Por Yuri Lamounier Mombrini Lira
Além de nos perguntarmos “Quem é Jesus?”, outra pergunta que fazemos sempre é “Como seria o rosto de nosso Deus?”. E, a resposta, ou pelo menos uma parte dela, nós encontramos no prólogo do Evangelho de João: “A Deus, ninguém jamais viu. O Unigênito de Deus, que está no seio do Pai, foi quem o revelou” (Jo 1,18). Em Jesus, Deus nos revela o seu grande mistério de amor, o seu rosto escondido na pequenez do menino de Belém, na fragilidade de um jovem crucificado. Como descreve o autor da Carta aos Hebreus: “Muitas vezes e de muitos modos, Deus falou outrora aos nossos pais, pelos profetas. Nestes dias, que são os últimos, falou-nos por meio do seu Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas e pelo qual também criou o universo. Ele é o resplendor da glória do Pai, a expressão do seu ser. Ele sustenta todas as coisas com a sua palavra poderosa” (Hb 1,1-3).
Revelação: palavra interessante que merece destaque. Antes de falarmos do significado teológico dessa palavra, lembremo-nos de duas situações de nosso cotidiano em que a usamos.
No tempo em que não existiam câmeras digitais, nem celulares que fotografam e nos permitem ver nossas fotos instantaneamente, para ver um retrato, nós precisávamos aguardar um longo processo: levávamos o negativo dos filmes contendo as fotografias e esperávamos até que elas fossem reveladas. Isso nos deixava ansiosos e na expectativa de ver se nossos registros ficaram bons e, então, tendo as fotos reveladas, era só organizar o álbum. Podemos recordar também que, hoje em dia, tem sido bastante popular, o “chá revelação”. Trata-se de uma festa que alguns pais organizam para anunciar à família e aos amigos mais próximos o sexo e o nome do bebê que estão ansiosamente esperando.
A partir dessas duas analogias, podemos compreender o significado da Liturgia do Natal. Deus nos reúne para a festa da revelação de seu grande mistério. No Natal, Deus nos apresenta sua essência, mostra-nos a sua identidade, manifesta pra nós o seu rosto e o seu nome.
De acordo com a Constituição Dogmática Dei Verbum, do Concílio Vaticano II,
Aprouve a Deus, em sua bondade e sabedoria, revelar-se a si mesmo e tornar conhecido o mistério de sua vontade, pelo qual os homens, por intermédio de Cristo, Verbo feito carne, e no Espírito Santo, têm acesso ao Pai e se tornam participantes da natureza divina. Mediante esta revelação, portanto, o Deus invisível, levado por seu grande amor, fala aos homens como amigos, e com eles se entretém para convidar a comunhão consigo e nela os receber. Este plano de revelação se concretiza através de conhecimentos e palavras intimamente conexos entre si, de forma que as obras realizadas por Deus na História da Salvação se manifestam e corroboram os ensinamentos e as realidades significadas pelas palavras. Estas, por sua vez, proclamam as obras e elucidam o mistério nelas contido[1].
As palavras desse importante documento do Concílio Vaticano II ajudam-nos a mergulhar no mistério da revelação de Deus – seu nome, seu rosto, sua identidade, sua natureza. Deus, por meio de Jesus, quis “falar aos homens como amigos” e, mais que isso, além de falar conosco, ele desejou estar entre nós, ser um de nós. Ele se revelou Deus conosco.
Porém, Deus vai e faz essa sua revelação de modo bem devagar. A cada dia nós temos oportunidade de conhecer um pouco mais sobre Ele, mas não seremos capazes de conhecer esse mistério em sua totalidade. Na verdade, esse mistério é algo para ser experimentado e saboreado. Somos diariamente convidados a mergulhar no oceano do mistério do amor de Deus. Embora nossas palavras não sejam suficientes para explicar a grandeza dessa revelação, é possível dizer algo sobre esse mistério que experimentamos.
