Com Maria, proclamamos a Misericórdia e a Libertação que vem do Senhor! | Lucas 1,39-56

O seu nome é santo, e sua misericórdia se estende, de geração em geração,
a todos os que o respeitam.
” (Lc 1,50)

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Estamos na 20ª Semana do Tempo Comum (Ano C), que se inicia com a Solenidade da Assunção da Bem-aventurada Virgem Maria. A liturgia nos apresenta o texto do Evangelho de Lucas 1,39-56. Como cenário deste Evangelho, temos a visita de Maria à prima, Isabel. Na centralidade desta perícope, destaca-se o Magnificat, o Cântico da Virgem Maria.

Duas mulheres pobres. Duas vidas marcadas pelo sonho de Deus que se realiza em suas histórias. Isabel, já idosa, fica grávida daquele que seria o último grande personagem do Primeiro Testamento. Seu filho, João, será aquele em quem se encerra o tempo da promessa. Maria de Nazaré, uma aldeã prometida em casamento a um trabalhador comum, de nome José, fica grávida pela ação do Espírito Santo. Ambos, José e Maria, viviam em uma região vista como terra de gente indigna, ralé impura e pecadora. No Evangelho de João, Natanael – futuro discípulo de Jesus – nos informa que Nazaré era vista com preconceito. Ao ouvir falar do Messias galileu, questiona em tom de pilhéria: “pode vir algo bom de Nazaré?” (Jo 1, 46). E Jesus, filho da aldeã Maria de Nazaré, será a realização da promessa, a Nova Aliança, o inaugurar do Novo Tempo, a Boa Nova da Libertação.

Duas mulheres. Ambas marcadas pelo preconceito e pela marginalização. Uma por sua esterilidade. Isabel, já contada em idade, não tivera filhos. Outra por sua origem. Maria sofria, com todo o povo galileu, as dores da aporofobia, da xenofobia, do racismo social. A estas duas mulheres Deus sonhou se manifestar, ressignificando suas vidas e, com elas, a vida de toda a humanidade. Os pobres, marginalizados, os excluídos todos; reconhecem a ação de Deus. O anúncio da nova história alegra os pobres, porque eles necessitam da ação de Deus para encontrar a justiça que os liberta para a vida a que tanto aspiram. Logo se tornam solidários e reconhecem, dentro da sua entrega, ação do próprio Deus, que realiza a justiça, invertendo as situações que levam a tanto sofrimento. Aquelas duas mulheres grávidas abrigam em seus ventres toda a história do Povo de Deus. A promessa de Deus para seu povo, confirmada na pessoa de João – o precursor, e sua plena realização, em Jesus. Nos ventres destas mulheres estão a esperança e a alegria do povo, fazendo que louvem a Deus, reconhecendo sua misericórdia e fidelidade à aliança feita para todo o sempre.

Feita uma breve contextualização, à guisa de introdução, convido o leitor a transcorrer comigo os 160 km do caminho montanhoso até a região da Judeia, acompanhando Maria em visita solidária e fraterna à prima Isabel, certamente para ajudar a prima que está em uma gravidez avançada. Temos então o encontro de duas mães e, dentro dele, o encontro de dois meninos, que se reconhecem. Ainda no útero, João recebe o Espírito Santo (cf. Lc 1,15), e já começa a missão de apontar o Messias esperado (cf. Jo 1,26; 1,36). Movida pelo Espírito, Isabel profetiza, reconhecendo o segredo que acontece no corpo e na vida de Maria: ela é a mãe do Messias, o Senhor. Por isso ressalta sua alegria e louvor pela grande fé de Maria, chamando-a da mais abençoada das mulheres. Aqui podemos fazer um paralelo com 2Sm 6,2-11, texto que se interliga intimamente com Lc 1,56. Maria ficou com Isabel por três meses, ou seja, até o nascimento de João. O mesmo tempo que a Arca da Aliança ficou na casa de Obed-Edom, o que se pode gratamente concluir que Maria é a Arca da Nova Aliança. O Primeiro e o Segundo Testamentos se encontram em Isabel e Maria, em João e Jesus.

