Todo amor excessivo às riquezas é idolatria!

Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro
(Lc 16,13)

Por Pe. Hermes A. Fernandes

O Evangelho do 25º Domingo do Tempo Comum está no bloco dos dez capítulos que compreendem a viagem de Jesus com seus discípulos à Jerusalém. A partir do capítulo 9 de Lucas, mais precisamente depois do versículo 51, Jesus inicia sua jornada para Jerusalém. Uma longa caminhada da periferia para o centro, da Galileia para a Capital do poder religioso e político, Jerusalém. Esta jornada se configura como a parte mais original de seu Evangelho, que lhe consagra dez capítulos (9,51 a 19,28). Os sinóticos tratam desta jornada de forma mais sucinta. Marcos ocupa um capítulo de seu Evangelho e Mateus dois. O sentido do relato desta viagem é tratar das implicações da morte de Jesus, como consequência de seu compromisso com as causas dos pequeninos, vítimas da opressão romana e do judaísmo normativo. Esta é a viagem da libertação que tem seu ápice e significado em Lc 23,46. Para seus discípulos, foi oportunidade de uma grande catequese, quando se teve maior intimidade com a pessoa de Jesus e com sua missão. Afinal, também eles serão responsáveis pela continuidade do anúncio da Boa Nova após a Ascensão e Pentecostes.

Nossa reflexão para o Evangelho desta liturgia escolhe a versão mais longa, sugerida no evangeliário litúrgico, ou seja, Lc 16,1-13. O centro do capítulo 16 está no versículo 13: “Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou odiará um e amará o outro, ou se apegará a um e desprezará o outro. Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro”. Não há meio-termo: ou servimos ao Senhor-Deus, ou servimos ao senhor-dinheiro. Um é incompatível com o outro, pois cada qual tem suas próprias regras. E não pensemos que esta palavra de Jesus, trazida até nós pela comunidade lucana, pareça ingênua, ou utópica. Trata-se de uma denúncia à ganância, ao acúmulo, ao Capital. O capitalismo é fundamentado no egoísmo. E não se pode deixar de lembrar que o egoísmo é contrário ao projeto de Deus. Com efeito, o Reino de Deus se alicerça no amor, que produz relações justas e fraternas, possibilitando solidariedade e partilha. É inegável a constatação de que se nós entendêssemos esses valores do Evangelho, muitas de nossas mazelas sociais deixariam de existir. A Justiça Social se faz luz a iluminar as trevas da miséria humana, onde irmãos e irmãs padecem pela fome, estão desabrigados, sem direito à saúde, tendo educação sucateada etc. O reino do dinheiro repousa suas forças no egoísmo, que produz injustiça, que transborda em não-fraternidade, não-partilha, ou seja, na busca insana por poder e riqueza.

Na dinâmica do neoliberalismo, no capitalismo galopante, o que temos é a sede obsessiva por acúmulo de riquezas, que sustenta a luta pelo poder. Quem tem mais, pode mais. A riqueza confere poder dentro de um sistema plutocrático! Regido pela lógica da meritocracia. O que fazer? Aprender a ser esperto, conforme vemos em Lc 16,1-8; e usar bem o dinheiro, como vemos em Lc 16,9-12?

Para responder às perguntas acima apresentadas, Jesus conta a Parábola do Administrador Desonesto. Há que se ter todo o cuidado quando da leitura desta perícope lucana! Um leitor desavisado pode entendê-la como um elogio à esperteza. Além de vilipendiar os bens do patrão rico, o administrador dilapida-o ainda mais para salvar a própria pele, depois de demitido do cargo. Usa do dinheiro do patrão para fazer amigos que possam lhe viabilizar o sustento, quando vierem as dificuldades, após sua demissão por má administração. E Jesus parece elogiar a ação arrojada deste administrador desonesto. O que pensar? O que ele realmente quer dizer? Em verdade, esta parábola de Jesus pretende ser uma exortação sobre as dificuldades em que se verão seus seguidores e seguidoras. O administrador desonesto simboliza todos aqueles e aquelas que vivem suas vidas sobre a regra do ter mais, para ser mais. São os mesmos que, ainda hoje, exploram os trabalhadores, vilipendiam o Direito e a Justiça, agem como se a vida humana pudesse ser somente mais um algarismo na equação da economia. E como vimos estes pensamentos tortos nos últimos tempos! Lembremo-nos da abordagem irresponsável, negacionista e truculenta do Governo, quando da pandemia do COVID-19. Nesta luta insana pelo lucro e pelo poder, os pequeninos são os que mais sofrem. Por isso Jesus adverte para que tenhamos a mesma astúcia para superar aqueles e aquelas que são nossos algozes. Quem se compromete com o Evangelho de Jesus, deve ter olhos fixos na esperança, sem deixar de ter os pés firmes no chão. “Com efeito, os filhos deste mundo são mais espertos em seus negócios do que os filhos da luz” (Lc 16,8b). Isso significa que não podemos ter os olhos fechados aos terrores que nos cercam. Estes que escolheram o deus-dinheiro, estão dispostos a tudo por sua idolatria perversa. Nós devemos nos acautelar e, na medida do possível, anunciar os valores do Reino, opondo-nos aos que se fizeram como que mercadores da morte, em nome do lucro Capital.

