Deus vem ao nosso encontro

Por Yuri Lamounier Mombrini Lira

Vimos que Jesus é um Deus oniabraçante: um Deus que nos abraça! Jesus é esse Deus que nos busca, que nos procura. Um Deus que deseja sempre nos encontrar. Frei Patrício Sciadini, frade carmelita descalço, ajuda a meditar sobre a beleza do encontro com Jesus Cristo.

O perder-se em Deus é mergulhar-se no mistério, é ir se identificando com Deus, é deixar-se amar e absorver totalmente por ele. Nada é mais profundo e fascinante do que o lançar-se na aventura de buscar Deus, de buscar o rosto de Deus, de viver exclamando: Conhecia-te só de ouvido, mas agora viram-te meus olhos1.

Cada pessoa, no decorrer de sua jornada, vivencia essa aventura de procurar a Deus e descobrir quem ele é. Cada qual o faz à sua maneira. Cada um vai ao encontro de Deus, mas não podemos nos esquecer de que é Ele que toma a iniciativa de diariamente vir ao nosso encontro. O evangelista João escreveu numa de suas cartas algo que nos ajuda a compreender melhor esse mistério. Diz ele: “Nós amamos, porque Deus nos amou por primeiro (1Jo 4,19). Parafraseando o Discípulo amado, poderíamos dizer: “Nós procuramos Deus, porque ele nos procurou primeiro”; ou ainda, “Nós encontramos Deus, porque ele nos encontrou primeiro”.


No livro de Gênesis, no relato mitológico das origens, depois que o primeiro homem e a primeira mulher quebram o seu acordo com Deus, eles ficam envergonhados e se escondem. O escritor sagrado, muito sutil, diz que Deus passeava pelo Jardim do Paraíso à procura de Adão. Enquanto andava pelo jardim o Senhor ia gritando: “Adão, onde estás?” (Gn 3,9). Esse grito foi ecoando: “Onde estás? Onde estás? Onde estás?”. Muito envergonhado, Adão respondeu a Deus: “Estou aqui!” e completou sua resposta com inúmeras desculpas e justificativas.


Em um outro texto do livro de Gênesis, vemos que, por ciúmes, Caim matou seu irmão Abel. Deus também dirige uma pergunta a Caim: “O Senhor perguntou a Caim: ‘Onde está Abel, teu irmão?’. E, ele respondeu: ‘Não sei; sou eu por ventura guarda do meu irmão?’” (Gn 4,9). O Papa Francisco lembra que essa é uma pergunta “constrangedora e incômoda”. Afirma: “muitas são as respostas: é sua vida, eu a respeito, mas lavo as mãos, não intrometo na vida dos outros…”2.


Entretanto, não é apenas Deus que nos faz perguntas. Nós também o interrogamos: “Senhor, onde estás?”. Inúmeras vezes nós também bradamos a Deus e parece que ele se esconde de nós. Retóricas e poéticas são as palavras de Castro Alves no seu famoso poema Vozes D’Àfrica: “Deus, ó Deus, onde estás que não me respondes? Em que astro, em que lua Tu te escondes?”3. Parece que este é um grito entalado em nossa garganta há muito tempo: “Onde estás, Senhor?”


Como lembra José Tolentino Mendonça, no seu livro Elogio da sede:

Deus sabe que estamos aqui. Onde quer que existencialmente estejamos, Ele sabe encontrar-nos e reencontrar-nos. Deus sabe reconhecer nossos frágeis passos de algodão, os intermináveis corredores solitários onde a noite nos persegue, o medo que a certas horas se lê nos nossos olhos desamparados. Deus sabe. Deus sabe decifrar o fio de voz que nos falha quando temos de dizermo-nos, e sabe recolher com amor cada uma das palavras que deixamos em silêncio4.

Na verdade, mais do que desejar saber geograficamente onde estamos, Deus quer saber existencialmente onde cada um de nós se encontra. Em nossa caminhada de fé, onde estamos? É verdade que estamos aqui com os pés fincados no chão, mas onde está nosso coração? O que buscamos? Ou melhor, a quem queremos buscar e encontrar?


Deus sabe que estamos aqui! Aonde quer que estejamos, Deus sabe onde e como estamos. Ele conhece nossas angústias, alegrias, dores, esperanças, nossos esforços e sonhos. O Senhor sabe que, no fundo de nosso coração, existe um grande desejo de encontrá-lo. Nossa alma tem sede de Deus, como rezamos no Salmo 63,2: “Ó Deus, tu és o meu Deus, desde a aurora eu te busco. Minha alma tem sede de ti. Por ti deseja minha carne”.


Muitas vezes, ficamos pensando qual seria o melhor lugar do mundo e podemos concluir como a filósofa Lúcia Helena Galvão: “Qual o melhor lugar do mundo? O lugar onde estou agora. Procurar dar o meu melhor onde eu estiver! Você deve perder o seu coração todos os dias, depois ir ao encontro dele. Descobrir que seu coração está em todas as coisas. Estar inteiro! Não nos cansamos quando estamos com o coração em algo”5.


