Por Karina Moreti
Em tempos nos quais as vocações para o seguimento de Jesus se fazem descontextualizadas da realidade, é imperativo que voltemos à Palavra de Deus e, por ela, iluminemos nossos sentimentos e nosso pensar. Não são raras as manifestações religiosas, pelas quais, percebemos certo anacronismo. O medieval nunca foi tão pós-contemporâneo. Há erro nisso? Sim, há! Conforme podemos ver pelo Magistério Pontifício (sobretudo, após o Concílio Vaticano II) e pelas Diretrizes para a Ação Evangelizadora da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a missão primeira da Igreja é Evangelizar. E este anúncio do Evangelho deve estar concomitante com as Culturas e com o Tempo. O que se conclui: nossa evangelização só é realmente eficaz quando inculturada, ou – pelo menos – coerente com nossos tempos. Haja vista que o próprio Jesus, ao manifestar seu programa messiânico, o faz pelo texto de Isaías 61. Todavia, adaptando-o à realidade de seu tempo. O Evangelho Lucano (Lc 4,16ss) coloca Jesus na sinagoga, lendo o profeta Isaías, omitindo alguns versículos, os quais eram intimamente ligados ao contexto do Exílio da Babilônia (586 a 538 aC) e não à ocupação Romana (63 aC – 476 dC) – contexto do Evangelho.
Ao olhar em nosso redor, vemos uma multidão de Comunidades de Vida (o novo jeito de ser da Vida Religiosa Consagrada) que resgata valores já abandonados, dada sua desnecessidade em nosso tempo. Uma multidão de hábitos religiosos (vestes talares), costumes autoritários e subservientes (deturpando o real sentido do voto de obediência) e – pasmem – a volta da tonsura, corte de cabelo com uma auréola angélica, que muitos de nós sequer chegamos a ver em uso. Isto significa arroubo saudosista pelo retrocesso. Se fossem manifestações meramente estéticas, poderiam ser espetáculos de esquisitice, sem qualquer dolo à dinâmica do caminhar da Igreja. Todavia, o que temos é o boicote da Igreja inserida na realidade, transformando a história ao bem do Direito e da Justiça. O ultraconservadorismo promove uma Igreja que afasta-se do seguimento de Jesus, apegando-se à ideia já superada de cristandade. Aqui vale o convite: como entender os atuais erros e ir ao encontro de soluções sanativas eficazes? Estou plenamente convencida de que indo à Palavra de Deus, com uma leitura exegética profunda e uma hermenêutica sincera, podemos constatar que o próprio Deus se revela a partir de um contexto histórico específico. Nem Iahweh é anacrônico! Quanto mais poderíamos nós, Igreja missionária e samaritana, sê-lo.
Neste sentido, irei publicar uma série de reflexões, tratando de personagens bíblicos e seus contextos, no desejo de comprovar que nosso Deus se inter-relaciona com seu povo sempre dentro de um contexto específico. Iremos também perceber que este contexto é sempre de opressão, no qual Iahweh escolhe o lado dos oprimidos. Nosso Deus é um Deus de Libertação, portanto, toda forma de religião que não se compromete com a dignidade e a vida é idolatria, como nos informa Maria Antônia Marques, nossa querida Toninha, do Centro Bíblico Verbo.
Iniciemos nossa jornada bíblica com Abraão:
“Iaweh disse a Abraão: ‘sai de sua terra, do meio de seus parentes, da casa de seu pai, e vá para a terra que eu lhe mostrarei. Vou fazer de você uma grande nação e abençoá-lo. Engrandecerei seu nome. Seja uma benção! Abençoarei quem abençoar você e amaldiçoarei aqueles que o amaldiçoarem. Em você, todos os clãs deste solo serão abençoados’.” (Gn 12,1-3).
Mesmo por uma leitura despretensiosa deste texto, é inegável a percepção de que se trata de uma benção e uma promessa. Mas quem foi Abraão? Em que terra ele estava? Por que se justifica sua saída de junto a seus familiares, sua gente?
Em Gn 14,13, Abraão é chamado de “o hebreu”. Quem está acostumado com as imagens que o retratam – iconografia poética, muitas vezes – pode pensar que seu olhar altivo, suas barbas longas presentes na litografia, retratem alguém que gozava do prestígio e valor na sociedade de seu tempo. Ledo engano! Em verdade, o título de “o hebreu”, trazia em si um significado revestido de xenofobia e marginalização.
