Deus nos chama a partir da história – Parte 2: Sara, mulher de Abraão, testemunha de esperança, fé e amor!

Por Karina Moreti

Após falarmos em nosso primeiro texto[1] sobre a vocação de Abraão, não poderíamos deixar de lado sua esposa, Sara. Em nossa jornada bíblica, estamos no Livro do Gênesis e daremos continuidade aos relados da História dos Patriarcas e Matriarcas. Tais relatos se iniciam com a história de Abrão, que será renomeado por Iahweh posteriormente como Abraão, pai de um grande povo. Qual o objetivo desta série de textos sobre como Deus nos chama a partir da história?

Em tempos nos quais as vocações para o seguimento de Jesus se fazem descontextualizadas da realidade, é imperativo que voltemos à Palavra de Deus e, por ela, iluminemos nossos sentimentos e nosso pensar. Não são raras as manifestações religiosas, pelas quais, percebemos certo anacronismo. O medieval nunca foi tão pós-contemporâneo. Há erro nisso? Sim, há! Conforme podemos ver pelo Magistério Pontifício (sobretudo, após o Concílio Vaticano II) e pelas Diretrizes para a Ação Evangelizadora da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a missão primeira da Igreja é Evangelizar. E este anúncio do Evangelho deve estar concomitante com as Culturas e com o Tempo. O que se conclui: nossa evangelização só é realmente eficaz quando inculturada, ou – pelo menos – coerente com nossos tempos. Haja vista que o próprio Jesus, ao manifestar seu programa messiânico, o faz pelo texto de Isaías 61. Todavia, adaptando-o à realidade de seu tempo. O Evangelho Lucano (Lc 4,16ss) coloca Jesus na sinagoga, lendo o profeta Isaías, omitindo alguns versículos, os quais eram intimamente ligados ao contexto do Exílio da Babilônia (586 a 538 aC) e não à ocupação Romana (63 aC – 476 dC)  – contexto do Evangelho.

O que dizer sobre Sara? Em poucas palavras a definiria como uma mulher que muito amou. Para entendermos sua vida e testemunho, voltemos ao sul da Mesopotâmia, por volta dos anos 1900 a.C. Nesta época, os Amoritas ocuparam a região onde viviam Abrão e Sarai (nomes anteriores à Aliança com Iahweh). Este povo, os Amoritas, trazia em si a característica de ser um povo conquistador. Afeitos à batalha, os Amoritas ocupavam territórios e, sob o braço forte da violência, colonizavam os nativos impondo sua cultura e explorando os recursos naturais da região. Assim aconteceu com os povos originários do sul da Mesopotâmia, entre eles, os sumerianos. E Abrão era um sumeriano. É fato que iremos conhecer Abrão como o hebreu. Todavia, este nome lhe foi dado quando migrante em Canaã, que significa aquele que vem da outra margem, do outro lado, ou seja: estrangeiro ou migrante. Não podemos deixar de sublinhar que a palavra hebreu tinha uma conotação preconceituosa, carregada de xenofobia. Assim sendo, pertencendo aos clãs seminômades da Mesopotâmia, Abrão tinha sua referência étnica como sumeriano. A condição de seminômade se justificava por se ocupar da criação de rebanhos, tendo assim como necessidade a migração de lugar para outro, em razão de melhores pastagens, água etc. Abrão não era um latifundiário. Podemos defini-lo como um Sem Terra, peregrino em razão de sua subsistência e de sua família. E peregrinando pela vida na região da Mesopotâmia, eis que a nova geopolítica do lugar o coloca, assim como toda sua família, em situação de risco.

Como exposto acima, os Amoritas eram violentos e conquistadores. As origens deste povo podem ser situadas no deserto árabe. Ao chegar no sul da Mesopotâmia, pela colonização predatória, constitui o Primeiro Império Caldeu, o que conheceremos depois como Babilônia, ou Império Babilônico. Os Amoritas foram responsáveis por avanços culturais, como o desenvolvimento de um sistema de escrita cuneiforme e a construção de templos e palácios. A religião era politeísta, com a ascensão do deus Marduk, depois identificado como principal divindade do panteão da Babilônia, ou panteão mesopotâmico. Tendo ocupado a região, fazem da cidade de Ur uma grande metrópole, localizada no Iraque moderno, ao sul da atual cidade de Nassíria, E como uma metrópole, carrega suas particularidades como tal. Aos Amoritas, ou Caldeus enquanto lá estabelecidos, importava a grandeza. Assim, quem não fosse detentor de grandes riquezas, ou não estava em posse de grandes latifúndios, era relegado à marginalização, estando sujeito à violência, exploração e morte. O que seria de Abrão e sua família? É aqui que a história extra bíblica se encontra com a Palavra Revelada. A vida de Abrão e Sarai são tomadas sob o cuidado de Iahweh, Deus dos oprimidos e sofredores.