O melhor lugar é o lugar em que nos encontramos agora. Se estivermos em casa, estejamos inteiramente em nossa casa. Se estivermos com nossos amigos, estejamos plenamente na presença de nossos amigos. Se nos encontramos na Igreja, vamos viver intensamente nossa experiência de oração. Precisamos “aprender a estar”. José Tolentino Mendonça constata: “Deixamos de estar e de saber estar. No melhor dos casos, vamos estando, flutuantes, esporádicos, desancorados, vagos”6. Saber estar é um desafio para nós, principalmente com o avanço da tecnologia e o aumento dos aparelhos de celular. Tolentino, observando o impacto do celular e outros dispositivos eletrônicos em nosso cotidiano, faz uma observação interessante: “Quando chamávamos para um telefone fixo, era normal perguntar: ‘Quem fala?’ […] Com a proliferação dos celulares, deixamos de usar o retórico ‘quem fala?’, e a pergunta mais frequente é ‘onde você está?’”. Na aparente simplicidade dessa pergunta, podemos perceber que houve uma mudança na maneira como nos relacionamos com o espaço e o tempo.


Os celulares e a internet têm a capacidade de nos conectar com quem está a quilômetros de distância de nós; entretanto, podem nos desconectar de quem está próximo geograficamente de nós. Constata-se com tristeza que, muitas vezes, não estamos inteiramente nos lugares onde estamos fisicamente. Às vezes, estamos assentados com alguém na mesma mesa de nossa casa, mas não lhe damos atenção. Maicon Malacarne nos alerta: “os famigerados smartphones, que nos colocam à mesa sem estarmos à mesa, que fazem os dedos e as telas mais importantes que o diálogo, os olhares e o silêncio da mesa […]”7.


Seria bom a gente se perguntar: “Como é a nossa presença nos lugares onde estamos; será que sabemos realmente estar presentes?”. No tempo de seminário, quando eu ia para o estágio pastoral, era muito comum surgir alguma atividade que não estava na programação e então o padre falava assim: “Marca presença lá!”. Naquele tempo, eu achava essa expressão utilizada por ele muito engraçada e, em alguns momentos, parecia-me até cansativa. Eu pensava: “Será que é necessário mesmo marcar presença nesses lugares?”. Só depois de muito tempo é que compreendi a profundidade dessa expressão e seu verdadeiro significado. Marcar presença significa ter essa disposição para estar realmente inteiro na vida das pessoas, ou seja, simplesmente estar!


O Papa Francisco numa de suas homilias afirma: “O lugar do cristão é o mundo para anunciar a Palavra de Jesus, para anunciar que fomos salvos, que Ele veio para nos dar a graça, para nos levar todos com Ele diante do Pai”8. Nosso lugar é o mundo, onde estão os irmãos e as irmãs à procura de vida. E lá onde estão nossos irmãos e nossas irmãs, o próprio Cristo está presente.


Percorrendo as páginas dos Evangelhos, poderemos ver os muitos lugares nos quais nos encontraremos com Jesus. Cristo está na manjedoura de palhas em Belém, na beira do mar da Galileia com Pedro, André, Tiago e João, à beira do poço com a samaritana. Jesus também está com Zaqueu e com a multidão faminta de palavra e de pão.


Ele estará sempre com cada um de nós. Como lemos nos Evangelhos, Zaqueu estava no alto de uma árvore, a samaritana se encontrava à beira do poço de Sicar, os primeiros apóstolos estavam na praia, a multidão estava no deserto… Como é bonito perceber que cada pessoa tem o lugar de seu encontro pessoal com Jesus Cristo.


Relembrando esses encontros descritos no Evangelho, pensamos no encontro ou nos encontros que já vivemos com Jesus, pois, como diz o Papa Francisco, “do verdadeiro encontro com Jesus nunca se esquece”9.


Nossa vida é uma aventura de fé, vivemos à procura de Deus e, por outro lado, também o Senhor está sempre à procura de cada um de nós. Antes mesmo de nós o procurarmos, Ele já estava à nossa procura.Recordemos das parábolas da misericórdia descritas por Lucas no capítulo 15 de seu Evangelho. Três pequenas histórias fascinantes contadas por Jesus: a ovelha perdida, a moeda perdida e o pai misericordioso com seus dois filhos. Deus continua a nos perguntar: “Onde estás?”. Ele não só pergunta, mas também nos procura, como o pastor em busca da ovelha desgarrada, como a mulher à procura da moeda que sumiu, ou o pai que sai ao encontro do filho perdido. Deus sempre quer fazer um encontro conosco. 


Há momentos da vida em que sentimos a presença de Deus de uma maneira tão intensa que sequer conseguimos descrever o que sentimos. Por isso, é preciso estar sempre atentos para que possamos reconhecer sua presença quando o encontrarmos pelas estradas da vida. Podemos dizer que o verdadeiro encontro com Cristo acontece por meio de mediações Primeiro, Ele pode e deve ser encontrado no rosto do outro. No andarilho que deseja receber mais do que nossa esmola, mas precisa também é de nossa atenção e do reconhecimento da dignidade; na criança que sorri e brinca despreocupada; no idoso que caminha devagar carregando a experiência dos muitos anos de vida.


