O Deus que nos abraça

Por Yuri Lamounier Mombrini Lira

A Igreja nos ensinou por meio da catequese tradicional os três atributos de nosso Deus. Ele é onipotente, onipresente e onisciente. Analisando a etimologia dessas três palavras, constatamos que o prefixo “oni”, em latim omni, expressa a ideia de “tudo, todos”, isto é, a totalidade. Assim, aprendemos desde a catequese que Deus pode todas as coisas, está em todos lugares e sabe de todas as coisas. Numa palavra, Deus é todo-poderoso. Mas, na catequese, esqueceram de nos dizer que Deus não é um mágico, que Ele não realiza todas as coisas que queremos, nem nos impede de estar sujeitos às intempéries da vida. Deus é onipotente, onipresente e onisciente no amor. Seu amor nos alcança em qualquer canto, em qualquer momento e nos potencializa para enfrentar todas as tribulações da vida.

Padre Maicon Malacarne fala sobre isso utilizando um conceito do filósofo Karl Jaspers. Escreve: “Karl Jaspers, um importante filósofo e expoente da corrente existencialista, gostava de dizer que a onipotência de Deus, ou seja, seu poder supremo e absoluto, seria mais bem traduzido como ‘oniamante ou oniabraçante’. Jesus Cristo é quem revela esse rosto de Deus para a história”[1].

Deus é oniabraçante. Nosso Deus abraça tudo e todos. Deus nos abraça com sua ternura e com sua misericórdia. O Deus todo-poderoso desejou vir ao nosso encontro e se fazer um de nós na fragilidade de uma criança. Jesus é o abraço e o beijo de Deus na humanidade. E esse abraço e esse beijo devem ser retribuídos. Quando contemplamos uma imagem do Menino Jesus com braços tão pequeninos, mas com enorme amor, experimentamos o que descreveu o Papa Francisco: “Em Jesus, Deus se fez Menino para se deixar abraçar por nós!”[2], Deus nos abraça e nos abandonamos em seu abraço.

Jesus, o abraço de Deus, nos dá o presente mais precioso que poderíamos ganhar: a salvação. Não tenhamos medo de permitir que Jesus nos abrace e nos salve. Não tenhamos medo de correr de braços abertos ao seu encontro. Nesse abraço, abraçamos primeiramente a nós mesmos: abraçamos a nossa vida com suas alegrias e angústias, a nossa família com suas virtudes e seus dissabores e a nossa comunidade com aquilo que possui de mais bonito, mas também com aquelas coisas que nos envergonham. O abraço de Deus nos devolve a nós mesmos.

Rubem Alves escreveu: “Eu te abraço para abraçar o que me foge”[3]. Poderíamos dizer que aquilo que me foge é aquilo que falta. O abraço representa nossa busca por aquilo que nos falta. Também nós podemos dizer a Jesus: “Jesus, eu te abraço, para abraçar o que me falta, para me encontrar no seu abraço”. E, cada um de nós sabe o que falta para si para ser mais humano, mais autêntico, mais inteiro (ou menos quebrado), mais feliz.

Nós convivemos diariamente com a falta. Há quem sinta falta de alguém que já se foi, das cadeiras vazias na ceia. Há quem tenha falta de afeto, de lar, de coisas materiais. Há tanta gente sem casa, sem comida, sem roupa adequada para a proteção própria. Há pessoas que perderam o encanto com a vida, que se desiludiram com tudo e com todos. Tem gente sem casa por causa da guerra; há mães chorando a falta de seus filhos por causa das drogas. E ainda há inúmeras pessoas que, embora possuam tudo, sentem falta de amor. “Jesus, eu te abraço, para abraçar o que me falta!”. No abraço de Jesus, o amor nos é garantido. Isso não significa que não conviveremos mais com a falta. Nada disso. Significa apenas que o abraço amoroso de Deus em Cristo nos fortalece para conviver com as faltas e a ser feliz mesmo em meio a elas.

No Natal e na Páscoa, a liturgia da Igreja diz que o céu e a terra fazem um intercâmbio de dons. Deus assume a nossa fragilidade para se fazer um igual a nós. Ele é o Emanuel, o Deus-conosco.

