Entrevista concedida por Frei Jacir de Freitas Faria ao Jornal O TEMPO, publicada em 12 de agosto de 2025, sobre o lançamento da Bíblia Apócrifa (2º Testamento), pela Editora Vozes

Em “Bíblia Apócrifa: Segundo Testamento”, doutor em teologia bíblica reúne textos que remontam às origens do judaísmo e do cristianismo perdidos
Por Vitor Fórneas
São aqueles excluídos da Bíblia. A Bíblia Apócrifa é composta por cinco evangelhos sobre o nascimento e a infância de Jesus, seis sobre Maria, um de São José, o Carpinteiro, cinco da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, seis gnósticos (antiga doutrina religiosa que considerava que o conhecimento era a chave para a salvação) – entre eles, o de Maria Madalena –, oito histórias de Pilatos, 14 Atos dos Apóstolos, 18 cartas e quatro Apocalipses. Esses textos oferecem uma catequese dos primeiros cristãos e influenciaram muito, por exemplo, a literatura na Idade Média.
O que o motivou a fazer as traduções dos livros apócrifos?
Tenho doutorado em literatura apócrifa e há mais de 20 anos venho publicando sobre essa literatura. Nos últimos dez anos, ao traduzir esses textos – evangelhos, cartas, atos e epístolas –, vi a possibilidade de oferecer ao público brasileiro uma edição que reunisse todos esses escritos em um único volume. O título do livro se justifica, pois, “bíblia” vem do grego “biblos”, ou seja, “biblioteca”.
Como a obra é dividida?
Na primeira parte do livro eu explico por que alguns textos são considerados inspirados e outros, não, e os motivos pelos quais eles foram ou não incluídos na Bíblia tradicional. Depois, começamos a tradução, que foi feita por blocos. Quis proporcionar mais clareza na compreensão desses textos. Fizemos a tradução de 67 livros e comentários sobre outros 38. Comecei com os evangelhos da infância de Jesus e com oito evangelhos que contam a história de Maria. Há ainda o evangelho de José, que aborda a paixão, morte e ressurreição de Jesus, e os evangelhos gnósticos, como os de Maria Madalena, Tomé e Filipe.
O que fez com que tais livros não fossem incluídos na Bíblia?
Na Igreja, ao longo dos séculos, houve uma tentativa – iniciada pelos judeus –, já entre os anos 95 e 105 d.C, de definir quais seriam os livros considerados inspirados. Para os cristãos, esse processo começou por volta do ano 150, houve nova tentativa no ano 200 e outra em 393, buscando estabelecer quais livros a Igreja deveria aceitar como inspirados. Esse processo teve outros desdobramentos ao longo do tempo. Os critérios foram sendo estabelecidos gradualmente: um livro precisava ter uma tradição ligada a um apóstolo ou a uma comunidade cristã reconhecida; além disso, precisava ser lido em várias comunidades. Após muitas discussões, os livros foram sendo delimitados. No entanto, se algum não estivesse de acordo com a identidade cristã, não era incluído. Um exemplo seria um texto que negasse a ressurreição de Jesus. O evangelho de Filipe, por exemplo, afirma: “Se vocês pensam que Jesus morreu e ressuscitou, vocês estão completamente enganados. Primeiro ele ressuscitou, depois morreu”.
Qual o conteúdo dos evangelhos apócrifos?
O evangelho da infância do Menino Jesus o apresenta com características gnósticas. Esses textos mostram Jesus indo à escola e sabendo muito mais do que os professores. Ou seja, ele já é dotado de conhecimento desde a infância. Nos evangelhos canônicos, ou oficiais, Jesus começa sua atuação apenas aos 30 anos. Os textos também falam sobre Maria. É válido destacar que a tradição mariana é muito mais influenciada pelos textos apócrifos do que pelos canônicos. As traduções mencionam a coroação de Nossa Senhora, sua morte e assunção – temas que não estão presentes nos textos oficiais. Há ainda os textos de oposição. Um exemplo é o evangelho de Maria Madalena, que apresenta uma visão diferente da que se tornou hegemônica. Nessa obra, Maria Madalena é retratada como uma mulher com proeminência, uma líder que transmite os ensinamentos de Jesus. Ela afirma, por exemplo, que o pecado não existe – somos nós que nos tornamos pecadores quando nos desviamos do caminho –, entre outras ideias.
