Por Pe. Hermes A. Fernandes
O Evangelho do 26º Domingo do Tempo Comum está no bloco dos dez capítulos que compreendem a viagem de Jesus com seus discípulos à Jerusalém. A partir do capítulo 9 de Lucas, mais precisamente depois do versículo 51, Jesus inicia sua jornada para Jerusalém. Uma longa caminhada da periferia para o centro, da Galileia para a Capital do poder religioso e político, Jerusalém. Esta jornada se configura como a parte mais original de seu Evangelho, que lhe consagra dez capítulos (9,51 a 19,28). Os sinóticos tratam desta jornada de forma mais sucinta. Marcos ocupa um capítulo de seu Evangelho e Mateus dois. O sentido do relato desta viagem é tratar das implicações da morte de Jesus, como consequência de seu compromisso com as causas dos pequeninos, vítimas da opressão romana e do judaísmo normativo. Esta é a viagem da libertação que tem seu ápice e significado em Lc 23,46. Para seus discípulos, foi oportunidade de uma grande catequese, quando se teve maior intimidade com a pessoa de Jesus e com sua missão. Afinal, também eles serão responsáveis pela continuidade do anúncio da Boa Nova após a Ascensão e Pentecostes.
Como eixo central da Liturgia deste domingo temos Lc 16,19-31. Esta perícope ficou eternizada em nossos corações como a Parábola do rico e de Lázaro. Para nossa reflexão deste domingo, gostaria de propor um movimento lúdico, pelo qual faremos um paralelo entre o evangelho lucano e um clássico da literatura inglesa: “A Christmas Carol”, ou Um conto de Natal, de Charles Dickens.
As relações entre ricos e pobres povoam a história humana. Há quem se deixe enamorar pelo desejo de acolher e amar os sofredores. Há quem lhes sejam indiferentes e, até mesmo, hostis. Na literatura, assim como nas Escrituras Sagradas, estas relações não podiam passar despercebidas. Nos escritos de Lucas, podemos encontrar em Lc 16,19-31 a Parábola do Rico e de Lázaro. Na literatura inglesa, temos o Um Conto de Natal ou “O Natal do Sr. Scrooge”, de 1843, escrito por Charles Dickens.
Vamos à parábola de Lucas. Um homem rico, não necessariamente cruel ou hostil, ignora o pobre mendigo prostrado à porta de sua casa, definhando-se. Sua inércia, diante daquele homem faminto e desprezado, reflete uma atitude de indiferença, muitas vezes inerente à comunidade humana, habituada a conviver com uma dilacerante realidade social, em que a pobreza, a violência e a injustiça; se fazem presentes por toda a parte. As nuances da pessoalidade do rico não são enumeradas na parábola. É um personagem como muitos outros de nosso cotidiano. Vive a gozar de sua riqueza. Entre banquetes e esbanjamentos, simplesmente ignora o sofrimento à sua volta. Acostuma-se a fartar-se de si. Mas a parábola não para aí. O rico, preso aos bens materiais, tornou-se insensível, egoísta, cego e surdo às necessidades de seus semelhantes. A lógica de Jesus corresponde: ao rico, na parábola, sequer lhe é dado um nome. É um rico anônimo. Ele, que tanto esteve cego diante do sofrimento de seus semelhantes, permanece anônimo na parábola de Jesus. No Reino, os pobres são senhores. Por isso, Lázaro é reconhecido. O pobre tem nome. Os olhos de Deus voltam-se aos necessitados, aos sofredores. Iahweh conhece-lhes o coração, a dor. Chama-lhes pelo nome.
Lázaro não é apenas alguém materialmente pobre; é um homem de fé que, apesar de uma vida adversa e sofredora, jamais perdeu a esperança em Deus. Aliás, seu nome significa: “Deus é meu auxílio”. O rico, preso aos bens materiais, torna-se insensível e egoísta, cego e surdo às necessidades de seus semelhantes. Ignora os que estão a sua volta. Seu nome, também, ficou ignorado.
Após a morte, o pobre Lázaro vai para “junto de Abraão” (16,22), enquanto o rico permanece “na região dos mortos, no meio dos tormentos” (16,23). Mesmo neste segundo cenário da parábola, seu nome é ignorado. Observa S. Agostinho: “O relato não traz o nome do rico que, neste mundo, andava de boca em boca, enquanto o nome do pobre, que ninguém nomeava, está inscrito no céu, pela própria iniciativa de Deus”.
Na eternidade, diz a parábola, separa-os um abismo, criado ao longo da vida terrena. Insistente apelo aos discípulos, para que acolhessem e vivessem as palavras dos profetas, que exortavam a praticar a justiça e o amor ao seu semelhante. Exortação que se dirige ainda a nós e nossas comunidades. Não fechemos nossos olhos à dor dos pequeninos. Não desviemos dos pobres nosso olhar (cf. Tb 4,7).
