Conselheiro, irmão e pai, mas nunca juiz ou carrasco!

Ensaio sobre as grandes intolerâncias de nossos tempos

Por Pe. Zezinho, SCJ

Acabei de ler uma diatribe de um sacerdote comum que, de rosto irado e cuspindo fogo, atacou um padre a quem admiro! Sei discordar de um padre, sem colocá-lo no inferno! Aliás, não tenho esse direito! A nova tendência de alguns pregadores é reinstalar os séculos XII e XIII no século XXI. Voltamos à era da intolerância!

Voltou a tendência de julgar os outros e de se proclamar eleitos por Jesus para restaurar a cristandade! Mudança para o passado; nunca mudança para o futuro!

Tais pregadores severíssimos usam e abusam de Pentecostes e dos dons do Espírito Santo; mas quase sempre sem nenhuma Cristologia e sem nenhuma Eclesiologia. Por isso, também sem misericórdia! Literalmente vivem com pedras na sacola!

Ora, eu admiro muitos padres e bispos cujo jeito de evangelizar é diferente do meu, e nem por isso advogo que sejam expulsos da nossa Igreja. Isto de expulsão é caso raro porque a Igreja prefere dar chances. Como disse o Papa Francisco “o nome de Deus é misericórdia”.

No século XII, um poderoso pregador de cruzadas, criou mosteiros por toda a Europa, e milhares de jovens o seguiram por seu estilo de Sim, Sim! Não, Não!

Um século depois, século XIII houve um santo diácono, frade, pregador de misericórdia e amigo de pobres e mendigos que conseguiu ser santo sem xingar os outros.

O pregador de misericórdia era São Francisco de Assis e o pregador do pau-pau-pedra- pedra era São Bernardo de Claraval. Ambos são considerados santos católicos. Como assim? É que eram outros tempos!

O tempo era de enfrentamentos contra os muçulmanos que tinham invadido a Europa e a época era totalmente belicosa, de reconquista da cristandade e dos lugares santos. Não dava para ser bonzinho! Mas Francisco de Assis teimou na ternura e na fraternidade universal. Inclusive, com a natureza. Foi contra a época e inaugurou outra!

Mas um episódio até hoje difícil de explicar foi a humilhação feita por um monge culto, contra outro religioso que, ainda sem votos e também ele culto, chamado Pedro Abelardo. A abadessa Heloísa e o Religioso Pedro, ainda sem votos, trocaram juras por escrito. Mas foi amor platônico. Porém a fofoca se alastrou e isto bastou para ele ser humilhado na sua virilidade. A família viu pecado naquelas cartas e Pedro foi castrado. Contudo, ele era inocente e também Heloísa. Pedro Abelardo (1079-1142), ou simplesmente Abelardo, como lhe chamamos com frequência, foi um dos maiores pensadores, dialéticos e teólogos do século XII.

Dois séculos mostraram dois comportamentos sócio-religiosos: não ceder em nada ou ceder onde possível!

Os três tiveram milhares de discípulos jovens. Havia quem seguisse Bernardo, quem seguisse Francisco e quem seguisse Pedro.

Quem estudou o século XIII e depois os séculos XV e XVI e os gigantescos embates religiosos daqueles dias, sabe o resultado da pregação radical e raivosa e da pregação serena e dialogante. Acabaram em violência!

No século XII o teólogo conservador irredutível venceu o filósofo questionador. E no século XIII o reformador sereno foi até destituído da ordem que ele mesmo criara.

Tudo fruto de “é assim e tem que ser assim”! Mas quem está durando 9 séculos é a proposta do frade sereno e aberto ao diálogo. Com a ternura de Francisco nasceu outro tipo de vida religiosa e de fé católica. Com Francisco, venceu a solidariedade e triunfou a pobreza evangélica: Francisco incluiu! Restaurou o conceito de Cat Holos (inclusão). O Concilio Vaticano II de 60 anos atrás fez o mesmo!

Infelizmente, o século XXI está ressuscitando o tempo das cruzadas, o tempo das reconquistas de almas para Jesus, mas, sem pedagogia e sem psicologia também está se revelando o tempo das grandes exclusões. Voltou a mentalidade do Gueto. Se você não é dos nossos, você não é do Cristo; você é um câncer na Igreja… Estas afirmações estão nas redes sociais todos os dias.

Voltou o proselitismo desregrado, sem nenhum diálogo, sem nenhuma fraternidade e sem nenhum respeito por quem pensa e age diferente.

Jesus conversou, dialogou, deixou falar, converteu, propôs conversão… e sem apedrejamentos. Os fariseus daquele tempo perguntavam que tipo de pregador era o tal Jesus que ousava ir contra a intocável Lei Judaica.

Os novos fariseus “pau/pau -pedra/pedra” e os novos bonzinhos “tudo é válido” de hoje, de microfone e celular em punho, nas TVs e na Internet, tendem a não perdoar ninguém que não seja do seu cercado espiritual!

E arranjam nomes humilhantes para arrasar com os do outro lado, tipo Câncer da Igreja, alienados, sem fé, sem caridade e assim por diante. Não hesitam em caluniar quem pensa diferente!

O triste é que haja padres e leigos pregadores que gritam contra os outros e, de rosto afogueado, pedem punição uns contra os do outro lado mas nunca contra os do próprio lado. Ora, caluniar e acusar sem provas também pode levar ao tribunal do mundo e ao tribunal da fé.

Se cremos de verdade em Jesus, o texto de Mt 7,1-6 ainda funciona: “Com a mesma medida com que medirdes também sereis julgados”.

Sair por aí julgando os outros é perigoso. Por isso temos o púlpito, a eucaristia, o confessionário e a direção espiritual! E quem não foi constituído juiz ou advogado pela Igreja, não se aposse de microfones ou câmeras. É fácil estar do lado dos apedrejadores. O difícil é fazer como Jesus que condenava o pecado, mas dava chance de conversão ao pecador….

Há pregadores esquecendo isto na nossa Igreja… A misericórdia está desaparecendo de muitos púlpitos e confessionários!


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