Bento XVI, certa vez, contou uma história baseada num texto do escritor russo, Leon Tolstoi. É mais ou menos assim. Num reino, não muito distante daqui, havia um rei que queria muito ver Deus e ele então procurou alguns sacerdotes e lhes pediu: “Me mostrem Deus. Os sacerdotes dizem: “Não podemos”. Então, o rei perguntou: “Me respondam, então o que Deus faz?”. E, os sacerdotes responderam: “Não sabemos responder, majestade”. Um homem simples, um lavrador, ficou sabendo dessa dúvida do rei e disse que poderia responder. O rei então chamou aquele homem para ir ao palácio e lhe perguntou: “Quero ver Deus, você pode me mostrar Deus?”. O homem disse: “Isso não posso fazer, majestade”. O rei disse: “Então me diga ao menos uma coisa: O que Deus faz?”. O homem respondeu: “Isso posso responder, mas para isso vamos precisar trocar as nossas roupas”. E, então, naquele grande salão, ambos começaram a se despir. O rei entregou para aquele homem simples o seu cetro, a sua coroa, suas roupas luxuosas; o lavrador entregou para o rei seu velho chapéu de couro e suas roupas rasga-das e disse para o rei: “É isso! É isso que Deus faz. Deus sendo Deus, sendo Rei, deixa a sua condição de grandeza e assume a nossa miséria. Deixa sua condição de rei e se faz pobre como nós. Ele troca suas vestes conosco. Ele nos dá a sua vida em troca de nossa vida”[4].

Deus não hesita em trocar suas vestes conosco. Aliás, na oração sobre as oferendas da missa da noite de natal dizemos que acontece um “admirável intercâmbio” entre o céu e a terra. E rezamos: “dai-nos participar da divindade do vosso Filho que elevou à comunhão convosco a nossa humanidade”. Ele nos dá a sua vida em troca de nossa vida.

A constituição pastoral Gaudim et spes, do Vaticano II, afirma: “Com a encarnação, o Filho de Deus se uniu de certo modo a cada homem. Trabalhou com as mãos de homem, pensou com mente de homem, agiu com vontade de homem, amou com o coração de homem”[5]. O teólogo Carlo Rocchetta, comentando esse parágrafo, diz que:

este é o ponto central: Jesus “amou com coração de homem”. Não só viveu com seus contemporâneos, vestindo-se como eles, usando suas palavras e trabalhando como eles, não só pensou e quis com mente e vontade de homem, mas participou da condição humana, amando com coração de homem. Seu “ser com” não poderia ser expresso de modo mais real e eficaz[6].

Com a tecnologia de comunicação e informação, estamos todos conectados. Nunca estivemos tão ligados a todas as coisas e tão bem informados. Contudo, há uma outra maneira de conexão bem melhor do que a internet. Essa conexão se chama: abraço. Nada nos conecta tão bem às pessoas como o abraço.

José Tolentino Mendonça escreveu um pequeno artigo com o título Breve introdução à arte do abraço:

Diz-se que o nosso corpo tem a forma de um abraço. Talvez por isso a tarefa de abraçar seja tão simples, mesmo quando temos de percorrer um longo caminho… Os abraços são a arquitetura íntima da vida. Todos nos reconhecemos aí: em abraços quotidianos e extraordinários, abraços dramáticos ou transparentes, abraços alagados de lágrimas ou em puro júbilo, abraços de próximos ou de distantes, abraços fraternos ou enamorados, abraços repetidos ou, porventura, naquele único e idealizado abraço que nunca chegou a acontecer, mas a que voltamos interiormente vezes sem conta. No princípio era o abraço, se pensarmos no colo que nos nutriu na primeira infância. Essa foi, para a maioria de nós, a primeira e reconfortante forma de comunicação. Mas a necessidade de um abraço acompanha a nossa existência até ao fim. O abraço é uma longa conversa que acontece sem palavras. Tudo o que tem de ser dito soletra-se no silêncio, e ocorre isto que é tão precioso e afinal tão raro: sem defesas, um coração coloca-se à escuta de outro coração (…)[7].

