Reflexão para o 22º Domingo do Tempo Comum – Lc 14,1.7-14
Por Pe. Hermes A. Fernandes
O Evangelho do 22º Domingo do Tempo Comum está no bloco dos dez capítulos que compreendem a viagem de Jesus com seus discípulos à Jerusalém. A partir do capítulo 9 de Lucas, mais precisamente depois do versículo 51, Jesus inicia sua jornada para Jerusalém. Uma longa caminhada da periferia para o centro, da Galileia para Jerusalém. Esta jornada se configura como a parte mais original de seu Evangelho, que lhe consagra dez capítulos (9,51 a 19,28). Os sinóticos tratam desta jornada de forma mais sucinta. Marcos ocupa um capítulo de seu Evangelho e Mateus dois. O sentido do relato desta viagem é tratar das implicações da morte de Jesus, como consequência de seu compromisso com as causas dos pequeninos, vítimas da opressão romana e do judaísmo normativo. Esta é a viagem da libertação que tem seu ápice e significado em Lc 23,46. Para seus discípulos, foi oportunidade de uma grande catequese, quando se teve maior intimidade com a pessoa de Jesus e com sua missão. Afinal, também eles serão responsáveis pela continuidade do anúncio da Boa Nova após a Ascensão e Pentecostes.
Para entendermos o capítulo 14 do Evangelho de Lucas é salutar a informação de que Jesus sabia que as autoridades religiosas, os Doutores da Lei e os Fariseus, o vigiavam continuamente, armando ciladas para pegá-lo de surpresa (cf. Lc 11,54). Todavia, ele não fugia. Enfrentava estas autoridades e as desmascarava. No contexto da perícope evangélica deste domingo está um banquete. É a terceira vez que ele é convidado para uma refeição na casa de um Fariseu. Outros convites e refeições vemos em Lc 7,36 e Lc 11,37. O banquete do Evangelho de hoje acontece em um dia de sábado. Nos primeiros versículos (Lc 14,1-6), Jesus contrapõe a hipocrisia dos Fariseus, na interpretação e aplicação da Lei. O sábado valia mais do que o bem estar, a saúde, a felicidade de uma pessoa. Por isso, no contexto de Lc 14,1-6, a cura de um homem hidrópico era uma ofensa à Lei. Pelo menos sob o olhar dos Fariseus, aqueles que usam da Lei de Deus mais para oprimir do que para libertar. Importa saber que os versículos de 1 a 6 nos informam que Jesus pretendia plantar nos corações daqueles que estavam no banquete o real sentido da vontade de Deus: a misericórdia, a acolhida, o amor – enquanto solidariedade, partilha e serviço – aos que estão em situação de sofrimento. Jesus ressignifica a Lei pelo amor. Amor comprometido e atuante. Amor que se traduz em misericórdia, acolhida, perdão, vida (cf. Lc 10, 25-37; 15,11-32).
Pelos versículos seguintes (14,7-14), os que estão presentes na Liturgia do 22º Domingo do Tempo Comum, somos conduzidos às matizes mais profundas da condição de discípulos e discípulas de Jesus. Os que o seguiam, nem sempre, compreendiam a essência de sua mensagem e as implicações necessárias de sua palavra e ação em suas vidas. As raízes mais cruéis da índole humana, muitas vezes, se manifestaram na caminhada do seguimento ao Messias dos pobres. Orgulho, preconceito, disputas por poder, não estavam longe dos corações daqueles que deram seu sim ao chamado do Senhor. Estes sentimentos não os distanciavam muito daqueles que eram seus opositores. Observando a competição pelos primeiros lugares, típica ação dos Fariseus (cf. Lc 20,7), Jesus retoma a sabedoria do povo simples (cf. Pr 25,7), e dá uma lição nos inchados Fariseus. Falando aos anfitriões do banquete, formava também seus discípulos no sentido real do Evangelho. Para tanto, exorta sobre o perigo da prepotência, da sede de poder e de prestígio. Vejamos: “Quando tu fores convidado para uma festa de casamento, não ocupes o primeiro lugar. Pode ser que tenha sido convidado alguém mais importante do que tu, e o dono da casa, que convidou os dois, venha te dizer: ‘Dá o lugar a ele’. Então tu ficarás envergonhado e irás ocupar o último lugar” (Lc 14,8-9). Imagine a vergonha de ter que deixar o primeiro lugar e ter que sentar-se no último? Melhor seria sentar-se no último lugar e, se for o caso, ser depois convidado a ocupar outro de melhor destaque. Qual a real lição nestas palavras?