Na Sagrada Escritura, podemos acompanhar cada passo da revelação de Deus e como o povo vai vivendo essa experiência tão forte e fascinante com o seu Senhor. Deus se revela ao seu povo. Primeiramente, através do universo criado, das alianças feitas com Abraão, Moisés e com outros patriarcas; através do anúncio dos Profetas e do louvor dos salmistas. Deus foi se mostrando, indicando onde o ser humano o poderia encontrar. Até que, na plenitude dos tempos, Deus se fez um de nós. Deus assumiu a nossa carne humana, nossa existência finita e mortal. Ele se fez gente como a gente. Deus se abaixou à nossa humanidade e nos elevou à sua divindade.
Quando Jesus nasceu, não existia a tecnologia que temos hoje, não havia câmeras fotográficas, nem filmadoras… Não sabemos ao certo como é verdadeiramente o seu rosto humano. Talvez, possamos ter esse desejo, de saber como seria concretamente o rosto de Jesus de Nazaré, que nos revela quem é Deus. Alguém poderia dizer que seria ótimo se pudéssemos ter esse registro em forma de fotografia ou vídeo. Eduardo Calil transformou em poesia essa constatação teológica a respeito do rosto de Deus:
Meu Deus
Tem tantos rostos
Que não saberia nomeá-los.
Deus é o inefável[2].
Pensando bem, é ainda mais fascinante não termos nenhum registro assim do rosto do Deus feito homem. Isso nos leva a pensar que Deus vai se revelando a cada um de nós, na nossa vida, na nossa história.
Aliás, isso me faz lembrar de uma pequena história:
Numa pequena aldeia de Marrocos, um homem contemplava o único poço de toda a região. Um garoto aproximou-se: – O que tem lá dentro? – quis saber. – Deus. Deus está escondido dentro desse poço, respondeu um ancião. – Está? Quero ver, disse o garoto, desconfiado. O velho pegou-o no colo e ajudou-o a debruçar-se na borda do poço. Refletido na água, o menino pôde ver o seu próprio rosto. – Mas este sou eu, gritou o menino. – Isso mesmo, disse o homem, tornando a colocar delicadamente o menino no chão. – Agora você sabe onde Deus está escondido[3].
Que mistério fascinante! No rosto de cada pessoa podemos contemplar o rosto de Jesus. Por isso, quando você puder contemplar o seu rosto no espelho, quando olhar para o rosto de alguém de sua família ou de um ilustre desconhecido com quem você se encontra na rua, você terá a graça e a oportunidade de contemplar mais uma centelha do mistério do rosto de Deus.
Inclusive, essa é uma das afirmações do Concílio Vaticano II, num outro importante texto conciliar, a Constituição pastoral Gaudium et spes: “Em Jesus, Deus revela o homem ao próprio homem” (GS, 22). Olhando para Jesus, mergulhando no mistério de Jesus, temos acesso ao nosso próprio mistério. Inspirando-se nesse documento conciliar, o Papa João Paulo II, na primeira encíclica de seu pontificado escreveu: “O homem que quiser compreender a si mesmo profundamente […] deve, com a sua inquietude, incerteza e também fraqueza e pecaminosidade, com sua vida e com sua morte, aproximar-se de Cristo”[4].
Mais recentemente, o Papa Francisco, ao proclamar o Jubileu Extraordinário da Misericórdia, em 2015, ajudou a Igreja a redescobrir o rosto misericordioso de Deus. Assim disse o Papa: “Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai. O mistério da fé cristã parece encontrar nestas palavras a sua síntese […] Com sua palavra, os seus gestos e toda a sua pessoa, Jesus de Nazaré revela a misericórdia de Deus”[5]. A partir desses textos do magistério da Igreja, pode-se perceber o desejo de redescobrir o rosto do Deus de Jesus Cristo, a partir do seu amor, ternura e misericórdia. Características profundas de Deus, que, ao longo do tempo, ficaram esquecidas ou não eram mencionadas. Podemos encontrar em Jesus esse grande mistério. Jesus é o rosto humano de Deus e, em Jesus de Nazaré, toda pessoa pode descobrir e encontrar o mistério da vida. Somos imagem e semelhança de Deus.