Durante o período da pandemia do coronavírus, ficamos impossibilitados de nos encontrar, impedidos de nos abraçar por causa do obrigatório distanciamento social, para preservação de nossas vidas. Nessa ocasião, uma das coisas de que mais sentimos falta foi de abraçar as pessoas. O abraço que nos faz tão bem e que nos cura se tornou algo estranho para nós. Ainda hoje, carregamos conosco os abraços que não foram dados durante aquele período e transportamos esse vazio que ficou em nós. Não podemos nos esquecer de que “a linguagem do abraço, é a linguagem do coração”[8].

Jesus sempre foi protagonista de grandes encontros e sua acolhida, especialmente aos mais fracos, foi sempre um abraço singular. Cristo abraçou as crianças, embora muitos o criticassem e impedissem as crianças de se aproximar dele: “Deixai vir a mim as crianças e não as impeçais, pois o Reino dos céus a elas pertence” (Mt 19,14). Abraçou e tocou nos leprosos, acolheu quem estava à margem do caminho. Quando abraçou e acolheu Mateus, as pessoas diziam que Ele andava com pecadores, mas Jesus, sem medo, proclamava: “Não são os que tem saúde que precisam de médicos, mas os doentes” (Mt 9,12). Com ternura também abraçou aquela mulher que seria apedrejada e com compaixão lhe disse: “Ninguém te condenou? Eu também não te condeno. Vai, e de agora em diante, não peques mais” (Jo 8,11).

Como dissemos anteriormente, na catequese, ensinaram-nos que Deus é onipotente, onisciente e onipresente. Ensinaram-nos que Deus é todo-poderoso, aquele que sabe de todas as coisas e está presente em todos os lugares. Mas esqueceram-se de nos ensinar a principal característica de nosso Deus: Ele é oniabraçante. Nosso Deus é abraço. Ele nos abraça. Nós podemos sentir esse divino abraço em cada instante de nossa travessia. A ternura de Jesus nos acompanha e nos afaga nos momentos mais difíceis.

Muitos poderiam desprezar essa característica oniabraçante de Deus, dizendo: “De que vale um abraço quando preciso de muitas outras coisas e não as consigo alcançar?”. O Papa Francisco afirma: “O Evangelho convida-nos sempre a abraçar o risco do encontro com o rosto do outro, com a sua presença física que interpela, com seu sofrimento e suas reivindicações, com sua alegria contagiosa permanecendo lado a lado”[9]. Em nosso tempo, o evangelho nos interpela a ser promotores da cultura do encontro através de gestos simples. Nós podemos levar o abraço de Cristo às pessoas.

Se um simples abraço já cura muita coisa, quanto mais o abraço de Deus em Cristo. O abraço de Cristo nos humaniza e, quando sentimos o calor de suas mãos divinas tocando nossas mãos humanas, entendemos que, apesar de nossas fragilidades, carregamos dentro de nós a presença de Deus.

Na cruz, Cristo nos abraça e nos ajuda a trilhar um caminho de encontro com nós mesmos. Seu abraço nos humaniza e nos ajuda a entender que, apesar das fragilidades, carregamos um tesouro precioso. No abraço do Cristo, nosso coração pulsa no ritmo da vida divina, pois o nosso coração se torna um só coração com o de Jesus.

Na cruz, Cristo nos abraça. Na cruz, Jesus está sempre de braços abertos para nos abraçar e acolher, e esse abraço do Redentor dá à nossa vida um novo sentido. Ele nos abraça, apesar de nossas misérias, contradições e de nossos pecados todos. Ele deseja nos abraçar. Abraça as crianças, os leprosos, a pecadora, os excluídos, abraça a todos, abraça a mim e a você.

O Papa João Paulo II, em sua visita ao Brasil, em 1997, no Rio de Janeiro, apontando para o Cristo Redentor disse de improviso à multidão de pessoas que o acompanhava naquele momento: “Desde a altura do Corcovado, Cristo abençoe a cidade do Rio de Janeiro, o Brasil. Cristo abençoe hoje especialmente, todas as famílias brasileiras e do mundo inteiro. E, fiquem todos, com essa bênção do Cristo do Corcovado e que permaneçam neste abraço do Cristo durante toda a sua vida”[10].