Conforme anunciado no início de nossa reflexão, celebrando a Assunção da Bem-aventurada Virgem Maria, vale sublinhar na perícope evangélica indicada para esta liturgia o Cântico de Maria, eternizado em nossos corações como o Magnificat. Nele podemos perceber muitas lembranças do Primeiro Testamento, seguindo de perto o Cântico de Ana (cf. 1Sm 2,1-10). Lucas certamente usou aqui um salmo dos “pobres de Javé”, o resto do povo fiel que permaneceu humildemente aberto a Deus (cf. Sf 2,3; 3,22-13).

No Marnificat, Maria dá voz a todos os pobres que esperam a salvação, reconhecendo e se alegrando com a grandeza de Deus (cf. Lc 1,46-47; Hab 3,8). Por que? Por ter o Senhor visto a humilhação do seu povo pobre, e veio libertá-lo aos olhos de todos (cf. Lc 1,48; 1Sm 1,11). Com efeito, a maior glória e testemunho da santidade e da misericórdia de Deus é ele se aliar e assumir a situação dos pobres, a fim de libertá-los, dando eficácia à luta deles (cf. Lc 1,49-50; Dt 10,21; Sl 103,17). De que modo Deus realiza isso? Através da força da justiça, que inverte as situações sociais para criar um novo relacionamento entre as pessoas e os grupos humanos: os pobres e fracos são libertos daqueles que orgulhosamente os exploram e oprimem (cf. Lc 1,53; 1Sm 2,7-8; Sl 107.9). Essa é a forma de Deus agir, e também será a forma do agir de Jesus, porque a verdadeira justiça é defender o pobre e o fraco contra as pessoas e as estruturas que os exploram e oprimem. É nisso que se reconhecem a misericórdia e a fidelidade de Deus para com seu povo que o teme e serve, lembrando-se da Aliança que fizera com Abraão, o pai do Povo de Deus (cf. Lc 1,54-55; Gn 17,7). Em Jesus se concentra a aliança de amor entre Deus e seu povo, levando-o à plenitude da vida.

Nesta relação entre Isabel e Maria, João Batista e Jesus está a passagem do Primeiro, para o Segundo Testamento. Da Antiga, para a Nova Aliança. O cântico de Maria está entre o tempo da espera (Primeiro Testamento) e o tempo da realização (Segundo Testamento), testemunhando a alegria dos pobres que esperam e confiam na ação de Deus. Contudo, Deus também espera que os pobres aprendam com ele, e se disponham a se tornar seus instrumentos para que ele realize a história da justiça que liberta. Como dizia Tagore[1]: “A história da humanidade espera, com paciência, o triunfo do homem humilhado.” O Cântico de Maria revela, na simplicidade das palavras de uma mulher pobre, a certeza do amor de Deus que transforma a tudo e a todos.

O trecho do Evangelho de Lucas indicado para a liturgia da Solenidade da Assunção de Nossa Senhora, nos fala da vida e testemunho de duas pobres mulheres que se tornaram os ventres a acolher a promessa de libertação e a realização de um novo tempo, de liberdade e vida, na pessoa de Jesus. Não poderia haver perícope mais apropriada para celebrarmos Maria assunta ao Céu! O site Vatican News [2] nos informa que a Solenidade da Assunção da Bem-aventurada Virgem Maria é celebrada no dia 15 de agosto, desde o século V, com o significado de “Nascimento para o Céu” ou, segundo a tradição bizantina, de “Dormição“. Em Roma, esta festa era celebrada desde meados do século VII, mas foi preciso esperar até 1° de novembro de 1950, quando Pio XII proclamou o Dogma da Assunção de Maria, elevada ao céu em corpo e alma. No Credo Apostólico, professamos a nossa fé na “ressurreição da carne” e na “vida eterna”, fim e sentido último do caminho da vida terrena. Esta promessa de fé cumpriu-se em Maria, sinal de “consolo e esperança”. Trata-se de um privilégio de Maria, por ser intimamente ligado ao fato de ser Mãe de Jesus: visto que a morte e a corrupção do corpo humano são consequências do pecado, não era oportuno que a Virgem Maria – isenta de pecado – fosse implicada nesta lei humana. Daí o mistério da sua “Dormição” ou “Assunção ao céu”. O fato de Maria ter sido elevada ao céu é motivo de júbilo, alegria e esperança para nós: “Já e ainda não”. A saber: uma criatura de Deus, Maria, já está no Céu e, com ela e como ela, também nós, criaturas de Deus, estaremos um dia. Portanto, o destino de Maria, unida ao corpo transfigurado e glorioso de Jesus, será o mesmo destino de todos os que estão unidos ao Senhor Jesus, na fé e no amor. A Assunção ou Dormição de Maria significa nosso destino, em Jesus: a Vida Eterna!