Como vimos em nosso texto anterior (para ler o que antes fora exposto sobre Abraão clique AQUI), Iahweh se revela a Abrão e o conclama a deixar aquela terra de sofrimentos para um lugar melhor. Diz o texto de Genesis:

“Iahweh diz a Abrão: ‘Sai de sua terra, da tua parentela e da casa de seu pai, para a terra que te mostrarei. Eu farei de ti um grande povo, eu te abençoarei, engrandecerei seu nome; sê uma benção!'” (Gn 12,1-2)

Este texto bíblico, conhecido como Vocação de Abraão, traz em si mais do que possa perceber um leitor desavisado. Pode parecer que Deus queira somente que o personagem faça um movimento migratório, sob a possibilidades de fartura e bem estar. Todavia, há que se considerar todo o contexto do que acontecia na Mesopotâmia e, por conseguinte, a Abrão e sua família. Ao pedir que ele deixe sua terra, se faz uma intervenção na história deste homem e de sua família, transformando-a com possibilidades auspiciosas para se libertar da opressão que se instalara em Ur e região. Na vocação de Abraão, extensiva a toda sua gente, se faz um ato divino de libertação.

“Abrão tomou sua mulher Sarai, seu sobrinho Ló, todos os bens que tinham reunido e o pessoal que tinham adquirido em Harã; partiram para a terra de Canaã, e aí chegaram.”
(Gn 12,5)

Na secção de Gn 12,5, podemos perceber duas coisas muito importantes. Primeiramente, a mulher de Abrão é citada pelo nome. Não se refere a ela somente por sua função no clã (esposa). Algo comum nos relatos bíblicos, considerando a cultura patriarcal. Ao contrário, Sarai é identificada pelo nome, fazendo-se sujeito da história. Outra curiosidade é que, mesmo sendo Ur a origem de Abrão, o texto nos informa que ele sai de Harã. Esta nuance do texto nos indica movimento, o que registra em definitivo as raízes seminômades daquele povo. Em um único versículo de Genesis (12,5) temos a identificação de uma mulher como protagonista da história e sua contextualização antropológica. O que isso significa? Deixa-nos claro que Iahweh se manifesta na história, incrustando-se nela e – com seus filhos e filhas – ressignifica suas histórias, construindo Aliança, sempre a partir de sua predileção pelos pequeninos, sujeitos aos sofrimentos que lhes são impostos pelos poderes totalitários que imprimem marginalização, exploração e, até mesmo, a morte. O Deus da Vida, Iahweh, se revela Deus de libertação!

Ao longo do que se segue ao exposto acima, o livro de Genesis nos oferece muitas informações. Registra muitas memórias. Aventuras e desventuras, encontros e desencontros. Sendo nosso desejo falar aqui sobre Sara, vamos um pouco adiante no texto.

O capítulo 15 do primeiro livro do Pentateuco se inicia fazendo memória da Aliança de Iahweh com Abrão e seu povo. Diante da promessa de que ele, Iahweh, sempre estaria com Abrão e os seus (15,1) e que a ele seria destinada uma grande recompensa. Neste ínterim, nosso patriarca dos hebreus apresenta um problema: como poderia Iahweh lhe destinar grandes realizações, se ele e sua mulher não tinham filhos e, portanto, não tinham herdeiros? E aqui temos a síntese da promessa: benção, povo e terra. Após sair da Mesopotâmia, da terra dos caldeus, ter sobrevivido às opressões que lá se instalaram, Abrão permanecia em terra estrangeira, na condição de migrante. Como tal, era vítima da xenofobia que se manifestava ao redor. Por isso, como exposto acima, ganhou a efidie de hebreu. Um estrangeiro sem terra e sem nome; sem eira, nem beira. A benção de Iahweh, para ser plena, deveria cumprir os valores inalienáveis daquele tempo. Ser um povo e, para tanto, ter suas raízes, sua terra. Nada disso se fazia possível porque não tinham filhos.

Abrão, na confiança de um um filho que se dirige ao pai, abre seu coração, como que em súplica: “Meu Senhor Iahweh, que me darás? Continuo sem filho… Eis que não me deste descendência e um dos servos de minha casa será meu herdeiro.” (Gn 15,2-3). Fato é que a configuração em que vivia a família de Abrão deslegitimava toda a Aliança de Deus com eles. Por isso, Iahweh responde: “Ergue os olhos para o céu e conta as estrelas. (…) assim será a tua posteridade” (15,5-6). E acrescentou: “Eu sou Iahweh que te fez sair de Ur dos Caldeus, para te dar esta terra como propriedade” (15,7). E Abrão creu em Iahweh (cf. Gn 15,7). E com ele, sua mulher e todo seu clã. Agora, sim, a Aliança se fazia completa. Benção, povo e terra.

