O Pai-Nosso como catequese do Bem Viver

Por Karina Moreti

Muito já se falou sobre a Oração do Senhor. Muito ainda há que se dizer.

Em Lucas, observamos a oração do Pai-Nosso em uma forma mais breve que em Mateus (Mt 6,9-13), o qual está inserido no Sermão da Montanha. No trecho do Evangelho de Lucas (Lc 11,1-4), Jesus ensina a oração durante seu caminho para Jerusalém. Sua forma de orar é um caminho, um projeto que empenha toda a vida do cristão, não como uma fórmula propriamente. Trata-se de uma Catequese. Jesus, em breves sentenças, sintetiza seu projeto de vida e ensina este Bem Viver aos seu discípulos. Um projeto que gira em torno de duas realidades:


1) Deus, cujo nome devemos santificar através de obras e palavras, e seu Reino, cuja chegada precisamos preparar também com nossas obras, com nossa mudança de mentalidade para que se veja e se sinta realmente entre nós. O Reino é de Deus, mas deve ser participado por todos nós.


2) O próximo, com quem – e por quem – nos comprometemos a lutar pela justiça, para que tudo o que Deus criou: os bens da Criação (bens materiais e imateriais), os bens da cultura, da ciência e da tecnologia; sejam verdadeiramente para todos, a cada dia. O próximo, com quem podem surgir atritos, diferenças, confrontos e contradições; são para nós o maior desafio. Nossas relações só podem ser realmente evangélicas, quando investimos nelas todos os valores por Jesus sublinhados, como fundamentais. Portanto, perdoar é sair de si mesmo e ir em direção ao outro. É mais do que relevar a mágoa, é transcender o outro pelo perdão. Com palavras e ações, Jesus testemunha a sacralidade do perdão. Até conta algumas parábolas, com as quais, aponta nossa intimidade com seu Pai, quando – assim como ele – restauramos vidas pela misericórdia. Já disse, mas vale sublinhar: perdoar não é meramente relevar mágoas, é agir com misericórdia. Pela misericórdia se identifica – de fato – quem ama, e – com isso – marca-se a identidade de Deus em nós. Misericórdia e perdão são sinais claros de nossa intimidade com Deus.

Finalmente, é necessário que estejamos muito atentos porque neste projeto de vida cristã, que é o Pai-Nosso, o imediatismo é contraproducente. A inconstância, a fadiga, o desânimo, o não ver imediatamente os frutos do trabalho diário, a realidade das forças do egoísmo, a cobiça e o mal que – com tanta facilidade destroem os pequenos ganhos que se vão obtendo; são tentações constates para abandonar tudo. Daí, de vez em quando, com muita facilidade se passa para o que em definitivo podemos vislumbrar ao nosso redor: a transformação do projeto de vida (o Pai-Nosso), em uma fórmula que se repete, mas que não transforma, tornando-se uma oração infrutífera. A oração não pode se perder em palavras. Aponta o caminho à frente. Ao contrário, se torna recitação, murmúrio vazio. O Pai-Nosso é uma Catequese do Bem Viver. E a catequese, em si, nos abre um caminho à frente: o seguimento de Jesus.

É como diziam os antigos: “fé em Deus e pé na tábua!


Sobre a autora

Karina Moreti: é bacharel em Teologia pela Universidade Católica Dom Bosco (2022) e em Comunicação Social – Jornalismo, pelo Centro Universitário Sagrado Coração (2007). Atualmente é jornalista do Blog Eclesialidade & Missão, e assessora movimentos eclesiais. Tem experiência na área de jornalismo impresso, jornalismo televisivo, jornalismo radiofônico e em jornalismo nas redes sociais e blogs. Em teologia, dedica-se ao estudo das Sagradas Escrituras.

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