Por Pe. Hermes A. Fernandes
Neste 23º Domingo do Tempo Comum, continuamos a leitura do capítulo 14 do Evangelho de Lucas. Tem como contexto o bloco dos dez capítulos que compreendem a viagem de Jesus com seus discípulos à Jerusalém. A partir de Lc 9,51, Jesus inicia sua jornada para capital do poder religioso e político de seu tempo. Uma longa caminhada da periferia para o centro, da Galileia para Jerusalém. Esta jornada se configura como a parte mais original de seu Evangelho, que lhe consagra dez capítulos (9,51 a 19,28). Os sinóticos tratam desta jornada de forma mais sucinta. Marcos ocupa um capítulo de seu Evangelho e Mateus dois. O sentido do relato desta viagem é tratar das implicações da morte de Jesus, como consequência de seu compromisso com as causas dos pequeninos, vítimas da opressão romana e do judaísmo normativo. Esta é a viagem da libertação que tem seu ápice e significado em Lc 23,46. Para seus discípulos, foi oportunidade de uma grande catequese, quando se teve maior intimidade com a pessoa de Jesus, seu projeto e missão.
Para se tornar continuador do anúncio do Reino, o discípulo e a discípula de Jesus precisa entender qual sua proposta e reais implicações do seu projeto de vida, o qual contrapõe-se diretamente aos projetos de morte que insistem em ameaçar a dignidade, a liberdade e a vida humana. Lc 14,25-33 apresenta os requisitos ao discipulado e suas consequências. É o ápice, o imperativo primeiro do discipulado: “Qualquer um de vós, se não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo!” (14,33). Aqui vale perguntar: o que Jesus queria dizer com “tudo o que tem”? Aí precisamos recordar o Evangelho do domingo passado, Lc 14,1.7-14. Para um verdadeiro discipulado, é preciso se livrar do inchaço do orgulho, da sede por competição, da busca por interesses egoístas, da loucura inseminada pela vaidade – buscando sempre estar em evidência, deslumbrados pela fama e pelo prestígio. Ainda mais: é imperativo se livrar das tentações da ganância, que gera exacerbado acúmulo e riqueza. Mesmo que muitos entendam bens e reconhecimento como seguranças necessárias à vida, estas podem ser as armas da sedução diabólica para a vaidade, a ganância e o poder. Esta tríade de tentações produzem sérias consequências na humanidade. São fontes da injustiça, da miséria, de toda forma de exclusão. No mundo onde a ganância, a vaidade e a sede por poder imperam; a injustiça e a esperteza se tornam as vias mais comuns das relações humanas, produzindo uma multidão de pessoas em situação de vulnerabilidade, exploradas e marginalizadas por uma sociedade plutocrática. Sem solidariedade e partilha – valores fundamentais no Evangelho de Jesus – as relações pendem sempre para o vilipêndio. Neste modelo de relações sociais e religiosas, temos como consequência sérias feridas, produzindo um mundo doente, onde a vida se torna descartável, em privilégio do lucro e do poder.
O que pode ser feito para curar tais feridas que adoecem o mundo? O que resta fazer para nos livrarmos deste espiral de destruição? Resta-nos a Cruz, ou seja, a disponibilidade de seguir Jesus até à morte pelas causas da Justiça. “Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo!” (14,27). Para tanto, precisamos renunciar a tudo, até mesmo à boa fama, pois a Cruz era a sentença para os que ousavam subverter a falsa ordem criada pelo Império Romano. Seguindo Jesus, escolhemos o lado dos marginalizados, segundo a ótica dos poderes injustos, pois ele mesmo sofreu toda sorte de injustiças, apresentando suas costas aos que lhe feriam com os açoites, e a face aos que lhe arrancavam a barba. Não desviou o rosto dos insultos e dos escarros (cf. Is 50,6).
O Evangelho não esconde as consequências por escolher o projeto da vida, o Reino de Deus. Por isso, Jesus conta duas pequenas parábolas para ilustrar a disposição necessária para o discipulado. Primeiro a do construtor (14,28-30), e depois, a do rei que planeja sair em batalha (14,31-32). Estas parábolas colocam o discípulo e a discípula em cheque. É preciso pensar bem antes de tomar a decisão de seguir Jesus. Quem vai construir uma torre, deve calcular muito bem os gastos, fazendo um apurado orçamento, para não ter um fiasco como resultado, sendo motivo de chacota. Quem vai guerrear, precisa sondar as forças com que pode contar, e ver se não é melhor negociar antes a paz.
Muito oportunas as exortações de Jesus, presentes no Evangelho deste domingo, para que perseveremos no caminho da Cruz. Assim como Jesus tomou sobre si nossas dores (cf. Is 53,4-5), a Igreja deve tomar sobre si a responsabilidade de sanar todas as feridas causadas pelas perversidades de uma sociedade que exclui, marginaliza e mata (cf. Is 61,1ss). Por isso, neste 07 de Setembro, a Igreja celebra o Grito dos Excluídos, somando-se a todos e todas que estão à margem da dignidade e da inclusão. Esta 31ª edição do Grito dos Excluídos tem como tema “Vida em primeiro lugar”. Reúne pessoas, Igrejas, movimentos e organizações populares em todo o país para denunciar as injustiças socioambientais e as mais diversas formas de violência e atentado contra a vida, para reivindicar os direitos dos pobres e marginalizados e para celebrar as lutas e conquistas de nosso povo. É um grito de denúncia, de reivindicação e de celebração. Enfim, um grito pela vida. Com isso, tomamos nossa Cruz e seguimos Jesus, colocando-nos ao lado da vida, em oposição aos poderes de morte.
Atualizar o Evangelho de Jesus em nossas vidas, escolhendo os pobres e excluídos como destinatários primeiros de nosso amor e compromisso, configura um insistente chamado à profecia. Ouvindo as advertências do Messias sobre as consequências do discipulado, fica-nos o dilema: segui-lo não é fácil, não segui-lo é pior ainda. O que fazer quando finalmente se descobriu o caminho para a liberdade e a vida, pelas quais tanto ansiamos? Desistir? Quem vislumbrou a verdade, ainda que por um só momento, jamais a esquecerá. Por isso, faz-se imperativo incluir os versículos seguintes do Evangelho apresentado na liturgia deste domingo (vs. 34-35), pois estes nos provocam de forma definitiva. Jesus compara nossas vidas eclesiais, nossa condição de discipulado, com o sal. “O sal é bom. Mas se até o sal perde o sabor, com que o salgaremos? Não serve mais para nada: nem para a terra, nem para esterco. Por isso, é jogado fora. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!” (Lc 14,34-35). Ser discípulo e discípula de Jesus é ser como o sal, que dá sabor à comida. Seguir a Jesus é viver com sabor. Melhor os riscos, as renúncias, a Cruz; do que uma vida insossa e sem sentido. Abracemos a Cruz e a Renúncia como requisitos para o seguimento de Jesus. Afinal, o que vale nossas vidas sem Jesus e seu Evangelho? Nada!
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