No Banquete do Reino tem lugar especial os últimos, os excluídos e marginalizados! | Refletindo Lc 13,22-30

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Continuamos neste 21º Domingo do Tempo Comum nosso caminhar com Jesus rumo a Jerusalém. O Evangelho da Liturgia deste Domingo, Lc 13,22-30, está inserido neste contexto. A partir do capítulo 9 de Lucas, mais precisamente depois do versículo 51, Jesus inicia sua jornada para Jerusalém. Uma longa caminhada da periferia para o centro, da Galileia para Jerusalém. Esta jornada se configura como a parte mais original de seu Evangelho, que lhe consagra dez capítulos (9,51 a 19,28). Os sinóticos tratam desta jornada de forma mais sucinta. Marcos ocupa um capítulo de seu Evangelho e Mateus dois. O sentido do relato desta viagem é tratar das implicações da morte de Jesus, como consequência de seu compromisso com as causas dos pequeninos, vítimas da opressão romana e do judaísmo normativo. Esta é a viagem da libertação que tem seu ápice e significado em Lc 23,46. Para seus discípulos, foi oportunidade de uma grande catequese, quando se teve maior intimidade com a pessoa de Jesus e com sua missão. Afinal, também eles serão responsáveis pela continuidade do anúncio da Boa Nova após a Ascensão e Pentecostes.

Na perícope lunaca que a liturgia nos apresenta, somos informados desde o início da ação missionária de Jesus. Ele “atravessava cidades e povoados, ensinando e prosseguindo o caminho para Jerusalém” (13,22). Na oportunidade destes ensinamentos, surge a questão de quem poderia se salvar, e como esta salvação se torna possível. Perguntaram-no:  “Senhor, é verdade que são poucos os que se salvam?” (13,23). O que leva uma pessoa a participar da grande promessa? Do Reino de Deus e da Vida Eterna? Seriam aqueles que conhecem e praticam as regras religiosas? São aqueles que vivem rezando e participando das mais solenes e piedosas liturgias? Jesus não responde diretamente, apresentando uma fórmula mágica para a salvação. Em verdade, deixando que cada um tenha seu discernimento, aconselha a fazer todo o esforço possível para entrar pela porta estreita (cf. Lc 13,24). Que porta é essa? Conforme o que se diz logo em seguida, é a porta da conversão para a prática da justiça e da fraternidade, promovendo vida digna a todos, pela solidariedade e pela partilha. “Afastai-vos de mim todos vós que praticais a injustiça!”  (13,27). O Reino de Deus é o Banquete da Vida. Para que se possa participar dele, é preciso que se esteja comprometido com a equidade necessária que propicia relações, pelas quais, todos e todas estejam dignamente contemplados pelo sonho de Deus para a Casa Comum.

A condição de discipulado transcende a questão religiosa. Ou, pelos menos, a religião como acreditavam os líderes do judaísmo do tempo de Jesus e algumas lideranças religiosas de nosso tempo. Aquele e aquela que opta por seguir Jesus, precisa desprender-se de um movimento meramente vertical da fé. É também na horizontalidade que se dá a vivência do Evangelho. Amar a Deus, amando radicalmente aos irmãos e às irmãs ao redor (cf. Ex 20,1-18; Dt 5,6-22; Lc 10,25-37). O caminho para o Reino de Deus, portanto, depende da prática da justiça. Sem ela nada tem sentido. Nem regras religiosas, nem orações, nem nossas liturgias. A justiça é a via pela qual tudo se encerra, pois nos introduz na essência da palavra e da ação de Jesus, que é liberdade e vida. Neste sentido, Jesus não responde se serão poucos ou muitos que irão participar do Reino, mas deixa claro que serão aqueles e aquelas que praticam a justiça que Deus quer (13,28). Aqui vale sublinhar que a origem de uma pessoa, ou a religião que ela professa, não determina sua pertença, sua participação no Banquete da Vida Eterna. O Deus verdadeiro não tem fronteiras, e sua religião (reli-gare = ligar de novo, resgatar, refazer a Aliança), só conhece uma exigência fundamental: a prática da justiça, que provoca relações de fraternidade e de partilha, a fim de produzir um mundo novo, onde todos e todas podem gozar da liberdade e da vida. Jesus não se opõe às religiões constituídas. Sua crítica se liga ao modo de ver e viver a religião. Muitas vezes, a institucionalização da fé gera afastamento do que de fato interessa à relação entre Deus e o homem. Entre Deus e a mulher. Há quem se diga religioso e religiosa, mas tem ações abomináveis aos olhos de Deus. A exploração dos pobres, em razão de ganância e busca louca pelo lucro, a violência que subjuga os fracos, o desprezo à vida. Há religiosos e religiosas que agem de forma diabólica, buscando acúmulo de riquezas, sedentos de poder e consumidos pelo vírus da vaidade. O Evangelho nos provoca à sensibilidade para com todos aqueles e aquelas que nos cercam, gerando compromisso com suas dores. Para tanto, faz-se necessário que cada um de nós se liberte de sentimentos sustentados em egoísmo, ganância e vaidade. É preciso colocar-se no lugar do pequenino, para entender a ousadia do Evangelho. Por isso Jesus conclui a perícope lucana da liturgia de hoje dizendo: “assim há últimos que serão primeiros, e primeiros que serão últimos” (13,30).

Que nossas comunidades eclesiais possam ser lugar de fraternidade, onde irmãos e irmãs, seguindo Jesus Cristo mais de perto e sob a ação do Espírito Santo, possam levar uma vida radicalmente evangélica. Sendo comunidades que têm como princípio a paz, amando e respeitando a vida humana como valor absoluto; perdoando sempre, sem restrições; tomando sempre o partido dos mais fracos. Viver a fé em Jesus Cristo é se comprometer com a libertação dos oprimidos, porque em sua história de amor no mundo, está a história do homem e da mulher transformados.


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