Por isso, José Tolentino Mendonça afirma: “Tornar-se ‘imagem e semelhança de Deus’ é ter em Deus a nossa ossatura interior, a nossa raiz, o inequívoco fundamento”[6]. Para o cardeal português, carregamos Deus em nossa “ossatura interior”, ou seja, é isso que nos estrutura interiormente, que nos sustenta.
O cardeal vietnamita Van Thuan, no livro Testemunhas da esperança, nos mostra um detalhe relevante do mistério do rosto de Deus: “Se quisermos, portanto, descobrir a face de Nosso Senhor Jesus Cristo, temos que procurá-lo entre os mais distantes de Deus. Ele nos espera em cada ser humano, qualquer que seja a sua situação, o seu passado e o seu estado de vida”[7]. Não podemos nos esquecer disto: mesmo entre as pessoas aparentemente mais distantes de Deus, Ele também pode ser encontrado.
Não podemos esquecer de que Deus pode ser encontrado no rosto de cada pessoa. Por isso, cada um de nós temos essa abertura para o Infinito. Somos um retrato de Deus. Em cada rosto, podemos contemplar os rastros da face de Deus. O Papa Bento XVI, na Oração para a Conferência de Aparecida, escreveu que “Jesus Cristo é o rosto humano de Deus e rosto divino do homem”.
O Deus que veio ao nosso encontro na manjedoura de Belém e que comungamos em cada celebração eucarística pode ser refletido através de nosso rosto e no rosto de nossos irmãos e irmãs. Que possamos também vislumbrar os rastros da revelação de Deus, espalhados por todos os lugares e em todas as pessoas.
A Beata Chiara Luce, jovem italiana que tem uma belíssima história e que pode ser uma inspiração para todos nós, tem um episódio curioso em sua vida. Certa ocasião, um colega de sala disse para Chiara Luce que se considerava ateu. Não acreditava em Deus, pois nunca o tinha visto. Então, Chiara Luce com sabedoria lhe respondeu: “Eu também nunca vi Deus, mas vejo Deus em você!”[8].
Nós também nunca vimos.
Sobre o autor
Yuri Lamounier Mombrini Lira é natural de Candeias, sul de Minas Gerais. Desde muito jovem, é apaixonado pela literatura; é seminarista da diocese de Oliveira, bacharel em Filosofia e graduando em Teologia pela PUC-Minas.
Colaborou: Fique Firme
1 Dei Verbum, n.2. In: CONCÍLIO VATICANO, 2, 1962-1965. Constituições, Decretos, Declarações. Petrópolis: Vozes, 1968.
2 CALIL, Eduardo César Rodrigues. Palavras miúdas. Belo Horizonte: Fique firme, 2021. Poema: Miudezas 2.
3 RANGEL, Alexandre (org). As mais belas parábolas de todos os tempos. Petrópolis, Vozes, 2015. v.3: p. 189.
4 Redemptor hominis, n. 10. In: JOÃO PAULO II, Papa. Redemptor hominis. São Paulo: Paulinas, 1979.
5 Misericordiae Vultus, n. 1. In: FRANCISCO, Papa. Misericordiae vultus: o rosto da misericórdia de Deus. São Paulo: Loyola, 2015.
6 MENDONÇA, José Tolentino. Pai nosso que estais na terra: o Pai-Nosso aberto a crentes e a não crentes. São Paulo: Paulinas, 2014. p. 27.
7 VAN THUAN, François Xavier Nguyen. Testemunhas da esperança. São Paulo: Cidade Nova, 2022. p. 88.
8 FUNDAÇÃO CHIARA BADANO. O sorriso que venceu a dor: a trajetória de Chiara Luce Badano. Tradução de Gustavo Monteiro. Vargem Grande Paulista: Cidade Nova, 2023. p. 31.
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