Sarai, esposa de Abrão, após o capítulo 16 de Genesis, toma parte mais ativa na história. Se faz protagonista no cumprimento da promessa de Iahweh. Vendo que se passava o tempo e ela não tivera ainda filhos, oferece sua serva de origem egípcia, de nome Agar, para que pudesse dar a seu marido um filho em nome dela. Por mais que esse relato possa nos provocar alguma estranheza, uma mulher entregar sua serva aos braços e intimidade de seu marido para que esta engravide dele, há que se focar no que se tem para além das linhas escritas. Primeiro, precisamos entender a época e a cultura daquele povo. A poligamia era vista sem reservas mais sérias, o que justifica uma mulher – sem filhos – tomar uma atitude radical, pois era vista com escárnio pelos que a cercavam. A proposta de Sarai para Abrão e Agar não era de todo um absurdo, tendo em vista as matizes antropológicas. Claro que, em nossos tempos, este texto nos desperta alguns discernimentos sobre os desafios das mulheres em nossa sociedade. Todavia, que nos apeguemos à análise exegética do relato!

Gn 16,1-16 trata de duas mulheres e suas dores. E de um homem, já experimentado nos anos, sendo assombrado pelo fantasma da desilusão. Os intercursos sobre os quais se ocupa o relato, em verdade, trata de uma midraxe para contar as origens do povo hebreu e dos Ismaelitas. Assim como, aludir à futura rivalidade entre estes povos. Ocupando-nos de falar sobre Sara, aqui se registra a história de uma mulher que se dispõe às amarguras de dividir seu amado com outra mulher, para que a promessa de Iahweh não caísse no esquecimento. Além do mais, trata-se de uma esposa que abre mão de seus mais arraigados sentimentos humanos para que seu homem não tenha toda uma vida frustrada. Sarai se faz imensa em abnegação e suporta a dor lancinante de uma mulher com ventre infrutífero. Sujeita ao escárnio, ao desprezo e ao ciúme. Tudo isso em nome do amor por seu marido e pela fidelidade à Aliança.

Há muito o que se dizer sobre Agar. Tenho em mente um ode de louvores a esta mulher. Além de justificativas considerações das nuances de sua história. Deixemos para outra de nossas jornadas bíblicas. Voltemos à Sara.

A partir do capítulo 17 de Genesis temos por fim a realização plena das promessas de Iahweh à Abrão e Sarai. Por um relato cheio de símbolos e beleza, o autor do primeiro livro do Pentateuco nos aquece o coração. Já no primeiro versículo temos: “quando Abrão completou noventa e nove anos, Iahweh lhe apareceu e lhe disse: ‘Eu sou El Shadday, anda na minha presença e sê perfeito'” (17,1). A palavra que Deus usa para se denominar (El Shadday) é um antigo nome divino da época patriarcal, que de certa forma foi deturpado, enquanto gênero (cf. Gn 28,3; 35,11; 43,14; 48,13; 49,25). Além de sinalizar que esse fragmento de Genesis corresponde à tradição sacerdotal da Bíblia, podemos entender que o redator deseja indicar a continuidade da ação deífica. Pretende assinalar que Iahweh é o Deus que se revela na história. A história da salvação é contínua, e faz parte da grande revelação e inter-relação dele, como Senhor desta história. Há quem traduza El Shadday como Deus Todo-Poderoso, porém essa tradução é inexata. Assimilemos que o uso desta palavra, deste auto denominativo de Deus, se justifica no desejo de manter certa unicidade da ação de Iahweh. O Deus que está com seu povo desde Abrão e Sara, no Primeiro Testamento, revelando-se plenamente em seu Filho Jesus, no Segundo Testamento.

No versículo 2 Iahweh continua: “Eu instituo uma Aliança entre mim e ti, e te multiplicarei extremamente” (17,2). E continua: “Quanto a mim, eis minha Aliança para contigo: serás pai de uma multidão de nações. E não mais chamará Abrão, mas teu nome será Abraão, pois eu te faço pai de uma multidão de nações” (Gn 17,4-5). A mudança do nome Abrão para Abraão designa o cerne da Aliança. Iahweh muda a história deste patriarca, ressignificando-a benignamente. O novo nome dado, Abraão, pode ter a mesma raiz etimológica, que pode significar “Ele é grande”. Porém, podemos ligar Abraão a seu assonântico “ab hamôm” que significa “pai de multidão” [2]. Nestas palavras do Deus da Vida, a vida de Abraão se faz restaurada em plenitude. Aquele que era marginalizado, excluído; se tornará grande, pai de um numeroso povo. Excelente em número e dignidade. O Povo de Deus! E com ele, sua mulher Sarai, também será marcada pela benção em plenitude.

