Convite à conversão

Por Yuri Lamounier Mombrini Lira

Um dos primeiros e principais convites que Jesus faz é à conversão. “Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15). Conversão significa mudar a direção, o rumo, ou seja, indica uma transformação. Na língua grega, conversão corresponde a “metanoia”. Podemos dizer também que a conversão é um processo que nos faz assumir uma “virada radical” em nossa vida, ou ainda, como diz uma expressão popular, é o momento de uma “virada de chave”. Ao virarmos a chave de uma porta, podemos fechá-la ou abri-la; ao virarmos a chave do carro podemos fazer com que ele entre em movimento ou podemos estacioná-lo. Assim, a virada de chave proporcionada pela conversão pode nos levar a assumir um novo jeito de viver a vida.


Poderíamos dizer também que converter-se é revitalizar-se. De vez em quando, ouvimos essa palavra – revitalizar – dar vida nova, novos ares… “A praça será revitalizada, a rua foi revitalizada”, dizem por aí. Espaços externos e públicos sempre ganham cara nova depois das revitalizações.


O encontro com Jesus de Nazaré é o convite para vivermos uma revitalização interior, dar uma cara nova ao nosso coração, promover uma grande reforma em nós mesmos. Nesse sentido, são muito inspiradoras as palavras do profeta Ezequiel: “Eu vos darei um novo coração e porei em vós um espírito novo. Tirarei de vosso corpo o coração de pedra e vos darei um coração de carne” (Ez 36,26).


No processo de conversão, Jesus está conosco. Ele nos ajuda a descobrir o milagre de nós próprios e a vislumbrar a beleza escondida dentro de cada um de nós. Revitalizar é transformar. É passar por mudanças diariamente. Ainda que não vejamos ou percebamos, nós nos revitalizamos a cada dia.


Rubem Alves escreveu: “Não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses”1.Precisamos tomar consciência das mudanças que são necessárias a nós mesmos para que tenhamos vida plena. Preocupamo-nos demasiadamente com nosso exterior e, de fato, é importante cuidarmos de nosso corpo, mas não podemos nos esquecer de nosso coração, de nossa interioridade. As grandes mudanças sempre acontecem de dentro para fora.


Não sei por qual metamorfose você está precisando vivenciar, mas você sabe o que precisa ser revitalizado dentro de você: uma atitude, um sentimento, um vício a ser vencido e outras tantas coisas. Só não podemos esquecer que essas metamorfoses acontecem sempre devagar e silenciosamente.


Transformar nossa maneira de ver e viver a vida, reinventar o modo de nos relacionar com as pessoas, modificar a maneira de cuidar da natureza, tudo isso são algumas das revitalizações que devemos ter em mente.


Outro grande mestre, Guimarães Rosa, escreveu na sua obra Grande sertão: veredas:

O senhor… mire veja: o mais importante e bonito do mundo é isto – que as pessoas não es-tão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que estão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso me alegra, montão2

.

O encontro com Jesus Cristo é uma oportunidade para nos recolhermos, como a lagarta se recolhe no casulo. Em nossa crisálida, vamos fazendo a nossa longa e silenciosa revitalização interior até concluirmos a nossa metamorfose. Afinando e desafinando, metamorfoseando sempre, afinal não estamos terminados. E, assim, prosseguimos até que, revitalizados, possamos conquistar a vida nova que Cristo quer nos oferecer, pois “seguir Jesus é configurar para si um novo estilo de vida”3

.
Vivemos esse processo de conversão para que Cristo seja formado em nós, como nos lembra o apóstolo Paulo: “Até Cristo ser formado em vós” (Gl 4,19). O verbo “formar” significa: criar, dar forma, concluir, dar acabamento. Mas não nos iludamos, na vida, nós nunca estamos acabados, nunca estamos prontos. Sempre iremos precisar de um arremate. Portanto, cada pessoa é única e a cada momento de nossa existência vamos nos transformando.


A verdadeira conversão é aquela que fazemos desde dentro. Dom Helder Câmara dizia: “Feliz de quem entende que é preciso mudar muito para ser sempre o mesmo”4.  Essa frase nos ajuda a perceber que o processo de conversão nos faz descobrir a nossa essência, aquilo que é mais importante para nós. Vivendo a conversão, aprendemos a configurar nossa vida com Jesus Cristo. Ficamos mais parecidos com ele.


