realmente essencial, ou seja, a construção de um mundo mais fraterno e justo. Para tanto, devemos manter nossos corações ancorados no verdadeiro tesouro: o Reino de Deus. Sigamos nossa reflexão para esta liturgia tendo em perspectiva o que é verdadeiramente fundamental à condição de seguidores e seguidoras de Jesus, pois ele mesmo nos adverte: “onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração” (Lc 12,34).

Para nossa reflexão, convido ao leitor considerar como escolha a versão mais longa do Evangelho sugerido na liturgia: Lc 12,32-48.

Na liturgia do domingo passado, o Evangelho (Lc 12,13-21) nos advertiu do erro em se buscar segurança nas riquezas deste mundo. Neste domingo, o Evangelho nos exorta a buscar segurança nos valores eternos, o Reino de Deus. Se a ganância pelas riquezas produz injustiças, o Reino de Deus se constrói justamente pela promoção da justiça, através da solidariedade e da partilha. A escolha pelo projeto de Jesus nos proporciona exatamente a chave de mudança por um mundo melhor. Em vista disso, os discípulos e discípulas de Jesus, de ontem e de hoje, devem começar a viver em solidariedade e partilha (12,33). Não se deve acumular tesouros que podem ser roubados, mas buscar riquezas perenes, que proporcionem liberdade e vida para todos e todas.

Ao longo do texto lucano, o discurso de Jesus segue orientando seus discípulos e discípulas, para que a comunidade se mantenha em contínua vigilância, fiel à sua palavra e ação. Caberá aos que caminham com ele a continuidade da missão de anunciar o Reino após sua ascensão. Ele retornará, mas este dia é desconhecido. Portanto, a comunidade deve manter viva a memória de suas palavras e perseverar em viver segundo as ações que o mestre ensinou. Feliz será a comunidade dos discípulos e discípulas do divino mestre (12,37a), se ele a encontrar fielmente cumprindo sua missão de servir. Então ele mesmo a servirá, realizando o Reino da Justiça, pela qual a comunidade tanto lutou (12, 37b).

Podemos dizer que a segunda parte da secção do evangelho lucano para este domingo (12,40-48) traga mais exortações sobre a vigilância. Porém, tem destinatários específicos. As palavras de Jesus dirigem-se especificamente aos que se colocam na condição de liderança. É certo que o texto originalmente se dirigia às autoridades religiosas do judaísmo, ou seja, os fariseus, saduceus e doutores da Lei. Todavia, as primeiras comunidades tomaram estas exortações para si, compreendendo-as como advertências para sua própria vida eclesial. Jesus pode surpreender a comunidade, chegando como um ladrão inesperado, e por isso ela deve estar sempre atenta e preparada (12,39-40). A intervenção de Pedro (12,41) tem como objetivo dirigir especial exortação aos líderes das comunidades cristãs de ontem e de hoje, no sentido de desautorizar qualquer tipo de autoritarismo. O texto deixa bem marcado que a função das lideranças é servir e que este serviço começa pelas necessidades básicas, alimentando os que necessitam. Aqui vale uma citação do texto, à guisa de se sublinhar sua importância: “quem é o administrador fiel e prudente que o senhor vai colocar à frente do pessoal de sua casa para dar comida a todos na hora certa?” (12,42). Nesta secção Jesus ressalta a necessidade de que as lideranças tenham especial atenção às necessidades da comunidade, promovendo seu bem-estar, partilhando os bens da vida entre todos. Numa palavra, servir à justiça que provoca relações de fraternidade e partilha. Caso isso seja realizado, as lideranças poderão – de fato – administrar “todos os bens” (12,44), ou seja, os valores que levam a comunidade à plena realização, enquanto protagonista do projeto de Jesus.

Algo bem marcante no texto que estamos a refletir é o confronto dos opostos, dos paradoxos. Se nos versículos anteriores nos é apresentada uma pedagogia propositivo-afirmativa (12,42-44), nos versículos seguintes encontramos o antônimo, quando Jesus adverte aos que não entendem a real missão da liderança. Ele adverte a partir do v. 45 que os líderes podem perverter sua função, transformando a autoridade-serviço, em poder-dominação. O resultado é a opressão e a exploração da comunidade, porque neste caso as lideranças caíram nas tentações diabólicas do acúmulo, da ganância, do poder e da fama ou prestígio (cf. Lc 4,1-13). Estas tentações diabólicas promovem o reino da injustiça. Estes equívocos são mais graves quando acontecem com aqueles que conhecem a vontade de Jesus. A ignorância pode ter desculpa, mas não haverá desculpas para aqueles que sabiam o que fazer e como deviam agir, entretanto não o fizeram, ou fizeram exatamente o contrário. Estes líderes perverteram o exercício da liderança em instrumento de opressão. E quantos não são aqueles e aquelas que fizeram da religião um instrumento de obtenção de lucro, fama ou poder? Afirmam-se religiosos, mas são lobos vorazes em pele de cordeiro. Instrumentos de perdição.

Que a liturgia deste 19º Domingo do Tempo Comum seja oportunidade para que possamos entender qual é nosso real lugar na Igreja de Jesus. Lc 12,32-48 nos adverte a manter olhos e ouvidos abertos ao real sentido do projeto de Jesus. Que sejamos comunidade de seguidores e seguidoras dele, primando pelos valores do Reino, promovendo justiça, pela solidariedade e partilha. Só assim estaremos guardando tesouros no céu e onde estiver nosso tesouro, ali estará nosso coração (cf. Lc 12,34).


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