No Caminho do Crucificado

Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna. De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele.”
(Jo 3,17)

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Nossa caminhada pelo Ano Litúrgico nos propõe uma parada. No caminho catequético do Tempo Comum, somos chamados a parar e contemplar a fonte de nossa fé: a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, o Amor que não é amado. Nesta 24ª Semana do Tempo Comum, o Domingo é dedicado a celebrar a Exaltação da Santa Cruz. Esta festa é o pungir de nosso coração pela gratidão que temos por Jesus ter tomado sobre si nossas dores. Somos feridos pelo sinal sacrificial de Jesus. Como que por uma tatuagem, somos marcados por seu amor. Amor de Cruz. O Profeta Isaías nos aponta assertivamente o sentido real da Paixão de Cristo. “…Ele assumiu as nossas fraquezas, e as nossas dores, ele as superou. (…) Ele foi ferido por causa de nossas iniquidades, esmagado por causa de nossos crimes. O castigo que nos dá a paz caiu sobre ele, por seus ferimentos fomos curados” (Is 53,4a. 5). Jesus entregou sua vida, para que cada um de nós possa ter vida em plenitude.

No Evangelho da Liturgia, em sua versão mais longa  (Jo 3,13-17), Jesus explica a Nicodemos que todo o mistério messiânico se concentra na doação da vida daquele que foi enviado para curar a humanidade. O evangelho joanino fala do sacrifício pascal. Da morte que gera vida. Para bem ilustrar sua disposição de atender ao Pai, dando-se em sacrifício, interliga toda a história da salvação. A referência a Nm 21,7-9 aponta Moisés como intermediador da reconciliação e da restauração da vida. Ao citar a serpente suspensa, ele mostra que seu Pai sempre foi o Deus da Vida que, atendendo às suplicas dos que se acham atribulados, não só atende estas súplicas, como também promove sua plenitude na existência humana. Este é o Deus do amor que restaura a vida. Antes anunciado pelos profetas, agora – conforme nos informa o evangelho joanino – presente em Jesus, o Filho de Deus, Verbo Encarnado. Tanto o é que a carta aos Filipenses nos afirma: “Jesus Cristo, existindo em condição divina, não fez do ser igual a Deus uma usurpação, mas ele esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e tornando-se igual aos homens. Encontrado com aspecto humano, humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz” (Fl 2,6-7). Jesus confirma, em sua vida e missão, a opção radical de amor do seu Pai pela humanidade. O Evangelho de João contempla todo este mistério afirmando: “Pois Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16).

Feita a devida interligação das leituras bíblicas na Liturgia da Festa da Exaltação da Santa Cruz, podemos nos perguntar agora qual o sentido histórico da morte de Jesus e quais seriam as implicações, também históricas, de sua Paixão em nossas vidas. Os textos do Evangelho de João e da Carta aos Filipenses, nos falam do Sacrifício Pascal como mistério soteriológico, ou seja, meio pelo qual se deu a salvação. Daí, faz-se imperativo perguntar: Salvação de que e para que?

Para falar do Sacrifício Pascal, é preciso conhecer Jesus e seu sacrifício soteriológico, entendendo em profundidade o contexto, no qual, viveu e morreu. Como se deu a condenação e morte de Jesus.

Muitos dos que hoje contemplam a Cruz, ou se dedicam a dela falar e de seus significados, tendem a uma teologia do medo, ou – conforme podemos ver nos retrocessos teológicos e pastorais de nossos tempos – concentram-se na moral, cheirando ao moralismo, quando se fala de salvação e perdão dos pecados. Claro que toda cristologia nos introduz na soteriologia. Inegavelmente, Jesus Cristo é nosso salvador. Todavia, precisamos entender que a ideia de salvação vai bem além do que muitos conseguem contemplar. Não se trata de uma teologia da pureza e sim uma teologia da plenitude. Da mesma forma que a morte de Jesus se deu dentro de um contexto social, econômico, religioso e político; nossa redenção tem estas mesmas implicações. Pelo Sacrifício Pascal de Jesus, nossas vidas devem ser transformadas também de forma política, econômica, social e religiosa. A opressão em que vivia o povo no tempo de Jesus não é diferente da que muitos líderes políticos e religiosos tentam nos impor. O Império Romano colonizou todo o mundo conhecido, (oikoumene | οικουμένη), por meio da espada. Muito sangue foi derramado para que cada lugar habitado obedecesse e pagasse tributos à Roma. Para viver, era preciso que se renunciasse à liberdade e se colocasse em estado de subserviência. A Pax Romana nada mais era do que uma forma satírica e hipócrita de se dizer “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. E quando os ânimos se exaltavam, um pouco de diversão era oportuno, instaurando a política do Pão e do Circo, relegando vidas humanas a viver como gado, destinado silenciosamente ao abate. E quando pão e circo não resultava em alienação e subserviência, a espada calava qualquer tipo de insurreição.

