Por Pe. Eduardo César Rodrigues Calil
Querer sucesso, ser promovido, reconhecido, validado, será isso um problema? Querer vencer, será isso realmente um pecado? O mais cristão é uma moral resignada, humilhada? Humilde mesmo, assim ensinam, é aquele que vive sem explorar suas capacidades e potências, vivendo sempre aquém de si, sempre se segurando para não parecer arrogante. Para não despertar invejas, vivendo em voz baixa para não incomodar. E fica mais humilde se em vez de reconhecer seus talentos, se menosprezar, humilhando-se.
Contra essa postura, ou impostura, os cristãos foram acusados de ter uma moral de escravos, um moral de ressentimento. Uma moral para mantê-los sempre fracos, submissos aos fortes, louvando a fraqueza como humildade, para ficarem aí, nessa posição. Ou seja: transformaram sua fraqueza em algo bom. E a força em algo mal. Será Jesus, um adepto dessa moral ressentida, ao pedir seus discípulos de todos os tempos para escolher os últimos lugares? Estaria ele aconselhando algo como uma humildade e, ainda mais, teatral, para depois ganhar as honrarias dos primeiros lugares, no reconhecimento alheio? Estaria correta a crítica que diz, então, que a humildade seria apenas uma máscara a encobrir a impotência e o desejo de honrarias?
Mas, afinal, o que é vencer numa sociedade em que os reconhecidamente vitoriosos, muitas vezes, vencem atropelando os outros, fazendo da cabeças alheias degraus para seus planos? O que será preciso fazer, o que será preciso negociar para ser sempre reconhecido, sempre validado à procura do olhar aprovador do outro? Quanto de verdade pessoal se perde aí, para alcançar a aprovação geral! E muitos primeiros lugares estão assentados sobre uma pilha de corpos excruciados, de vidas subalternizadas por uma lógica injusta.
E se a vida é só vencer e só encontra sentido aí, quem nos poderá ensinar a arte de perder? Como aprenderemos o valor necessário das derrotas, da perda, da falta, do real da vida? Não é gosto pelo fracasso; é saber que ele existe, como existe também o não para nossas vontades, a frustração para as nossas muitas expectativas. O que vira a vida se ela é só buscar vencer, o tempo todo, senão uma comparação excessiva, uma competição desmedida, uma prisão ao olhar do outro, um ressentimento constante e medo de perder?
Jesus não ensina teatro. A metáfora do evangelho vai contra a lógica dos fariseus que é repetida na lógica religiosa de hoje, e também a do capitalismo neoliberal tomado como religião: sucesso a todo custo, busca insaciável de reconhecimento, parecer e aparecer. E colocar Deus a serviço disso. Jesus usa o sistema contra o sistema: não buscar os primeiros lugares não é teatralizar humildades, mas é não esmagar a vida na competição, na comparação e na busca por reconhecimento. Para liberar a potência da vida, não para deixá-la ressentida, Jesus ensina resistência à verdadeira moral de escravos: a política religiosa que divide e põe todos contra todos.
Por isso faz sentido a parábola final sobre convidar pra festa os que nada podem dar em troca. Não é o convite à generosidade apenas. Mas um convite a sair da lógica retributiva. Por mais que seja bom receber reconhecimento, viver esperando isso vir de fora esgota até mesmo as razões para continuar fazendo qualquer coisa. Fazer o bem como quem encontra valor na própria ação é diferente de fazê-lo esperando ser recompensado. Mesmo a recompensa na ressureição dos justos, prometida por Jesus, não é um comércio com Deus, ou seja, a expectativa por ser pago por ter feito o bem. Caso fosse, isso seria incidir no mesmo problema, mas agora deslocado para Deus. Antes é o indicativo de estar numa relação com Deus, tão íntima, que nem a morte pode romper, simplesmente por fazer o que se fez. As razões para fazer não estariam, assim, na recompensa, mas no próprio ato. E então, o próprio ato se torna afirmação da vida.
Colaborou: Fique Firme
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