A enigmática Parábola do Administrador Desonesto foi dirigida originalmente aos fariseus, o que se pode verificar em Lc 16,14. Outrossim, os primeiros cristãos procuraram dar um colorido novo à esperteza, para que as comunidades de seguidores e seguidoras de Jesus pudessem aprender mais. Uma das lições que se pode inferir desta parábola é que a Justiça pode ter dinâmicas diversas em casos de extrema necessidade. Dom Helder Câmara, em um de seus mais belos sermões, chegou a escandalizar a sociedade dos puros e santos, quando afirmou que “em caso de extrema necessidade, todos os bens são comuns”. Por mais que esta afirmação possa parecer um arrojamento do Santo Rebelde, trata-se de um axioma clássico na moral cristã. A justiça pode vir por caminhos menos lógicos, como que por atos de reparação para com os empobrecidos. O acúmulo de riquezas é ilegítimo e injusto, pois – para que pouquíssimos ricos se tornem cada vez mais ricos – pobres são relegados proporcionalmente à vulnerabilidades, tornando-se cada vez mais pobres. O que se pode concluir: uma divisão, mesmo que compulsória de bens, pode ser uma via de equidade, tornando a justiça possível. É isso que podemos inferir de Lc 16,9. O que me sobra sempre deve ser repartido, porque não me pertence mais, e sim àqueles que nada têm. Precisamos ser fiéis na justiça e na equidade, para que Deus nos chame a ser partícipes de seu Reino (cf. Lc 16,10-12).

Voltemos a uma informação oferecida no início de nossa reflexão: o versículo 13 é o centro do capítulo 16, no Evangelho de Lucas. Ele nos convida a fazer uma escolha decisiva e definitiva, porque o Senhor-Deus é incompatível com o senhor-dinheiro. Ou servimos a um, ou ao outro. Não é possível ficar com os pés em duas canoas. O deus-dinheiro nos afasta do projeto de Jesus, uma vez que se sustenta na dinâmica da opressão. O resultado desta Idolatria-Capital é opressão e exploração que produzem poderosos e ricos, “pisando as cabeças” de fracos e miseráveis. E a dor destes últimos, o clamor deles, chegam ao Céu (cf. Ex 3,7; Sl 34,17-18; 145,14-15; Is 41,10; Mt 11,28).

O que nós, comunidades de seguidores e seguidoras de Jesus, podemos aprender dessa parábola e de sua exortação seguinte? Vivemos em tempos nos quais a ética tem sido relegada à ficção, no que se trata das relações humanas. O que vale hoje é ter mais, ser mais e aparecer mais. Os valores defendidos por Jesus são – muitas vezes – transformados em pílulas de afago ao ego, esvaziadas da radicalidade que nos deveriam interpelar e inferir. Toda Palavra de Jesus que nos leva a uma mudança radical, pela qual se rompa com esse sistema de marginalização e exclusão; é vista como alegoria, metáfora etc. Claro que quem assim se posiciona, o faz para assegurar seus privilégios, com uma pseudo-atualização da Palavra de Deus. Todavia, certas exortações tendem a ser exatamente o que parecem. Hipérboles que servem como que cajadadas em nossa tibieza e torpeza de espírito. No que se refere às relações sociais, que devem ser justas e solidárias, a agudeza das palavras de Jesus se acentua. Isto porque a solução para os problemas de nossa sociedade está em uma opção radical pelo Evangelho. Amar com a radicalidade com que Jesus nos amou, cessaria as muitas feridas do nosso meio, tais como: desigualdades, exploração dos pobres, marginalização, xenofobia, misoginia, entre outros vírus que adoecem nossa sociedade.

Importa que sejamos ternos e fraternos, pobres e livres; amando, perdoando e colocando-nos sempre ao lado dos fracos. Para isso, precisamos renunciar à idolatria do dinheiro e abraçar o Reino de Deus.


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