A raiz desse vocábulo é (yvrin) que significa “parte/margem”. Hebreu significaria, portanto, alguém que advém de outra parte, da outra margem. Assim, ao chamar alguém de hebreu, no contexto de Abraão, significa deixar claro que é aquele que não faz parte de sua gente. Ainda mais: tratava-se de alguém que se ocupava de rebanhos. Não na condição de latifundiário, proprietário de terras, mas daquele que migrava de terra em terra, em busca de pastagem para seu rebanho e, consequentemente, lutando pelo sustento de sua família de léu em léu. Neste sentido, podemos identificar a forma com que os povos seminômades eram vistos tais quais – ainda hoje – ciganos e trabalhadores sem terra são vistos. Gente sem nome, sem terra, sem raízes, sem eira nem beira.
Quando do chamado de Abraão em Gn 12,1-3, este se encontrava em Ur, terra dos Caldeus, no sul da Mesopotâmia. Aos olhos dos povos mesopotâmicos, onde se encontrava Abraão, denominar alguém como hebreu também era uma forma de dizer que este era indesejado, indigno, marginal. Sendo Abraão o indesejado pelos “bem-nascidos”, os estabelecidos na terra; Iahweh – por volta de 1850 a.C. – exorta-lhe a deixar aquela terra, com destino à Canaã, a antiga denominação da região correspondente à Israel hoje. E a promessa de Iahweh é antônima à forma com que este, o marginalizado, era visto. “Vou fazer de você uma grande nação e abençoá-lo” (Gn 12,2). Aquele que era marginalizado, excluído; se tornará grande, pai de um numeroso povo. Excelente em número e dignidade. O Povo de Deus!
A história extra-bíblica também nos informa que no tempo quando Abraão deixa Ur, uma grande calamidade acontecia naquela região. O nascimento do Primeiro Império Babilônico se deu por muito derramamento de sangue. Neste sentido, podemos perceber que a vocação de Abraão também consiste em uma forma de preservá-lo, e à sua gente, de grande sofrimento por guerras e opressões, características da construção de impérios. Na busca por riqueza e poder, sempre caminham juntas a violência e a morte. O apogeu dos Amoritas, constituindo o Primeiro Império Babilônico plasmado desde os anos 1900 a.C., está manchado de sangue e lágrimas. Todavia, Iahweh escolheu Abraão para edificar seu povo longe dali, em Canaã, preferindo o mais indigno dos homens aos olhos dos gananciosos, como predileto no seu coração.
Abraão vai para Canaã. Seu coração dócil à vontade de Iahweh se torna testemunho de confiança em Deus e atenção aos seus caminhos. Em consequência da sua fé na Palavra de Iahweh, de fato, o nome de Abraão jamais será esquecido. Do marginalizado ao patriarca, do excluído ao predileto; Abraão aflora em nós a certeza de que Iahweh é Deus dos pobres e sofredores. “O Senhor dos que combatem é conosco, está com a gente, ele é nossa fortaleza, é o Deus que nos defende!” (Sl 46). Não obstante nossa pequenez, ele está conosco em nossos sofrimentos. Sendo agente de libertação, consolo na dor, esperança futura.
Voltando ao início de nossa reflexão, podemos perceber que na Vocação de Abraão está todo um contexto social, econômico e político. É nesta tríade da história que Iahweh se manifesta. Nosso Deus se revela na história, transformando-a e ressignificando-a. Neste sentido, qualquer anacronismo é doloso, quando se refere ao viver religioso, em nossas comunidades eclesiais. Tudo o que não concorre com a história, deforma-a. Tudo o que não está no contexto, se torna pretexto. Este era o erro dos fariseus. Eram estes que se apegavam de forma engessada à tradição, exaltavam a importância das vestes, e queriam ser vistos como diferentes da ralé pecadora. Tanto o é que a palavra fariseu significa em sua raiz mais fiel, os separados. Daí vale a provocação: de que lado estamos? Do lado de Jesus ou dos fariseus?
Sobre a autora

Karina Moreti: é bacharel em Teologia pela Universidade Católica Dom Bosco (2022) e em Comunicação Social – Jornalismo, pelo Centro Universitário Sagrado Coração (2007). Atualmente é jornalista do Blog Eclesialidade & Missão, e assessora movimentos eclesiais. Tem experiência na área de jornalismo impresso, jornalismo televisivo, jornalismo radiofônico e em jornalismo nas redes sociais e blogs. Em teologia, dedica-se ao estudo das Sagradas Escrituras.