O abraço de Cristo é um abraço redentor, abraço que nos salva e que nos liberta dos pecados. O Padre Antônio Vieira, grande pregador do período barroco, no Sermão do 4º Domingo da Ascensão, disse:

A mim, a imagem dos meus pecados me comove muito mais que essa imagem do Cristo crucificado. Diante dessa imagem do Cristo crucificado eu sou levado a ensoberbecer-me por ver o preço pelo qual Deus me comprou. Diante da imagem dos meus pecados é que eu me apequeno por ver o preço pelo qual me vendi. Por ver que Deus me compra com todo o seu sangue, eu sou levado a pensar que eu sou muito, que eu valho muito. Mas quando noto que eu me vendo pelos nadas do mundo, aí eu vejo que eu sou nada. Eu valho nada.

Se olharmos apenas pela perspectiva de nossos pecados, de nossos erros, realmente não valemos nada. Porém, mesmo assim, Deus nos ama e aposta em nós. Ele sempre nos dá uma outra chance. O Senhor não desiste de nós. Ele quer sempre nos abraçar.

Não podemos nos esquecer que Jesus é esse Deus oniabraçante, que ele nos acolhe com seu abraço. Ele nos acolhe do jeito que somos. Ajuda-nos a abraçar até mesmo as nossas contradições.

Na canção A ti, meu Deus, Frei Fabreti nos ajuda a refletir sobre esse abraço redentor que Jesus nos dá e nos faz experimentar a força restauradora de sua ternura em nossa vida. “A tua ternura, Senhor, vem me abraçar e a tua bondade infinita, me perdoar. Vou ser o teu seguidor e te dar o meu coração. Eu quero sentir o calor de tuas mãos”. Em seu abraço redentor, Jesus nos abraça com nossas contradições e potencialidades. Nesse abraço, Ele nos acolhe do jeito que somos.


1 MALACARNE, Maicon André. A fé de Emaús! Disponível em: https://padremaicon.com.br/a-fe-de-emaus/. Acesso em: 02 out. de 2024.
2 FRANCISCO, Papa. Homilia do Papa Francisco. Santa Missa da Noite de Natal. Capela Papal. Basílica Vaticana, Terça-feira, 24 de dezembro de 2019. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/homilies/2019/documents/papa-francesco_20191224_omelia-natale.html. Acesso: 03 nov. 2024.
3 ALVES, Rubem. O retorno e terno. 12. ed. Campinas: Papirus, 1997. p. 17.
4 BENTO XVI, Papa. Homilia de sua santidade Bento XVI. Santa missa crismal. Basílica Vaticana Quinta-feira Santa 5 de Abril de 2007. Dispo¬nível em: https://www.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/homilies/2007/documents/hf_ben-xvi_hom_20070405_messa-crismale.html. Acesso em: 25 out. 2024.
5 Gaudium et spes, n. 22. In: CONCÍLIO VATICANO 2, 1962-1965. Constituições, Decretos, Declarações. Petrópolis: Vozes, 1968.
6 ROCCHETTA, Carlo. Teologia da ternura: um “evangelho” a descobrir. Tradução de Walter Lisboa. São Paulo: Paulus, 2002. p. 188.
7 MENDONÇA, José Tolentino. Breve introdução à arte do abraço. Disponível em: https://www.imissio.net/v2/opiniao/breve-introducao-a-arte-do-abraco:4057/. Acesso em: 25 out. 2024.
8 VASCONCELOS, Eder. Pedagogia da ternura: via para o amor e a bele¬za. São Paulo: Paulinas, 2022. p. 56.
9 Evangelii gaudium, n. 88. In: FRANCISCO, Papa. Evangelii Gaudium: a alegria do Evangelho. São Paulo: Paulinas, 2013.
10 JOÃO PAULO II, Papa. Angelus. Rio de Janeiro, Aterro do Flamengo. Domingo, 5 de outubro de 1997. Disponível em: https://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/travels/1997/documents/hf_jp-ii_spe_05101997_greetings.html. Acesso em: 25 out. 2024.

Colaborou: Fique Firme


Deixe um comentário

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