Ele pode ser encontrado também na comunidade eclesial, na comunidade que celebra os sacramentos, nas páginas da Sagrada Escritura, na oração etc. 


O Cristo pode e deve ser encontrado no nosso interior, no mais profundo de nós, na nossa consciência. É no coração do ser humano que Deus habita, por isso, o outro o revela a nós. 
São muito conhecidos os versos de Agostinho de Hipona, em sua obra Confissões

Tarde te amei! Tarde te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova! Tarde te amei! Eis que estava dentro, e eu, fora – e fora te buscava, e me lançava, disforme e nada belo, perante a beleza de tudo e de todos que criastes. Estavas comigo, e eu não estava Contigo… Seguravam-me longe de ti as coisas que não existiriam senão em ti. Chamaste, clamaste por mim e rompeste a minha surdez. Brilhaste, resplandeceste, e a tua luz afugentou minha cegueira. Exalaste o teu perfume e, respirando-o, suspirei por ti, te desejei. Eu te saboreei e, agora, tenho fome e sede de ti. Tocaste-me e agora ardo em desejos por tua paz10.

Pode acontecer que cada um de nós viva uma experiência semelhante a de Santo Agostinho e busquemos ao Deus amoroso e bom fora de nós, sendo que, na verdade, é dentro de nós que ele mora. É dentro de nós, no íntimo de nosso coração, que podemos encontrar a presença de Jesus. O encontro com Jesus nos traz a paz, a verdadeira paz. Quando nos encontramos com Jesus, nossa vida é transformada.


Jesus deseja sempre se encontrar conosco. E nós? Estamos indo ao seu encontro? Podemos viver nosso encontro com Jesus na leitura de sua Palavra, na participação da Eucaristia, através de nossas orações, mas – como já dissemos – é na pessoa humana que ele reside, especialmente na pessoa do pobre. Podemos viver nosso encontro com Cristo nos encontros com cada pessoa. 


Há um exercício das Oficinas de Oração e Vida, que nos orienta a nos perguntarmos nas diversas situações da vida: “O que Jesus faria se ele estivesse no meu lugar? O que Jesus falaria? Quais seriam os gestos, as atitudes nesta situação?”. O encontro com Jesus precisa nos transformar em pessoas melhores. Afinal, nossa meta não é ser melhor do que ninguém, mas sim, ser melhor do que nós próprios. O encontro com Jesus de Nazaré possibilita que isso aconteça. Ao nos encontrarmos com Jesus, podemos nos transformar em pessoas melhores.


1  SCIADINI, Patrício. Eu te amo, não tenhas medo. 4. ed. São Paulo: Loyola, 1997. p. 27.

2 FRANCISCO, Papa. Meditações matutinas na Santa Missa celebrada na Capela da Casa Santa Marta. Respostas de circunstância a perguntas constrangedoras. Segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019. Disponível em:  https://www.vatican.va/content/francesco/pt/cotidie/2019/documents/papa-frances-co-cotidie_20190218_circunstancias.html . Acesso em: 18 fev. 2019.

3 GOMES, Eugênio (org). Castro Alves poesia. 2 ed. Rio de Janeiro: Agir, 1963. p. 89.

4 MENDONÇA, José Tolentino. Elogio da sede. São Paulo: Paulinas, 2018. p. 23-24.

5 PODCAST 196: Jornada da Calma. A voz do silêncio. Entrevistadora: Helena Galante. Entrevistada: Lúcia Helena Galvão. São Paulo: Veja São Paulo, 12 mar. 2023. Podcast. Disponível em: https://vejasp.abril.com.br/cultura-lazer/jornada-da-calma-a-voz-do-silencio-com-lucia-helena-galvao/. Acesso em: 01 fev.2025.

6 MENDONÇA, José Tolentino. Pai nosso que estais na terra: o Pai-Nosso aberto a crentes e a não crentes. São Paulo: Paulinas, 2014. p. 51.

7 MALACARNE, Maicon André. No princípio, o Verbo. São Paulo: Loyola, 2024. p. 39.

8 FRANCISCO, Papa. Meditações matutinas na Santa Missa celebrada na Capela da Casa Santa Marta. Topografia do espírito. Sexta-feira, 26 de maio de 2017. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/cotidie/2017/documents/papa-francesco-cotidie_20170526_topografia-do-espirito.html. Acesso em: 29 jan. 2025.

9 FRANCISCO, Papa. O verdadeiro encontro com Jesus nunca se esquece. Disponível em: https:// http://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2021-01/papa-francisco-angelus-17-janeiro-2021.html. Angelus, 17 jan.2021. Acesso em: 03 nov. 2024.

10  CONFISSÕES X, 29. In: AGOSTINHO, Santo, Bispo de Hipona. Confissões. São Paulo: Paulus, 1994.

Colaborou: Fique Firme


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