Jesus desmascara a competitividade social em que todos brigam para “ficar por cima”, isto é, para ter privilégios e mordomias, sem que os outros questionem sobre o preço desses privilégios e mordomias. E mais: sem que ninguém pergunte quem paga o preço disso tudo. O Reino de Deus, Reino da Justiça, é festa para a qual Deus convida a todos, inclusive os desprezados pela sociedade da plutocracia e da aporofobia. No Banquete de Deus, no Reino dele, os melhores lugares já estão reservados aos pobres e humilhados. Ao exemplo do Pai Celeste, devemos fazer de nossos corações a mesa da partilha e da solidariedade, amando àqueles que a sociedade descarta. Incluindo aqueles que são excluídos e marginalizados. Por isso vemos: “quem se eleva, será humilhado e quem se humilha, será elevado” (Lc 14,11). O uso da voz passiva indica a ação de Deus, como aquele que oferece exaltação ou humilhação, assim como profetizou a Santíssima Virgem Maria, em seu Cântico, o Magnificat (cf. Lc 1,52). O versículo 11, portanto, traz um sentido escatológico: a Justiça de Deus consiste em inverter aquilo que costumamos considerar como “certo, justo e louvável”. No Banquete da Vida, os pobres e os excluídos têm lugar preferencial. A eles se destina o Reino da Justiça, ressignificando suas histórias. “O que era amargo como fel, torna-se doce como mel” (S. Francisco de Assis).
Para que a Justiça de Deus se realize, Jesus aconselha as autoridades religiosas de seu tempo e seus seguidores e seguidoras de ontem e de hoje. Ao Fariseu que lhe convidou para o jantar, Jesus apresenta uma exortação que propõe outra inversão: não convidar os amigos, irmãos, parentes, vizinhos ricos. Ao contrário, convidar aos pobres, aleijados, mancos, cegos. Os abastados podem retribuir o convite. Os excluídos, não. Convidar aos abastados configura uma relação comercial. Convidar aos desprezados pela sociedade é um sinal de gratuidade. Lc 14,12-14 nos relembra Lc 6,32-35, mostrando que o amor limitado e interesseiro não tem o menor valor diante de Deus. Em contrapartida, o amor gratuito empenha o próprio Deus a recompensar aquele que ama com a ressurreição, ou seja, a vida plena. Aqui vale uma ilustração. Os pobres compreendem essa gratuidade de Deus pulsando em suas veias. Quando recebem o auxílio de alguém, não dizem geralmente obrigado (no sentido da obrigatoriedade em retribuir). Ao contrário, colocam nas mãos de Deus a confiança de que aquele que teve misericórdia para com ele, conquistou o apreço do Pai das Misericórdias. Deus é o grande aliado dos pobres. Por isso, quando alguém lhes faz um bem, eles – cheios de esperança – respondem: “Deus lhe pague”. A bondade de alguém é o sinal concreto da justiça de Deus.
E nós? Comunidades Eclesiais que desejam viver segundo o Evangelho de Jesus, o que devemos fazer? Quais implicações a mensagem de Lc 14,1.7-14 pode trazer para nossas vidas?
Nos tempos em que vivemos, a perícope lucana desta liturgia se faz muito oportuna. Que nossas comunidades eclesiais possam ser lugar de fraternidade, onde irmãos e irmãs, seguindo Jesus Cristo mais de perto e sob a ação do Espírito Santo, possam levar uma vida radicalmente evangélica. Sendo comunidades que têm como princípio a centralidade do pobre no Evangelho de Jesus. Nossas vidas e nossos dons devem ser colocados de forma a promover nossa ação evangelizadora como testemunho da opção preferencial pelos pobres, que ilumina toda a Igreja. Viver a fé em Jesus Cristo é se comprometer com a libertação dos oprimidos, amando-os sempre, em primeiro lugar. Já nos dizia o Papa Francisco, a quem sempre dedicaremos saudoso e especial amor: “Devemos ser uma Igreja humilde, que não se escore em poderes, em grandezas. Ao contrário, desejo uma Igreja pobre com os pobres”.
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