Vida Eclesial não é só Liturgia!

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Tenho me preocupado com os jovens que participam de nossas comunidades eclesiais. Há um grande número que se entende como partícipe da vida eclesial por uma presença única e exclusiva nas liturgias. Cheguei mesmo a ouvir um rapaz, com seus mais de 25 anos, dizer que há 15 serve ao Altar, como acólito. Avaliando o caminhar deste jovem, percebi que não atua em nenhuma outra ação da Igreja. Somente lhe interessa o ministério de acólito. E que se registre que este jovem não recebeu as ordens menores. Trata-se de um jovem, como muitos outros, que entende sua vocação cristã como presença ritual. Ignora a necessidade de compromisso pastoral, em resposta à Ação Evangelizadora da Igreja.

Avaliando os textos do Magistério da Igreja, após o Concílio Vaticano II, fica-nos clara a necessidade de que a Igreja deve responder às demandas do mundo, sendo sinal de esperança e profetismo diante de suas mazelas. Um jovem com mais de 25 anos deveria estar comprometido com as muitas outras dimensões da Igreja, que não somente a sacramental e litúrgica. Nem mesmo os ministros ordenados (diáconos, padres e bispos), devem entender suas vocações como serviço único e exclusivo aos sacramentos e ao altar. Deve-se comungar a fé com a vida, a liturgia com a vivência eclesial. Daí me pergunto: por que somente o Altar? As liturgias?

Certa vez, ouvi um sábio frade dizer que o problema da Igreja de nossos tempos é que grande parte de nossos irmãos e irmãs se deixou seduzir por uma religião estética, sem quaisquer implicações éticas. Por isso a beleza da liturgia seduz, ofusca os olhos; no desejo do afastamento voluntário e peremptório das “feiuras do mundo”. Como uma busca pelo belo, enquanto analgésico, para as muita dores que afetam nosso Povo de Deus.

Na Igreja há muitas respostas concretas aos clamores de seu povo. Temos uma lista imensa de pastorais e serviços que trazem a mensagem do Evangelho para o compromisso concreto da Igreja, enquanto instrumento de levar a todos e todas à realização de uma nova forma de viver, segundo a Palavra e Ação de Jesus. Olhando atentamente ao nosso redor, dificilmente não veremos seres humanos em situação de vulnerabilidade e ataques à Casa Comum. Somos cercados por sofrimento e morte. Neste contexto, a ação evangelizadora deve ser um abraço acolhedor e um anúncio perseverante e profético do valor da Vida. Este compromisso deve anteceder a liturgia. Pois a celebração eucarística é, antes de mais nada, uma Ação de Graças, na qual nosso viver se faz celebrar. E aqui sublinho o nosso viver. Não se pode celebrar o que não se vive. Antes de ir ao Altar de Deus, devemos passar pelo serviço aos pobres.

Neste sentido, mesmo que alguém já viva algum ministério litúrgico, precisa estar comprometido com a defesa da vida e inserido no caminhar da Igreja. Pelos muitos movimentos, pastorais e serviços é que se testemunha o sim de nosso batismo e que se configura concretamente nossa condição de discípulos e discípulas de Jesus. É preciso testemunhar a fé de forma concreta antes de celebra-la. Vida eclesial não é só liturgia!


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