Para entender esse configurar a Cristo, podemos pensar numa metáfora bem atual. É muito comum precisar emparelhar nosso celular com outro aparelho eletrônico ou com o celular de aldo bluetooth. Com os celulares emparelhados, passamos os dados de um aparelho para o outro; um celular se conecta e se configura com o outro. É mais ou menos assim que Cristo age em nós. Emparelhados a Ele, ficamos conectados com seu projeto de vida e nos configuramos ao seu estilo de vida, assumindo o seu jeito de ser, de viver e de agir. Essa configuração com Cristo nos transforma completamente.


É preciso diferenciar “formar” de “formatar”. A formatação segue um padrão; as pessoas se tornam cópias, perdem a sua essência, sua originalidade. Por isso, vemos tantas pessoas frustradas. Não precisamos nos formatar a ninguém. Precisamos ser ousados, criativos, originais. Não precisamos copiar ninguém, mas podemos sim nos inspirar nas outras pessoas, seguir os exemplos delas. Precisamos nos deixar formar por Cristo, por seu Evangelho. Essa formação é benéfica; é diferente da formatação, que rouba a identidade e resulta em um monte de gente alienada, que não tem mais senso crítico nem sabe o que está fazendo. O cristão é configurado a Cristo, formado por sua palavra, mas não recebe uma formatação pronta. Cada um se tornará seguidor de Jesus ao seu modo, conforme suas aptidões, seus dons, suas capacidades e também seus limites e suas fraquezas. Cada um continua “si mesmo” em Cristo. O apóstolo Paulo diz: “Tende entre vós os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus” (Fl 2,5). No encontro com Jesus, nós não somos formatados; somos formados por Ele.


Certa vez, celebrando a Primeira Eucaristia de algumas crianças, resolvi fazer uma pergunta para elas na homilia. Perguntei-lhes: “O que vocês querem ser quando crescerem?”. Várias foram as respostas que surgiram: professor, jogador de futebol, médico e até astronauta. Disse às crianças que muitas vezes elas ainda escutariam essa pergunta na vida. Porém, existe outra pergunta mais importante do que essa: “Quem você será quando crescer?”. Que bom será se pudermos responder essa pergunta assim: “Serei um seguidor de Jesus de Nazaré, um outro Cristo!”. Contei a elas que, algumas décadas atrás, havia um programa de comédia na TV, no qual um dos personagens dizia: “Quando crescer quero ser igual a você!”. E, concluí dizendo para as crianças que ao receberem Jesus na Eucaristia, elas se comprometiam a ser como Jesus. Elas poderiam no silêncio do coração fazer um compromisso: “Jesus, quando crescer, quero ser igual a você”.


Jesus sabe compreender o ritmo de cada um de nós. Embora ele deseje que nos convertamos, Ele não nos força a viver esse processo. Cristo nos propõe; ele nunca nos impõe nada. Como diz William Barry: “Talvez Deus não possa mudar o coração humano, a menos que esse coração concorde em mudar. Deus, já se percebe, quer influenciar nosso coração, mas Deus não pode coagi-lo a mudar”5.


Ao se encontrar conosco, Jesus não nos obriga a viver a conversão; no entanto, Ele nos propõe essa mudança radical. Podemos aceitar ou recusar a proposta de Cristo. Mas uma coisa é certa: quem se arriscar nessa aventura verá que vale a pena aceitar a proposta de Jesus.


1 TODO jardim começa com uma história de amor, Rubem Alves. Disponível em: https://www.revistaecosdapaz.com/todo-jardim-comeca-com-uma-historia-de-amor-rubem-alves/. Acesso em: 18 nov. 2024.

ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006. p. 23.

3 MALACARNE, Maicon André. No princípio, o Verbo. São Paulo: Loyola, 2024. p. 157.

CÂMARA, Helder. Mudar muito para ser sempre o mesmo. Disponível em: https://franciscanos.org.br/vidacrista/calendario/mudar-muito-para-ser-sempre-o-mesmo/#gsc.tab=0. Acesso em: 29 jan. 25.

BARRY, William A. Amizade sem igual: experimentar o surpreendente abraço divino. Tradução de Barbara Theoto Lambert. São Paulo: Loyola, 2023. p. 116.

Colaborou: Fique Firme


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