Continuando no capítulo 17 de Genesis, vemos: “A tua mulher Sarai, não mais se chamará Sarai, mas seu nome é Sara. Eu a abençoarei e dela te darei um filho; eu a abençoarei, ela se tornará nações, e dela sairão reis e povos” (17,15-16). Assim como com Abraão, o nome dado por Iahweh a Sarai significa sua ação na história desta grande mulher. Aquela que muito amou e permaneceu fiel à promessa, não obstante os muitos sofrimentos, se chamará doravante Sara, ou seja, Princesa. Sara será, com efeito, mãe de reis, enquanto matriarca de todo um povo[3].

Muito se poderia dizer ainda sobre esta matriarca do povo hebreu e testemunha de fé e amor para nós hoje. Gostaria ainda de acrescentar algo que penso ser de suma importância sobre Sara na história bíblica. Vamos à Gn 23,1-20. Chega o fim da vida de Sara. Esta mulher que ficou guardada na história bíblica como testemunho de amor, coragem e fidelidade; marcará em definitivo – após sua morte – a história de seu povo. Lembremo-nos que Abraão, por longo tempo, viveu como estrangeiro, migrante. E, com isso, sofreu grande preconceito. Para aqueles com quem Abraão viveu e conviveu, uma coisa ainda lhe faltava. Sara lhe deixara Isaac como filho e, nele a garantia de uma descendência. Faltava à Abraão uma parte da benção de Iahweh, de sua promessa. Faltava-lhe a terra e, com isso, a solidificação de sua cidadania na terra que Deus lhe prometeu. Esta benção veio por meio de Sara, mesmo depois de sua morte. A morte de Sara ressignifica a vida de Abraão. Ao propor a compra de um terreno de Efron, para ali instalar o sepulcro de sua amada esposa. Com a terra, adquiria também a cidadania em Canaã. O relato parece confuso, cheio de idas e voltas. Por um lado, Abraão quer comprar o campo de Efron, onde havia uma Gruta de Macpela, destinada a jazigo, a sepulcro. Por outro, os proprietários pendiam para o empréstimo e depois até à doação voluntária do terreno. E Abraão insistia na compra. Pedia que se fixasse um preço, o qual pagaria. Fica-nos possível o entendimento desta negociação se compreendermo-la como muito mais do que o direito ao uso do terreno e sua gruta para o sepultamento de Sara. Entendamos que a posse do terreno retira de Abraão a condição de migrante, conferindo-lhe cidadania e dignidade. E a negociação se segue por 20 versículos, todo o capítulo 23 de Genesis, quando finalmente se fixa um preço, o pagamento é feito e Sara é sepultada. Com ela se encerra uma longa vida de peregrinações, sofrimentos e xenofobia. Sara, a princesa matriarca do povo hebreu, deixa a vida, gerando vida. Ressignificando a história de Abraão e de todo seu povo.

Sara, mulher de Deus, nos deixa grande testemunho de amor e protagonismo até depois de sua morte. Ela testemunha amor incondicional, coragem abnegada e esperança infinita. Sara é mulher que no seu tempo, foi testemunho para além do tempo. Matriarca da vida e da dignidade de todos os peregrinos e marginalizados.


Notas

[1] Cf. https://eclesialidade.org/2025/09/14/deus-so-nos-chama-a-partir-da-historia-a-vocacao-de-abraao-e-a-nossa-caminhada-eclesial/

[2]Cf. Bíblia de Jerusalém, nota para Gn 17,4.

[3] Cf. Bíblia de Jerusalém, nota para Gn 17,15.

Referências Bibliográficas

BÍBLIA DE JERUSALÉM. Nova edição, revista e ampliada. São Paulo: Paulus, 2002.

GASS, Ildo Bohn (Org). Uma Introdução à Bíblia, Vol 2: Formação do Povo de Israel. São Paulo: Paulus & CEBi, 2002.

STORNIOLO, Ivo; BALANCIN, Euclides Martins. Como ler o livro do Genesis, Origem da Vida e da História, Coleção Como ler a Bíblia. 17ª Ed. São Paulo: Paulus, 1997.


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