O que mais o Evangelho de Maria Madalena transmite?
É um texto do ano 150, descoberto por um camponês. Ele não possui as primeiras páginas, pois, segundo a tradução, o rapaz chegou em casa, brigou com a esposa, e ela jogou um pedaço do papiro no fogo. Ele representa o pensamento da corrente gnóstica, que afirma que viemos da plenitude e para lá retornaremos. O texto começa assim: “O que é a matéria? Ela durará para sempre?” O mestre responde: “Tudo o que nasceu, tudo o que foi criado e todos os elementos da natureza estão estreitamente ligados e unidos entre si. Tudo retornará às suas raízes”. O evangelho afirma ainda que não há pecado por si só, mas que somos nós que o fazemos existir com nossas condutas.
E sobre a relação entre Jesus e Maria Madalena?
Um trecho do evangelho traz um diálogo entre Maria Madalena e Pedro. Ele diz: “Irmã, nós sabemos que o Salvador te amou diferentemente das outras mulheres e que foste muito amada por ele. Diz-nos as palavras que ele te disse, das quais tu te lembras e nós não tivemos conhecimento e não ouvimos”. Veja que interessante: esse evangelho, assim como o de Filipe, afirma que Maria Madalena era a amada de Cristo, a mulher mais próxima de Jesus. O evangelho de Filipe, inclusive, afirma que Jesus a amava e a beijava frequentemente na boca. O beijo, nesse contexto, tem o significado simbólico de transmitir saber e conhecimento. É um texto muito interessante, que revela esse lado mais humano de Jesus.
Como resumiria os valores dos apócrifos?
Eles resgatam as faces dos cristãos perdidos ou excluídos e possibilitam o conhecimento de correntes e pensamentos que foram condenados ao esquecimento, mas que revelam traços importantes de Jesus. Esses textos também expõem a luta desenfreada pelo poder nos primórdios do cristianismo, especialmente entre suas lideranças. Além disso, oferecem elementos da catequese dos primeiros cristãos que chegaram até nós, ajudando a responder questões que antes permaneciam sem esclarecimento.
O senhor teme represálias pelo livro?
Sempre enfrentei oposição. Mas a grande novidade agora é que uma editora católica está publicando essa tradução. Os conservadores, muitas vezes, não gostam disso. Mas não podemos deixar de oferecer ao grande público a possibilidade de ter contato com esses textos e de resgatar essa literatura que ficou escondida. Precisamos aprender a dialogar com esses escritos e ouvir as vozes que foram abafadas. Eles têm exageros? Têm. Mas os textos canônicos também têm, como, por exemplo, quando dizem que Jesus andou sobre o mar. Nos apócrifos, encontramos também uma dimensão da fé.
Colaborou: O Tempo
Segue link para a aquisição da Bíblia Apócrifa:
https://www.livrariavozes.com.br/bibliaapocrifa8532669158/p
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Frei Jacir de Freitas Faria: Doutor em Teologia Bíblica pela FAJE (BH). Mestre em Ciências Bíblicas (Exegese) pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Professor de Exegese Bíblica. Presidente da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB). Sacerdote Franciscano. Autor de doze livros e coautor de dezesseis. Publicou recentemente Bíblia Apócrifa: Segundo Testamento (Vozes, 2025). São 784 páginas com a tradução de 67 apócrifos do Novo Testamento sobre a infância de Jesus, Maria, José, Pilatos, apocalipses, cartas, atos etc.
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