Por Aíla Luzia Pinheiro de Andrade
O Antigo Testamento contém inúmeras passagens que enfatizam o cuidado, a proteção e o tratamento justo dos estrangeiros, às vezes traduzidos como “forasteiros”, “peregrinos” ou “residentes”.
O povo de Israel deve se lembrar de sua própria história, como diz a Escritura: “Não maltrateis o migrante nem o oprimais, pois fostes migrantes na terra do Egito” (Ex 22,21) ou ainda: “Não oprimais o migrante; vós conheceis a alma do migrante, pois fostes migrantes na terra do Egito” (23,9). Como os israelitas foram durante muito tempo seminômades, eles deveriam amar o nômade que peregrinava entre eles. O mandamento expande o anterior em uma ética de amor e igualdade: “ama-o como a ti mesmo” (Lv 19,33-34). Outro mandamento do Antigo Testamento não somente exige amor pelos estrangeiros, mas atribui esse amor como imitação do próprio Deus (Dt 10,18–19) e, por isso, Israel deve incluir os estrangeiros na provisão econômica e na justiça, como Deus o faz (Dt 24,17-22). A Escritura também exige a igualdade legal para estrangeiros e nativos (cidadãos) em Israel (Lv 24,22), inclusive para igualdade no culto (Nm 15,15–16).
O livro de Rute é uma narrativa que exemplifica as leis acima. Nas edições da Bíblia cristã, este livros se encontra no bloco dos livros históricos; na Bíblia Hebraica, está entre os Escritos (livros sapienciais e poéticos) e é antecedido pelo livro dos Provérbios e seguido pelo Cântico dos Cânticos.
O livro narra que Elimeleque e Noemi, de Belém de Judá, migram para Moabe durante uma fome. Seus filhos se casam com moabitas, Rute e Orfa. Após a morte do marido e dos filhos, Noemi retorna para sua terra, e Rute a acompanha, demonstrando profunda lealdade à sua sogra.
O livro de Rute é apresentado como um exemplo de amizade entre duas mulheres e um modelo de como se deve acolher as pessoas, no caso específico do livro, uma mulher estrangeira. A história de Rute e Noemi oferece uma lição sobre a importância da amizade e do acolhimento ao estrangeiro, ao diferente. Rute, mesmo sendo uma estrangeira, é uma figura central na genealogia do Rei David e, por consequência, na de Jesus.
Logo, é totalmente equivocado dizer que a Bíblia incita ao preconceito com o estrangeiro ou migrante. Aliás, a Bíblia não incita preconceito algum, em nenhum caso. Nós é que, com nossa leitura enviesada da Escritura, podemos fazer dos textos uma narrativa de preconceitos.
Colaborou: Fique Firme
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