Vamos visitar agora a literatura inglesa. No livro de Charles Dickens acima citado, havia um rico opulento. Avarento, ranzinza, explorador. O típico rico de uma sociedade marcada pelo capitalismo galopante, desumano. Na véspera de Natal, quando chega em sua casa, algumas coisas bizarras começam a acontecer. Entre elas, o fantasma de Marley, seu antigo sócio que morreu há alguns anos, aparece de uma forma medonha – cheio de correntes presas em sua cintura – com um recado: enquanto vivo, ele tinha sido exatamente como Scrooge e sua punição foi vagar por toda a eternidade carregando essas correntes. Para o personagem de Dickens, ainda havia uma esperança. Naquela noite, três Fantasmas do Natal iriam visitá-lo e levá-lo para refletir sobre seus atos.
Além da beleza literária que nos apresenta a obra de Dickens, podemos inferir uma grande lição para nossas vidas. Diferentemente do Rico da parábola de Lucas, a Ebenezer Scrooge é dada a chance de rever seus atos, converter-se de suas inclinações e reconstruir sua história, sabendo que sua morte seria triste e solitária. E ainda: suas atitudes teriam consequências terríveis aos que estavam a sua volta. Algo que ele teimava em ignorar. Decide aproveitar da esperança e da chance que lhe foi oferecida e muda o rumo de sua vida. Torna-se solidário, alegre, tolerante. Em suma, um homem bom. Diferente do rico da parábola de Jesus, ele recebeu a oportunidade de rever sua vida. Salvar-se.
Aqui cabe um paralelo: Quando o rico clamava por misericórdia, esta lhe foi negada. Havia um abismo entre o seio de Abraão e o mundo dos sofrimentos. Também lhe é dito que Lázaro não poderia voltar aos seus, ainda vivos, e lhes avisar do destino final dos opulentos, exploradores, insensíveis. Conforme lhe é dito “eles têm Moisés e os profetas. Que os ouçam!” (Lc 16,20b). A Scrooge é apresentada a oportunidade de ser visitado pelos três fantasmas, que lhe mostram a escuridão de seus sentimentos e atitudes. Revelam-lhe, também, o seu destino e o destino daqueles que ele ignora e, por isso, muito sofrem. O Rico de Dickens acreditou. Metaforicamente, ouviu a Moisés e aos profetas. Salvou-se e aos que estavam ao seu lado e dependiam de sua bondade.
Duas palavras-chave podemos elencar aqui. A primeira é sensibilidade. A segunda, responsabilidade. Ao contrário do que muitos de nossos irmãos abastados pensam, o sofrimento de um só ser humano é problema de toda comunidade de seguidores e seguidoras de Jesus. Não somente dos órgãos competentes, como Scrooge teimava em apregoar. Para a dor do outro, não nos basta pagar impostos e esperar que as políticas públicas assistenciais funcionem. É preciso sensibilizar-se. A fome que clama no ventre de um só de nossos muitos empobrecidos, é resultado de nossa insensibilidade e irresponsabilidade. Outra lembrança que cabe aqui é que o rico da parábola não era exatamente mau. Não maltratava as pessoas como o fazia o rico de Dickens, Scrooge. Outrossim, a insensibilidade do rico Lucano perdurou até sua morte. Enquanto no Conto de Natal de Dickens, nosso vilão se transforma em herói, na reviravolta da trama. Fazendo-se um homem bom, convertido à sensibilidade, solidariedade, acolhida, misericórdia. Aliás, a misericórdia que ele clamou ao terceiro espírito de natal, foi a postura que adotou para os últimos dias de sua vida. Muito amou, quem muito recebeu.
O amor devido aos semelhantes é um impulso da sensibilidade, uma comoção do coração, mas muito mais: ele exige uma ação prática, ativa e inteligente. Daí as palavras de S. Jerônimo: “Oh! Quão infeliz és tu entre os homens! Vês um membro do teu corpo prostrado diante da porta e não tens compaixão! Em meio às tuas riquezas, o que fazes do que te é supérfluo?”. Aqui São Jerônimo compara o outro que sofre a um membro de nosso próprio ser. Aquele que jaz nas calçadas, faminto e maltrapilho, é um membro de nosso próprio corpo, pois é membro da Igreja de Jesus, um só corpo no Cristo. Indignação que nos golpeia e levou o Papa Francisco, de saudosa memória, a dizer: “Hoje, muitos se acomodam e se esquecem dos outros, não veem seus problemas, suas chagas e dores. Jazem no indiferentismo” (Catequeses, Papa Francisco, 18 de maio de 2015).
Que não esperemos o fim de nossas vidas para entender que a sensibilidade e responsabilidade que podemos dedicar, em acolhida aos sofredores, será a mesma misericórdia que dispensará nosso Deus para conosco. Na vida real, é o próprio Jesus que nos exorta: “Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso!” (Lc 6,36).
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