Igreja e LGBTQIAPN+

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Não! Esta reflexão não pretende ser teológica. Também não pretende ser um ensaio sobre eclesiologia. É, como disse um dia Thomas Merton, reflexão de um “Expectador Culpado”.

Estava em uma roda de conversa. Pessoas, irmãos e irmãs de fé, que se dispõem a partilhar a palavra, o afeto e um delicioso tereré. Entre uma cuia e outra, veio a pergunta: “Padre, é verdade que o Papa Leão XIV entrou numa de defender a militância LGBTQIAPN+? Vi nuns posts na internet que o santo padre recebeu James Martin, que declaradamente defende tal militância.” Eu, já desconfiado, respondi: “Qual o problema em receber Pe. James?” E a resposta estragou o sabor do mate, e da conversa: “Eu pensava que com o conclave, a gente tinha se livrado dessas aberrações liberais. Custamos a tolerar esses modernismos com o Papa Francisco. Minha esperança era que o atual Papa colocasse rédeas na doutrina e na moral, sem liberalismos.” Eu ainda tentei propor uma catequese da misericórdia, dizendo: “Meu irmão, a Igreja é de todos, pois Jesus acolhe sem distinções, sem fazer acepção de poessoas. Devemos acolher a todos, como fez Jesus.”

O que vi em seguida me chocou. Olhos vermelhos, dedo em riste, voz rouca esbravejando: “Não, padre! Jesus acolhia, mas exortava a abandonar o caminho do pecado. Esse povo, se não abandona seus atos abomináveis, nunca será nossos irmãos de fé. Nunca pertencerão a nossa Igreja. Essa coisa de acolher sem cobrar conversão é militância LGBTQIAPN+! Isso não!”

Pensei, pensei e – mesmo que evasivo – respondi: “Eu confiava no Papa Francisco e confio em Leão. Não me cabe avaliar as palavras e atos dos papas. O que devo é ama-los e servir a Igreja com humildade. E por isso acolho a todos, como nos havia pedido o Papa Francisco” Não consegui externar o quanto essa conversa me chocou. O quanto me entristeci por ver corações tão rasos. Onde a moralidade, cheirando ao moralismo, atrofia pessoas no imperativo de acolher e amar. E fui para casa com um choro embargado na garganta.

Já pelas tantas, ainda com a conversa nítida em meus pensamentos, tentei inferir qual o real problema para os que acreditam na barreira indisponível para pessoas LGBTQIAPN+ em nossas comunidades eclesiais. E não consegui atinar. Por que acolher se tornou militância? Por que o imperativo do amor, depois de dois mil anos do anúncio primeiro do Evangelho, ganhou algumas condicionais? Amai-vos uns aos outros, mas não às pessoas homossexuais. Elas não são bem-vindas.

Falando em militância LGBTQIAPN+, acho até engraçado a oposição àqueles que se dedicam a cobrar os direitos das minorias. Hoje, tudo que tem objetivo de reivindicar, promover ou cobrar respeito aos direitos fundamentais da pessoa humana; se torna militância, em um sentido pejorativo. Todo discurso pelos excluídos e marginalizados é chamado agora de narrativa, no desejo de desdenhar a luta pelos vulneráveis. Ora, antes de mais nada, o desejo destes grupos, dos movimentos populares e até mesmo das pastorais, é defender a pessoa humana. A comunidade dos LGBTQIAPN+ é formada de seres humanos, filhos e filhas de Deus. A todos e todas é reservado o direito à cidadania.

E que fique claro: não pretendo aqui questionar o pecado ou ausência dele. Nem mesmo defender ou condenar as uniões homoafetivas. Nossa reflexão, como certa vez se expressou Thomas Merton, é de um expectador culpado. Culpado por ver de forma legalista, o que deveria ser visto com amor. Culpado por se calar diante de tantas agressões que testemunhamos ao nosso redor, maltratando as pessoas homossexuais. E pior: achar que tudo é normal, em nome de uma apologética da Sã Doutrina. A presença do pecado, não justifica pecar igualmente em represália. Quando nos dirigimos a seres humanos de forma excludente, marginalizante, agressiva; contrapomos o modelo de relações que nos foi proposto por Jesus. Todo ato de desamor é pecado gravíssimo, que clama aos Céus. O mandamento supremo que nos propõe Jesus é o amor, conforme podemos ver em Jo 13,34. Amar, sem limites. Sem condicionais. E um amor verdadeiro não exclui, marginaliza, machuca, mata. Ao contrário: acolhe, integra, edifica e promove a vida.

Neste sentido, não haveria militância LGBTQIAPN+ se a sociedade e as Igrejas não lhes negassem a dignidade humana e o selo da graça que se lhes foram impressos, enquanto filhos e filhas de Deus. Nossa moral – cheirando a moralismo -, nossa vaidade e arrogância, pelas quais nos outorgamos o papel de juiz; não anulam o sacrifício soteriológico de Jesus, pelo qual, todos e todas se tornaram filhos e filhas do Altíssimo. “De tal modo Deus amou o mundo, que deu o seu Filho Unigênito, para que quem nele crer, não pereça, mas tenha a vida eterna, pois Deus enviou seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por meio dele” (Jo 3,16-17). Que entendamos bem! Jesus veio para amar e não condenar. Que façamos o mesmo!


Deixe um comentário

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