A religião do tempo de Jesus, representada pelos saduceus, sacerdotes e fariseus; não contestava declaradamente a opressão estrangeira. Mesmo sentindo na pele a dor causada pela ocupação romana, também era instrumento de opressão. A religião que deveria ser fonte de consolação e inspiração à resistência dos pequeninos, diante da opressão romana, igualmente oprimia por seus dogmas, que sustentavam a exploração e – com isso – o tesouro do Templo e as mordomias que tudo isso favorecia.

Jesus, como o Messias esperado, morreu porque ameaçou os poderes estabelecidos em seu tempo, anunciando a Boa Nova, que propunha um Reino de Liberdade e Vida Plena para todos e todas. O que isso tem a nos dizer?

Assim como o povo vivia sob a violência e a exploração do Império Romano, em nossos tempos vemos surgir novos imperadores, que querem manter o mundo sob seu domínio. Se antes tinham a espada, hoje têm suas máquinas de guerra, seus caças-bombardeiros, seus navios, suas bombas de destruição em massa. Com isso, matam pelo poder, pela exploração das riquezas, pela vaidade. Inegavelmente, vemos a face do Império Romano vestida como máscara pelos líderes das nações delirantes, viciadas no totalitarismo. Donald Trump, Vladimir Putin, Benjamin Netanyahu são exemplos de líderes que personificam hoje o que foram antes os césares romanos. Pela ambição, pelo delírio causado pelo vício no poder e por autorreferencialidade – atribuindo-se papéis de onipotência divina, na mais vil manifestação de idolatria – matam, oprimem, exploram, chantageiam. Constroem a história segundo seus ideais. Estão tão convencidos de seu totalitarismo, que sequer se incomodam com as mortes que causam. Muitas vezes, morte de crianças. Para eles, tudo vale para atingir aos objetivos. Por isso, matam! Pelas armas e até mesmo pela fome. Afinal, a paz, a solidariedade e a partilha não são bons negócios. E, ao contrário do que muitos religiosos dizem, o Evangelho de Jesus não concorda com esses césares de nosso tempo. Se Jesus viesse agora, clamando por paz, justiça, solidariedade e partilha; seria condenado por Trump, Putin e Netanyahu – assim como – também por seus apoiadores no mundo inteiro. O Messias condenado pelo Império Romano – sob a influência do sinédrio e dos fariseus – seria hoje sancionado, perseguido, morto. Jesus, vítima de conspiração e morte em seu tempo, sofreria as mesmas atrocidades hoje, porque o mundo não aprendeu nada com Jesus. Solidariedade, partilha, justiça e paz não estão em pauta. Contradizem a ganância, o poder e a vaidade. Jesus é o Amor que não é amado, como nos disse São Francisco de Assis.

Celebrar a Exaltação da Santa Cruz é sinal de gratidão e esperança. A esperança é um ato de teimosia e resistência. Somos tentados a nos deixar impressionar pelos sofrimentos. Não se trata de pessimismo. É fragilidade humana, mesmo. Daí, ficamos sentados às margens dos caminhos sem seguir a diante, pensando que nosso caminhar é infrutífero. Que não leva a lugar algum. Todavia, tudo é movimento, tudo muda, tudo se transforma.

Em Jesus somos convidados a tomar a cruz e seguir. Nossa missão é sempre ter como referência o Mestre. Em Lc 4,16-20, Jesus apresenta seu programa messiânico, sua razão de ser e de agir. Evangelizar os pobres, proclamar a libertação aos cativos, abrir os olhos das cegueiras físicas e existenciais, confrontar a opressão com o projeto libertador do Reino, e anunciar o Ano da Graça do Senhor; quando toda forma de submissão, cativeiro, sofrimento e tristeza tem fim. Em Jesus temos uma proposta muito concreta de mudança. É reconstruir vidas a partir da ação evangelizadora. Trata-se de algo muito concreto. É mudança real e não somente conceitual. Portanto, devemos ter esperança de que em Cristo, poderemos ser novas criaturas, ou seja, filhos e filhas de Deus. E este Paizinho amado, este Abba, não quer seus filhos e filhas famintos, desabrigados, em situação de cárcere físico ou existencial, tendo seus Direitos Fundamentais, enquanto seres humanos, desrespeitados. Estes são os crucificados pela história.

Não podemos nos esquecer de que evangelizar tem implicações concretas e não somente espirituais. É preciso quebrar as correntes do sofrimento e, com esperança e teimosia, promover a vida em plenitude. Portanto, conforme Jesus disse: “levanta-se e ande!” (cf. Jo 5,8-10). Precisamos nos libertar da paralisia do medo, do desânimo, da tibieza. Nossa vocação cristã é, antes de tudo, libertadora e missionária. Nosso ideal é a Cruz! Nela foi suspensa a libertação, Jesus Cristo, nosso Senhor!


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