Celebrar a Mãezinha do Céu, no céu, é celebrar nossa própria pertença à família de Jesus. Com ele e nele, somos todos ressignificados em nossas vidas. Mais do que refletir sobre Lc 1,39-56, somos chamados a cantar com Maria nossa alegria na esperança da libertação. Vivemos em tempos, nos quais, o Cântico do Magnificat se faz nosso próprio canto. Quando lembramo-nos confiantes das promessas de Javé a se realizar na pessoa de Jesus. Assim como o povo vivia sob forte dor causada pelos desmandos da opressão do Império Romano, também nós vivemos nossas dores. Somos ameaçados por poderes que desejam cercear nossas liberdades, negando-nos o direito de buscar justiça por nossas causas, nas quais, se faz imperativo. Há quem queira nos impor o silêncio diante das injustiças que sofremos recentemente, deslegitimando nosso judiciário, tarifando nossa autonomia, impondo-nos a condição colonial, há muito superada. Com Maria clamamos por libertação e antecipamos nosso louvor pela vitória diante dos opróbrios. Somamos nossas vozes à voz da Imaculada, Mãe de Jesus, bradando: “derrube os poderosos de seus tronos e eleve os humildes” (cf. Lc 1,53).

Nota

[1] Rabindranath Tagore (em bengali: রবীন্দ্রনাথ ঠাকুর; 7 de maio de 1861 – 7 de agosto de 1941), alcunha Gurudev, foi um polímata bengali. Como poeta, romancista, músico e dramaturgo, reformulou a literatura e a música bengali no final do século XIX e início do século XX. Como autor de Gitânjali, que em português se chamou “Oferenda Lírica” e seus “versos profundamente sensíveis, frescos e belos”, sendo o primeiro não-europeu a conquistar, em 1913, o Nobel de Literatura. Tagore foi talvez a figura literária mais importante da literatura bengali. Foi um destacado representante da cultura hindu, cuja influência e popularidade internacional talvez só poderia ser comparada com a de Gandhi, a quem Tagore chamou ‘Mahatma’ devido a sua profunda admiração por ele. Um brâmane pirali de Calcutá, Tagore já escrevia poemas aos oito anos. Com a idade de dezesseis anos, publicou sua primeira poesia substancial sob o pseudônimo Bhanushingho (“Sun Lion”) e escreveu seus primeiros contos e dramas em 1877. Tagore condenava a Índia britânica e apoiou sua independência. Seus esforços resistiram em seu vasto conjunto de regras e na instituição que ele fundou, Universidade Visva-Bharati. Tagore modernizou a arte bengali desprezando as rígidas formas clássicas. Seus romances, histórias, canções, danças dramáticas e ensaios falavam sobre temas políticos e pessoais. Gitanjali (Ofertas de Música), Gora (Enfrentamento Justo) e Ghare-Baire (A Casa e o Mundo) são suas mais conhecidas obras. Seus versos, contos e romances foram aclamados por seu lirismo, coloquialismo, naturalismo e contemplação. Tagore era talvez o único literato que escreveu hinos dos dois países: Bangladesh e Índia: Hino nacional de Bangladesh e Jana Gana Mana.

[2] Com informações de Vatican News {https://www.vaticannews.va/pt/feriados-liturgicos/assuncao-de-nossa-senhora.html}, acesso em 11/08/2025; 10h50.


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